Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Keila Jimenez

CALLEGARI NA RECORD

"O homem forte da Record", copyright O Estado de S. Paulo, 3/03/02

"Está entre os poucos amigos de Silvio Santos, que, se somados, podem ser contados em uma mão. Luciano Callegari, braço direito do dono do SBT durante quase 45 anos, agora é o homem forte da Record. Na semana passada, assumiu o cargo de superintendente Artístico e de Programação da emissora, prometendo mudanças em busca da consolidação de audiência.

Tal promessa seria só mais uma dentre tantas dos executivos das redes, não fosse o passado de Callegari, cuja história, se confunde com a da TV.

Avesso a entrevistas, mas muito franco nas respostas, Callegari, aos 62 anos, falou com exclusividade ao Estado sobre a amizade e os desentendimentos com Silvio Santos, sua saída do SBT e os planos para a Record.

Estado – Você começou na área de comunicação nos anos 50 com o Silvio Santos?

Luciano Callegari – Comecei antes do Silvio. Já era funcionário da fundação Vitor Costa, que incluía as rádios Nacional e Excelsior e a TV Paulista.

Nessa época, o Silvio veio do Rio, nos encontramos na Rádio Nacional, eu era office-boy e ele, candidato a locutor. Ele teve sua primeira chance no programa Manuel de Nóbrega e como ficava muito envergonhado na frente do auditório, composto por 300 mulheres, acabava ficando vermelho. Daí veio o apelido do ?peru que fala?.

Assim o Silvio era chamado na Nacional. Quando ficou famoso na rádio, montou uma caravana com uns 12 artistas. Naquela época já não tinha paciência com os artistas e começou a me pagar um cachê para eu cuidar do pagamento dos contratados. Queria livrar-se desses pepinos. A partir daí, o Silvio aumentou sua popularidade até ir para a TV Paulista, apresentar o Vamos Brincar de Forca. Depois, fui trabalhar com o Walter Foster, como assistente com Rubens Avancini, irmão do Walter Avancini. O Silvio foi fazer um programa de domingo e me levou junto.

Depois, a Globo comprou a TV Paulista e começou a mandar o pessoal embora.

Foi aí que o Silvio me pressionou para largar todas minhas outras funções e ir com ele, e eu dizia: ?se você pagar, eu vou.? Sabia da fama dele

Estado – Que fama?

Callegari – O Silvio era e ainda é pão duro, mas acabou pagando. Um dia, após ele insistir muito, fiz meu preço e ele falou que pagava. Peguei a locutora Maria Helena como testemunha da promessa de salário. Pedi demissão e fiquei só com o Silvio.

Estado – Quando chegou o sucesso?

Callegari – O Silvio sempre foi um homem talentoso e o sucesso não demorou. A audiência dele foi crescendo, até que teve de sair da Globo, pois o Boni queria um padrão de qualidade, comandar tudo e o Silvio tinha o horário. Foi quando ele comprou 50% da Record, mas acabou indo também para a Tupi. O nosso programa passou a ser exibido nas duas emissoras, Record e Tupi. Nosso programa não, o do Silvio. (risos)

Estado – E o SBT?

Callegari – O Silvio resolveu concorrer a uma emissora de televisão em São Paulo, mas o governo acabou concedendo a ele umaa no Rio, foi a TV Estúdios.

Para nós foi uma dificuldade. Até que veio o problema da Tupi em 1981 e o Silvio acabou ficando com uma parte da emissora, a outra foi para a Manchete. Começamos a montar a sonhada rede de TV. Estava ao lado do Silvio quando assinou a concessão. Cuidava também da programação, que entrou no ar com a assinatura do contrato. Foi uma loucura. Construímos o SBT.

Estado – Quando sentiu que o SBT poderia ser a segunda emissora do País?

Callegari – Sempre acreditei nisso mas, depois de muitas tentativas, uma programação se consolidou. Tínhamos uma audiência até assustadora, mas o mercado publicitário tinha rejeição muito grande pela nossa programação. Daí veio a reformulação na grade de atrações, com gente nova e mudanças na área comercial. Vieram o Jô e outros artistas e, com eles, a credibilidade que faltava. Foi um marco que mostrou que a emissora poderia ser uma das maiores do País, como é até hoje.

Estado – Depois de tanta história e uma longa parceria, você e o Silvio começaram a se desentender?

Callegari – Sempre fui apaixonado pelo jornalismo e o Silvio não. Começamos o jornalismo no SBT com o Boris Casoy, Aqui e Agora, Lillian Witte Fibe. Eu pretendia dar cada vez mais força ao jornalismo, não entendo uma rede de TV sem noticiários fortes. O problema é que o Silvio pensa de outra maneira.

Quer entretenimento e não informação. Tem essa visão e era o dono. Quem manda é o dono. E começamos a discutir.

Estado – Você praticamente administrava o SBT sozinho. Quando o Silvio resolveu administrar de perto, as discussões entre vocês se intensificaram?

Callegari – Isso mesmo. Quando o Silvio foi administrar na Anhangüera, sabia que não daria certo. Os primeiros 20 e poucos anos do SBT eu toquei sozinho, depois, chegou o Guilherme Stoliar, que tinha a mesma visão que eu. O Silvio estava preocupado com os programas dele e passava as orientações por escrito, quase não vinha à Anhangüera. A gente sabia como ele era e estávamos fazendo o melhor. Estabelecemos o núcleo de novelas, mas precisávamos de tempo. Só que o Silvio não tem paciência e acabou com tudo: novelas e jornalismo. Isso começou a nos desmotivar, pois lutamos por aquilo. Ele não tinha paciência para esperar os resultados. Então a gente discutia muito, eu não sou de ficar quieto.

Estado – É o sangue quente?

Callegari – (risos) É né. Quando você é contratado para alguma coisa, se disser que está tudo maravilhoso sempre, você é um inútil. Você é pago para ser um nada. Eu insistia com ele três vezes e depois cansava. Colocava tudo em ata, para depois o Silvio não dizer que eu não tinha avisado. Depois de tanta discussão, nossa relação profissional foi se desgastando. Então entreguei o cargo, acho que em 1998, após discussão muito forte. Brigamos, fui embora para minha casa chateado. Um dia depois o Silvio me chamou para ser consultor do SBT.

Estado – Mas você foi consultado, ou ficou como o Boni?

Callegari – Não fiquei como o Boni. Fui consultado sim, o contato com os artistas era eu que mantinha. Até que chegou uma época que não dava mais para respirar. Foram implantados alguns sistemas dentro do SBT que começaram a me sufocar: cancela de identificação, revista de funcionários. Chegou a um ponto que não agüentei e briguei feio. Nesse dia, uma amiga me falou: ?Callegari, h&aacuaacute; vida lá fora.? Foi assim que desisti de lutar. Fiquei como o Boni , parado uns 6 meses, até junho de 2000, quando o meu contrato acabou.

Estado – Você tem saudade do SBT?

Callegari – Ah, isso a gente sempre tem. Sou um homem de televisão, aquilo faz parte de mim. Vivi muita coisa lá dentro. Lembro das partes boas e da difíceis, como as enchentes na antiga sede, na Vila Guilherme. Uma vez que tive de tirar a Salete Lemos de dentro do SBT que estava todo inundado.

Outra vez, resgatei um auditório inteiro de uma enchente. Levei as pessoas nas costas. Por isso, quando vi a sede (SBT Anhangüera) pronta, vi um sonho realizado.

Estado – E mágoa do Silvio?

Callegari – Nenhuma.

Estado – Quando recebeu a proposta da Record?

Callegari – A primeira há uns dois anos, mas não queria voltar para a TV tão rápido. Preferi ficar parado um tempo.

Estado – Não foi difícil para você, um homem que teve tanto poder ficar parado?

Callegari – Não. O trabalho só é importante quando se tem prazer, quando está realizando algo. Na época, estava passando um momento difícil e pedi para não voltar à TV.

Estado – O que o seduziu desta vez?

Callegari – A outra proposta veio no momento certo. Vim porque acredito que a Record tem potencial para melhorar muito. Essa proposta me seduziu pelo desafio. Percebi que dá para fazer muito pela emissora, que temos onde crescer. Não sonho demais, mas sei que a Record pode encostar no segundo lugar, no SBT.

Estado – Você tem uma meta de audiência?

Callegari – Acredito que em um ano a Record pode subir sua média de audiência do horário nobre dos 5 para 8 pontos. Se eu conseguir isso, em um ano, está muito bom. Agora, encostar no Silvio é muito difícil, vai acontecer, mas sei que leva tempo e dedicação.

Estado – Chegou a falar com o Silvio sobre sua ida para a concorrente?

Callegari – Não, acho que ficou sabendo pela imprensa. O que me deixou feliz foi saber que como eu, o Guilherme Stoliar está de volta à TV (no SBT).

Estado – Podemos esperar muitas mudanças na Record? Como ficará o jornalismo?

Callegari – Gosto muito do jornalismo da Record, praticamente todos estavam comigo no SBT. Temos o Datena, que adoro, a Mônica Waldvogel, o Rodolfo Gamberini, e o Boris, que eu nem preciso falar. Acho que teremos mais noticiários desde que tenhamos verba.

Estado – Teledramaturgia nacional pode voltar à Record?

Callegari – No segundo semestre já reativaremos a produção de uma novela.

Sou contra as mexicanas, podem dar audiência, mas não anunciantes. Essa era uma de minhas brigas no SBT.

Estado – Mudanças drásticas só a saída do Domínio Público, do Otaviano Costa?

Callegari – É melhor tirar do ar, resguardar o profissional e voltar com ele com um novo projeto.

Estado – Você acredita na Adriane Galisteu?

Callegari – Pode ser a Hebe do futuro, basta algumas mudanças no programa.

Estado – E o Raul Gil?

Callegari – Aí é covardia: o Raul é meu amigo de anos, íamos a muitos shows. Já era prata da casa antes, agora, é mais ainda.

Estado – Você pensa em fazer reality shows na Record?

Callegari – Pode ser, mas não agora. Acho essa febre interessante e que a TV brasileira tem de passar por isto. Mas quando começa a se extrapolar, o formato esgota-se. É o que acontecerá com o Big Brother e Casa dos Artistas.

Estado – Continua sem acreditar no Ibope?

Callegari – Não acredito na metodologia do Ibope. Em São Paulo, uma cidade com 12 milhões de habitantes, os aparelhinhos de medição ficam instalados em apenas 600 casas por mais de um ano. É uma amostragem viciada. Tentamos, anos atrás, implantar outro instituto de pesquisa no Brasil, o Nielsen, que mede audiência em 67 países com muito êxito. Investimos cerca de US$ 1,5 milhão e, dois anos depois, o instituto recusou o trabalho. Mais estranho ainda é ver uma emissora fora do ar marcar 12 pontos no ibope. As emissoras são acomodadas, o pessoal é político, não quer se indispor com ninguém. Eu não sou assim. Acomodado, nunca."

 

CORAÇÃO DE ESTUDANTE

"Malhação ganha segunda edição às 6", copyright O Estado de S. Paulo, 3/03/02

"Coração de Estudante é uma novela bonitinha. Entenda-se por isso uma história contada direitinho, com imagens arrumadinhas, gente bonita, muita conversa pra boi dormir e embates explícitos entre o bem e o mal.

Ao colocar Coração no ar, a Rede Globo tenta acertar o rumo perdido quando escalou para o horário da 6 o dramalhão A Padroeira, cujo chamariz seria, em princípio, a enorme religiosidade do público nacional e o emblema que representa Nossa Senhora de Aparecida. O equívoco custou inúmeras alterações no roteiro (cada hora a heroína de Débora Secco jogava as tranças para um pretendente), a inserção de novos núcleos (um circo inteiro) e a contratação de atores que estavam no banco. Não foi um desastre total, mas também não foi a glória. O Departamento de Programação – e não o autor Walcyr Carrasco – que bobeou: quis colar uma novela ?velha? em uma novelinha ?jovem?, espantando da sala os fãs de Malhação.

Apesar de mais robusta, Coração de Estudante tem a mesma paternidade de Malhação. É a filha caçula de Emanuel Jacobina, um dos criadores de série juvenil. Portanto, não é novidade que a novela tenha estreado bem (com 30 pontos de média no Ibope, na Grande São Paulo) e se mantido no mesmo patamar que Malhação.

O enredo de Coração não poderia ser mais previsível. O motor central é um triângulo amoroso, no qual um dos vértices é a maldade na figura de Adriana Esteves, outro é a sonsice (bondosa, claro) de Helena Ranaldi e o terceiro, o bom-mocismo de Fábio Assunção. Na periferia da disputa pelo amor do galã, a novela ambienta conflitos bem adolescentes no interior de uma república de estudantes, o cotidiano na universidade e a vilania do latifundiário que, além de poder e terras, quer destruir a natureza.

O maior defeito de Coração não é a fieira de clichês de que lança mão. Afinal, a TV nunca se esquivou de desengavetá-los para conquistar audiência.

Irritante mesmo é a mania da teledramaturgia nacional em enviar mensagens construtivas para o telespectador. Jacobina é do ramo, pois Malhação é cheia das boas intenções. Aliás, dar conselhos aos jovens tornou-se um cacoete da ficção na TV. Parece que o veículo se sente na obrigação de encaminhar a juventude transviada brasileira, talvez para compensar deslizes mais barra-pesada.

Não se pode deixar de reconhecer a boa intenção. Mas existe um probleminha:

os autores não estão bem preparados para a missão. Os entrechos são tão forçados que denunciam à primeira vista a campanha. Como a sutileza passa longe desse campo, o público se vê submetido a uma discurseira ginasiana sobre preservar a natureza, respeitar os limites de velocidade nas estradas (Coração de Estudante) ou sobre os males que as drogas provocam em jovens e maduros, como a ?ativista? Glória Perez. Há muito, a autora de O Clone imbuiu-se da tarefa de remendar o tecido esgarçado da sociedade colocando suas novelas a serviço de causas como a localização de crianças desaparecidas, proteção a testemunhas de crimes, etc.

Pelo seu perfil: escrita por Jacobina e feita para público ?teen?, Coração de Estudante deve vir com outras lições politicamente corretas ao longo de sua jornada. O engraçado é que, mesmo sendo uma espécie de Malhação – Segunda Edição, a novela é salpicada por um saudosismo quarentão na trilha sonora. É bem capaz de Beto Guedes, Lô Borges e Milton Nascimento voltarem às paradas à custa do desembolso de mesadas de gente que nunca ouviu falar em Clube da Esquina."