O BEIJO DO VAMPIRO
“Retrocesso faz bem de vez em quando”, copyright Folha de S. Paulo, 1/09/02
“Às vezes, voltar ao passado é avançar. Por mais paradoxal que pareça, é o que aconteceu com a estréia de O Beijo do Vampiro, na Globo. A novela Desejos de Mulher deixou a emissora com a cara pesadora das concorrentes no horário por misturar, como os programas policiais, desgraça, violência e muito dramalhão. A saga da pobre Andréa Vargas, personagem de Regina Duarte que penou nas mãos dos tipos mais vis, descaracterizou a faixa tradicionalmente dedicada à chanchada e a histórias leves, próprias para crianças e adolescentes.
É cedo afirmar, mas certamente é esse público jovem que garantiu à nova novela uma audiência à altura do final de Desejos (36 pontos de média no Ibope, na Grande São Paulo) e melhor que o da estréia da antecessora (36 X 31 pontos).
A escolha de Antonio Calmon foi acertada porque, com raras exceções, ele é o autor que melhor se comunica com o público jovem. São dele, os sucessos Top Model (89) e Vamp (91).
Bem-feita e cheia de efeitos especiais (possíveis com a tecnologia disponível neste início do terceiro milênio), a trama de o Beijo do Vampiro brinca com os terrores juvenis. Vampirismo, possessão e transformação têm um apelo especial. A eleição de um menino como herdeiro de um ser com poderes sobrenaturais é uma grande sacada. Harry Potter (o filme e os livros) está aí para comprovar a tese.
Na verdade, Calmon jogou em seu caldeirão várias outras referências. Além do Harry Potter, O Beijo do Vampiro tem elementos de Drácula de Bram Stocker – a queda da princesa Cecília (Flávia Alessandra) da muralha é uma releitura da queda de Winona Ryder no filme de Francis Coppola -, o caça-vampiros trapalhão (Luiz Gustavo) é inspirado nos caçadores de A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, e o vampiro Bóris (Tarcísio Meira) é a reencarnação do conde Vlad, personagem de Ney Latorraca na própria Vamp.
Usar referências não é defeito, quando bem colocadas. Afinal, como é de domínio público, todas as novas histórias têm como ponto de partida outras antigas. Romeu e Julieta, de Shakespeare, por exemplo, é eternamente recontada de novas maneiras.
Os grandes trunfos de Beijo do Vampiro são o clima mágico imprimido à trama, o charme do vampirão Tarcísio Meira e a graça do vampirinho Zeca (o estreante Kayky Britto).
Glória Menezes como a semi-bruxa Zoroastra está bem engraçada e coloca fim a uma fase obscura da atriz na Globo. É o caso também de Luiz Gustavo, que esteve exilado por muito tempo no medíocre humor do Sai de Baixo. Após ser travesti no horário, Cláudia Raia volta convincente como Mina, partner de Bóris.
Mas nem tudo é acerto na novela das 7. A escalação de Flávia Alessandra e Thiago Lacerda para papéis tão importantes (são os pais do vampirinho) foi uma atitude, no mínimo, impensada. O Beijo do Vampiro cai quando o casal entra em cena, tamanha inexpressividade. É senso comum que só se aprende a fazer TV fazendo, mas neste caso é possível pensar que ambos só estarão no ponto na próxima encarnação.”
“Novela testa novo marketing na TV”, copyright Jornal do Brasil, 30/08/02
“A nova novela das sete, O beijo do vampiro, servirá de vitrine para os produtos da Globo. Com a nova trama, a emissora criou um verdadeiro mercado persa para lucrar com a história. Sem poupar esforços para alcançar seu objetivo, a rede tem inserido constantemente produtos sobre vampiros na história. Já nos primeiros capítulos, Zeca (Kayky Britto) expôs o gibi As aventuras de Bóris. Em breve, a revista estará à venda. O site Vampiromania também mereceu citações na novela.
?Trata-se de um projeto de licenciamentos e merchandising em novelas que a Globo queria colocar em prática há algum tempo. Os produtos vão aparecer na trama e serão vendidos no site?, conta Marcos Paulo, diretor da novela.
Segundo ele, a idéia é criar uma grande mania nacional com o folhetim. ?É a primeira vez que isso é feito.? Já são aproximadamente 30 produtos, que vão de canecas a bonecos. Esta semana, o CD da novela já chega às lojas.
O principal alvo deste shopping na teledramaturgia é o público jovem. De olho neles, foram criados o site e games. No mercado publicitário, há quem tenha certeza de que a vampiromania vai pegar. ?Chegou com uma pressão forte?, diz Marcelo Gorodicht, diretor-geral da agência Fischer América Rio.”
"O país do Conde Bóris", copyright No
Mínimo, 2/09/02
"Se roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido, peço licença para cravar os dentes na frase de Rita Lee e dizer que político brasileiro sempre teve cara de vampiro. Quem viu a primeira semana de ?O Beijo do vampiro?, a nova novela das sete da Globo, intercalada de anúncios de morcegos pedindo seu pescoço, quer dizer, seu voto, percebeu a semelhança de propósitos. É o Conde Bóris na ficção de Antônio Calmon e o Zé Serra na produção do Nizan Guanaes. Tudo chupa o sangue, tudo chupa o erário da união e, como vampiro bobo já nasce vivo, não te providencia o salário digno para comprar o alho.
Em alguns desses vampresidentes e morsenadores só falta a capa. É por isso que eu gosto quando o Brizola põe aquele poncho farroupilha e, como não lhe falta mais nada, pede que você se junte a ele na urna mortuária, quer dizer, na urna eleitoral.
A primeira semana de ?Desejos de mulher?, a novela anterior, coincidiu com o início da campanha televisiva de Roseana Sarney. Na época todo mundo cravou os dentes na jugular do Oscar Wilde. Como só os muito superficiais não se deixam levar pelas aparências, achou-se que era a Globo jogando todas suas fichas na filha do Zé (este, a propósito, também só fica completo quando veste a capa do fardão da Academia Brasileira de Letras).
Mas foi o que se viu. A maranhense era vendida com o mesmo jingle da cerveja número um – como se o desejo maior de uma mulher fosse ser bebida. Depois abriram o cofre da Roseana, quer dizer, o cofre em que o marido guardava 50 mil notas. E o desejo da Roseana junto com o da novela da Regina Duarte acabaram na menopausa de um ibope baixíssimo.
A novela da vez é a vampiromania. Ela estréia justo no momento em que o Serra (precisa explicar sua árvore genealógica até o conde Bóris?), ungido, mas sem água benta, please, por Fernando Henrique (sempre de capa bandeirosa quando vai receber um doutor honoris causa pelas Coimbras da Europa), sai do mundo dos mortos-vivos em que parecia eternamente espetado e bomba enxofre para tudo que é lado na novela presidencial. Ufa! Já foi mais fácil fazer candidato, deve estar se dizendo o Nizan. Putz! Já foi mais simples fazer novela, vagueia, zumbi atônito, Antônio Calmom pelos cantos escuros do castelo global. Eca! Já foi mais fácil entender esse país, murmuramos nós.
Se o Lula vampiriza o Maluf, se o Ciro chupa o ACM, e em seguida limpam os dentes, normal, vida que segue, dá para imaginar, já que somos todos vampiros esta noite e ninguém sabe mais o que é novela e o que é campanha, o que é aliança e o que é crucifixo, o Serra caindo de canino nas veias da Patrícia Pillar.
?O Beijo do vampiro?, já que nós viemos aqui para beber sangue e não para discutir a conjuntura nacional, é a primeira chanchada gótica da televisão. Diverte. Às vezes até sem tamanha intenção. Afinal, o diálogo dramático da Flávia Alessandra com o Thiago Lacerda na terça-feira só teve paralelo humorístico nos últimos dias com o discurso de Garotinho se ombreando a Vargas e JK. E olhe que todos os cinco estavam seríssimos em cena. Deborah Secco também contradiz as intenções alardeadas no nome e, sempre molhadinha, ameaça fazer uma das melhores caricaturas de loura burra das novelas. Estava só de calcinha na quarta-feira. Dependendo do ibope pode fazer como o Serra no desespero, perder esses resquícios de bons modos e partir para o esculacho geral, deixando o Ciro Gomes de fora num segundo turno.
As novelas, com seus sotaques malucos, seus climas escuros, densos, cinematográficos, andam muito esdrúxulas e sem esperança. Os bastidores, com mocinhas quebrando dente de galã, diretor com o coração dividido entre duas dirigidas, andam mais divertidos. Os vampiros pelo menos batem asas e desde Vamp, no final dos anos 80, ninguém fazia isso na televisão. Eles agora estão favorecidos por bons efeitos especiais, truques que transformam em elevadores, subindo ou descendo de acordo com o tesão, os caninos de Tarcísio Meira e Claudia Raia, os dois divertidíssimos em seus papéis de nobres das trevas e parecendo se divertir mais ainda em fazê-los.
Há outros castings impagáveis. Colocaram Zezé Motta para fazer uma empregada, talvez a trilionésima de sua carreira. Antes que a Bené reclamasse escalaram um ator negro no papel de um médico, mas ele é tão fora do padrão – o cara usa roupas escuras no consultório, dá em cima da fisioterapeuta – que era melhor tê-lo deixado no bom e preconceituoso papel de enfermeiro de sempre. Outra boa piada corpórea é a escalação de Gabo Mendes com as mesmas tatuagens, o mesmo cabelo e a mesma cara chapada de Ozzy Osborne. Bom chanchadeiro, Antônio Calmon vai sugando o que vê dos pescoços pelo caminho.
Como um caçador maluco de vampiros, Calmon se esforça ao estilo Serra-Ciro-Lula para pregar estacas diversas no coração complicado da platéia do horário. Uma martelada para a dona de casa com a balada clássica do troca-troca dos casais. Outra martelada no peito do adolescente com o rock gótico-erótico dos morcegos que se perseguem há séculos. É quase um Frankstein. Sem esquecer o tempo todo de colocar em cena algo que fale da vampiromania.com.br, a página criada pela globo.com para alavancar o número de pageviews do site.
O ?Beijo? não vai deixar marca. Vai deixar clique. Não se faz mais vampiro como antigamente."
CONVERSA COM A MEMÓRIA
“Encontros com Villas”, copyright Jornal do Brasil, 29/08/02
“Otto Maria Carpeaux relatou, em Meus encontros com Kafka, as vezes em que se encontrou, fisicamente ou por tabela, em Berlim ou Praga, com o autor de O processo. Em Berlim, em 1921, travou o seguinte diálogo com Kafka, que começou por se identificar: ?Kauka?. ?Como é o nome?? ?Kauca!? ?Muito prazer?. É que Kafka, já sofrendo da tuberculose da laringe que o matou três anos depois, não falava mais direito.
Carpeaux, ao perguntar a um amigo quem era aquele rapaz magro, ouviu a seguinte resposta: ?É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância.? Cinco anos depois, ainda em Berlim, Carpeaux tentou receber algum dinheiro da editora Die Brücke (A Ponte). Enquanto esperava, na ante-sala, para falar com o editor, tirou um volume da pilha de livros ao canto e leu distraído algumas frases de O processo. Contou-lhe o editor que nem vendera três exemplares, estava falido e que se Carpeaux quisesse, à guisa de pagamento, podia levar toda a edição (?Não vale nada?).
Outros anos se passaram e ele, estando em Praga, agora sim cenário verdadeiro dos escritos de Kafka (ruas estreitas, casas decaídas e sinistras, catedral escura e vazia), ao passar pela ponte que cruza o rio Vltava, visualizou, em cima da colina, o enorme Hradschin, o antigo Palácio Real. Reconheceu nele O castelo de Kafka. Ao lado, a Catedral de São Vito era o cenário no qual o condenado de O processo ouve a voz da lei.
Lembrei-me desses três encontros quando, ao folhear o novo livro de Villas-Bôas Corrêa, Conversa com a memória, encontrei, na primeira folheada, em anexo, um artigo que já conhecia há mais de 20 anos: A bomba explodiu no Planalto. A data relembra meu primeiro encontro com o artigo: 3 de maio de 1981. Dois dias e algumas horas antes, explodiram no Riocentro as bombas com que um sargento e um capitão do DOI-Codi pretendiam sabotar o show do Dia do Trabalho e jogar a culpa nos comunistas. No dia 2, Villas-Bôas, então editor de Política do Jornal do Brasil, chegou à redação e escreveu, na lata, artigo afirmando que ?as bombas do Riocentro na verdade explodiram no colo do governo, e seus estilhaços alcançam o rosto do presidente João Figueiredo?. Sem meias palavras disse que se tratava de ?ato de banditismo de vileza sórdida, tramado com todos os requisitos da crueldade mais abjeta?.
Dez anos depois, encarregado de escrever sobre o período dos anos 80 para a edição do centenário do Jornal do Brasil, encontrei o artigo de Villas-Bôas pela segunda vez e com ele iniciei o capítulo, mostrando a maneira como o jornal inaugurava sua década denunciando a farsa do Riocentro – com a brilhante investigação de seus repórteres (destaque para Fritz Utzeri e Heraldo Dias) e o artigo de Villas-Bôas.
Passaram-se outros 11 anos quando tive o terceiro encontro com o artigo, ao abrir o exemplar de Conversa com a memória, o que não chega a ser um acontecimento kafkiano em sua expressão total, mas seguramente significa alguma coisa para mim, como os encontros com Kafka para Carpeaux.
Os personagens de Villas-Bôas, como os anti-heróis de Kafka, predisseram alguma coisa que se alojou na memória das pessoas. Mandatos sem mandantes perderam e acharam a força de fazer viver. Moral da história: a lei, quando é feroz e sem misericórdia, só tem o poder total de matar.
Tive, portanto, meu terceiro encontro com o artigo. Falta agora ler o resto do livro.”
