Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Lições da estrada

JORNALISMO-AVENTURA

Angelo de Souza (*)

"Viajar, perder países", disse o poeta português. Mas o objetivo da dupla Fabiano Camargo e Orlando Azevedo é justamente o de ganhar um país: o Brasil nosso de todos os dias, de 8 milhões de quilômetros quadrados e 170 milhões de anônimos.

O projeto Coração do Brasil nasceu após longa gestação, com auxílio de patrocinadores estatais e privados, para cumprir o destino inescapável dos viajantes, que é descobrir ? melhor, desvelar ? mundos e gentes fora e dentro de si. Como diz Orlando, a primeira grande conquista, ainda nos primeiros dos quase 50 mil quilômetros percorridos desde 1999, é íntima e pessoal.

Orlando, 52 anos, português de nascimento, deixou mulher e filhos em Curitiba, e as agências de publicidade no passado, para percorrer o Brasil e se reencontrar em sua matriz profissional, o fotojornalismo. Queria voltar a tratar de temas reais, "escrever" com a luz natural, acreditar no que faz.

Fabiano, 30 anos, trocou o emprego de jornalista da internet pela estrada, para viver a profissão com intensidade". O dia-a-dia "pré-fabricado", feito de horários estritos e pautas "de gaveta", em que só falta encaixar os personagens, são a sentença de morte do repórter. O paranaense, também, iniciou sua busca profissional e existencial.

Os dois nada têm de rapazes mimados com sede de adrenalina. Ao contrário: o preço da aventura é cobrado em suor e algumas surpresas desagradáveis que se sobrepõem a todo planejamento ? como a tentativa de depredação do jipe da equipe em Belém, na semana passada. Mas a experiência de mergulhar no caldeirão cultural do Brasil recompensa o trabalho duro e a dificuldade em encontrar apoio (o projeto chegou a ficar parado por um ano por falta de patrocínio, e a fase final ainda depende de captação).

A dupla evita o quanto pode os grandes centros. Faz mira nos grotões de onde assoma sobretudo a dignidade de seus habitantes, e já alcançou os quatro pontos extremos do território nacional. Além das fotos de Orlando, e dos textos de Fabiano, enviados regularmente para jornais e o sítio da expedição da internet, o projeto deverá resultar ainda numa exposição fotográfica itinerante e em três livros, sobre a terra, o homem e os mitos presentes na paisagem e na cultura brasileiras.

Um país em cada pauta

Claro que o trajeto em si fornece emoções e decepções bastantes para uma ou inúmeras reportagens, pequenas e grandes. Mas o que faz diferença para os viajantes é o modo de obtê-las, bem diferente da "carnificina profissional" em que se massacram coleguinhas movidos por grana, fama ou poder. Aliás, ser o herói da matéria, estar à frente do fato, está fora dos planos dos dois, que no entanto às vezes se vêem a contar suas próprias histórias.

Não compreenderiam o Brasil, como pretendem, se arrancassem aspas ou pose para fotos, dizem. Não seriam compreendidos se não dessem de si tempo e boa vontade aos interlocutores que lhes dão a seiva do projeto: o que é ser brasileiro, e como, no pampa ou nos seringais, sobre uma jangada ou um cavalo pantaneiro. Assim, a pessoa que mostra e explica seus instrumentos de trabalho em troca fica sabendo como funciona a câmera digital ou o computador portátil.

Sem a fantasia engraçadinha ou aventureira com que se vestem certos repórteres (especialmente de televisão), eles se sentem mais à vontade entre garimpeiros, índios, caboclos, prostitutas e caminhoneiros, com quem dividiram refeições e frustrações, sonhos e revoltas. A maior delas: constatar a distância que separa a máquina do Estado e a dimensão humana no Brasil, causa primordial da perversidade e da injustiça contra um povo que tudo faz, do quanto pode, para que o país dê certo.

Se o povo tem seus algozes, o jornalista também tem o seu, muito presente: a rotina, a acomodação, o desencanto com a profissão, à qual no entanto reluta em abandonar, e nem deve fazê-lo. "O inimigo está dentro de nós", diz Fabiano. Para vencê-lo não é preciso cruzar o país. "Todo dia é possível tentar uma nova pauta, uma abordagem construtiva, uma verdade que vale a pena contar."

O fotógrafo vai além: idealizador do projeto, sente-se numa espécie de sabático, durante o qual vê ampliarem-se as possibilidades estéticas e políticas da imagem ? em particular da imagem fixa, que preserva o assunto da interferência do movimento, na qual a obra se descola mais facilmente do meio e cujo suporte permite ao público refletir melhor sobre o que está vendo.

Num país que tem dificuldade em se voltar para dentro, em trilhas como as que já foram de bandeirantes, de Langsdorff, de Rondon, cabem jornalistas como os que as faculdades formam e as redações moldam segundo suas conveniências? Fora dessas trilhas, será possível fugir da burocracia, das relações perigosas entre imprensa e poder, da falta de tempo para lidar com gente e de espaço para a reportagem?

A resposta está no interior de cada um, esse país a ser desbravado a cada dia, em cada pauta, em cada olhar.

(*) Jornalista em Belém