Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Jornais gratuitos invadem a França

MÍDIA & MERCADO

Leneide Duarte, de Paris

Astérix e Obélix ressuscitaram nas redações francesas, na semana passada, para combater invasores suecos e noruegueses. Em Marselha, os franceses entraram na batalha utilizando as armas dos inimigos.

Tudo começou na segunda-feira, dia 18, quando a versão francesa do diário gratuito sueco Metro desembarcou na terra dos gauleses, última a resistir à invasão dos nórdicos, que já estão em 14 países e 20 cidades da Europa e das Américas. Em todos os países onde se instalou, Metro implantou jornais diários que têm o formato tablóide, notícias de atualidade em textos curtos ? escritas por (poucos) jornalistas a partir de noticiário de agências de notícias ?, (muitas) fotos coloridas e infográficos. E a particularidade de poderem ser lidos em 20 minutos e não custarem nada ao leitor. Toda a receita desses pequenos jornais acusados de predadores vem da publicidade.

Quem os acusa de predadores? A imprensa paga, a maior ameaçada pelos nórdicos, que não são apenas os suecos. Um outro grupo, o norueguês Schibstred, prepara-se para lançar em março, em Paris, o diário gratuito 20 Minutes .

O jornal Le Monde foi mais discreto na cobertura da chegada dos cotidianos gratuitos à França. Discreto no tom, não no espaço. Dedicou várias reportagens ao tema, sempre em textos que primavam pela objetividade. O Libération, por seu lado, abriu suas baterias contra os gratuitos ? em editorial e no noticiário. A principal matéria de capa do Libé de terça-feira [19/2] tinha uma foto do Metro com o título: "Gratuitos: desconfiem das imitações". O material de duas páginas contava a tentativa de implantação, na véspera, em Paris e em Marselha, das edições francesas do diário do grupo sueco. E relatava a estréia bem-sucedida, no mesmo dia, do diário gratuito Marseilleplus, do grupo francês de imprensa Hachette Filipacchi Médias (HFM), que tenta fazer barreira ao concorrente sueco.

O Marseilleplus começou a circular com 100 mil exemplares/dia e 24 páginas de informação "nervosa, concisa, eficaz", segundo seu editorial de apresentação. Houve tumulto e confronto entre sindicalistas e os encarregados de distribuir Metro, que no dia do lançamento foi bloqueado em Marselha mas pôde ser lido em Paris, não sem protestos dos sindicatos franceses envolvidos na impressão e na distribuição de jornais.

Jornais sem redação

A imprensa diária gratuita é legítima? Os jornais que dão ao leitor informações sem nada cobrar têm um papel a cumprir? Jornalismo diário gratuito é uma nova mídia ainda mal compreendida? A imprensa diária gratuita, surgida em meados dos anos 90, vai matar os jornais populares pagos? A discussão em torno do tema pegou fogo na França.

"Jornais diários sem redação que desrespeitam todos os mercados", acusava Serge July em artigo no Libération. Em sua matéria, July explicava que um bom jornal cotidiano tem uma redação de cerca de 250 jornalistas, enquanto os gratuitos têm apenas 10. "As pessoas, as sucursais, os enviados especiais no mundo inteiro têm um preço. É o que você paga quando compra seu diário. Você compra a especialização, a inteligência, a contextualização, a análise e as escolhas, em função dos valores próprios a cada jornal. Os gratuitos têm aparência dos jornais de informação, o cheiro de papel de jornal, mas as semelhanças param aí. O papel de jornal não é suficiente para fazer um diário de informação."

Na imprensa paga, os anunciantes representam, em média, a metade das receitas, podendo chegar até 80% do total. Nos cotidianos gratuitos, toda a receita vem dos anunciantes. E para angariar publicidade, eles fizeram um verdadeiro dumping no lançamento, dando descontos de até 80% para a programação de 20 anúncios em 3 meses. Eles concorrem principalmente com os jornais diários populares, que começam a perder anunciantes e acabam por fechar. Essa migração de anunciantes num mercado já em crise pôs a imprensa francesa em estado de alerta máximo.

Luciano Bosio, autor de um estudo sobre a imprensa de informação gratuita na Europa, avalia que os cotidianos pagos perdem entre 5% e 7% de leitores nas cidades onde foram lançados os gratuitos. Não é muito. Quem são, então, os leitores desses jornais? Um público que antes não comprava jornais diários, em geral pessoas com menos de 35 anos que passam a se informar por intermédio desse novo meio impresso, distribuído principalmente nas estações de metrô e de trem das grandes cidades.

Big Mac de papel

Pelle Tornberg, o presidente do grupo sueco Metro International, de passagem por Paris, disse que seu empreendimento veio para ficar. Com a preocupação de tranqüilizar o meio jornalístico francês, ele afirmou que os jornalistas estrangeiros que estão fazendo os primeiros números foram trazidos das cidades onde o jornal já existe. Depois, serão substituídos por jornalistas locais.

Esse know-how que é levado a cada nova redação do Metro faz com que ele tenha a mesma aparência em todos os países. "É um pouco como um Big Mac, mas em alguns países o Big Mac tem um sabor melhor que em outros. É preciso acrescentar um perfume e um tempero francês", disse Tornberg.

Frédéric Filloux, ex-diretor de redação do Libération e diretor de redação do novo 20 Minutes, o próximo gratuito a ser lançado em Paris, escreveu um artigo no Le Monde [sábado, 23/2] invocando a liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de empreendimento. Ele diz que 20 Minutes é um jornal de verdade, feito por 22 jornalistas profissionais, concebido para dar uma visão geral da atualidade para um leitor jovem pouco habituado à leitura de jornais. O diário terá 32 páginas e uma tiragem de 450 mil exemplares. O fato de esse tipo de jornal viver apenas da publicidade é comparável, segundo ele, às rádios de notícias, que chegam aos leitores de graça.

Filloux argumenta que em grandes jornais como The New York Times e Washington Post a receita da venda aos leitores não ultrapassa os 20% ou 25%. E nem por isso os jornalistas desses jornais são menos responsáveis e fiéis a seus princípios. O diretor de 20 Minutes conclui seu artigo peremptório: nenhuma lei na França pode impedir a publicação desse tipo de jornal.

Toda essa polêmica seria mais facilmente compreendida se envolvesse lucros fabulosos para os diários gratuitos. Nada disso. No ano passado, o grupo Metro International perdeu 98,83 milhões de euros. Pelle Tornberg minimiza os resultados: segundo ele, esses números significam investimentos e o orgulho de ter muitos novos jornais gratuitos no mundo. Uma das exceções é Londres. Na capital inglesa, onde circula desde 1999, Metro tem uma tiragem de 820 mil exemplares e uma trajetória ascendente ? é o sexto tíitulo da imprensa diária britânica. Os jornalistas que o fazem são da geração internet e apuram principalmente por telefone e na web. Os leitores? São jovens, adoram cinema e séries de TV, gostam de viajar e estão se lixando para a vida da família real.

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