Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Literatura com foco no leitor

ALMANAQUE ABRIL

Márcia Tonello (*)

O professor Deonísio da Silva ocupou este espaço, na edição passada [veja remissão abaixo], com uma crítica à cronologia de literatura brasileira publicada no Almanaque Abril 2002. Sem apontar falhas relevantes, envereda por um texto opinativo, no qual adota um tom gratuitamente agressivo. Infelizmente, é um trabalho que carece do rigor que ele se arroga, pois falhas primárias de (des)informação mostram uma leitura desatenta da obra.

Para uma análise mais apurada, o professor deveria ter observado a organização do conteúdo relativo às artes no Almanaque Abril. Não poderia contentar-se com a leitura das três páginas que se referem à Literatura, mas deveria consultar também a cronologia de Teatro, que a complementa. Com essa leitura adicional, ele teria se (nos) poupado de criticar tão veementemente a ausência do dramaturgo Antônio José da Silva, o Judeu, que está destacado no Almanaque Abril na página 416. O mais aborrecido é que, ao abordar a omissão desse autor, o articulista discorre longamente sobre o papel da Inquisição à época e dos órgãos de repressão sob o governo Geisel, atribuindo a esses um discernimento crítico ausente na sociedade desinformada. A questão da censura à produção cultural é relevante, mas não cabe discuti-la sob esse pretexto.

Deonísio da Silva comete ainda outro erro ao criticar a suposta ausência de Ana Miranda, que está, entretanto, citada na pág. 409, no intertítulo 1986?1989, com o lançamento do romance Boca do Inferno, sobre a vida de Gregório de Matos. São equívocos que prestam um grande desserviço ao público leitor.

Critérios de edição

Como método de trabalho, o professor pinça detalhes para julgar o todo, em um procedimento de menor valia cultural. Aproveitemos, no entanto, a oportunidade para debater as questões relevantes.

Deonísio da Silva afirma que o Almanaque Abril desqualifica a obra de Caminha e dos demais viajantes do século 16 ao dizer que não são peças literárias. Ocorre aqui uma questão de redação do verbete: quando nos referimos a essa produção cultural como textos informativos, o sentido implícito na frase é de que essas obras (de inegável valor) foram produzidas sem uma preocupação literária. Mas, considerando sua importância, estão destacados textos de praticamente todos os principais escritores viajantes do século 16.

Dividida em quatro partes, a síntese que o Almanaque Abril faz do século 19 é injustamente criticada. Bem-cuidada, com citações e observações conceituais precisas a respeito do Romantismo, do Realismo e do Naturalismo, sem deixar de lado a importância do Simbolismo e do Parnasianismo, chama a atenção, inclusive, para as peculiaridades expressionistas do O Atheneu, de Raul Pompéia. Nesse contexto, a omissão de A Retirada da Laguna e Inocência, de Taunnay, de modo algum inviabiliza o verbete, que não pode tornar-se uma listagem exaustiva de obras literárias. É uma opção que privilegia outros títulos mais importantes ao caracterizar aquele século.

A decisão de incluir Rubem Fonseca nos anos 80 em nada diminui a importância de sua obra inventiva, mas tem o objetivo de destacá-lo no momento em que contribui decisivamente para consolidar a presença do romance policial urbano em nossa literatura. A passagem a respeito da proibição de Feliz Ano Novo até mereceria citação no Almanaque Abril, mas o verbete ficaria inviável, pois imenso, se voltasse suas baterias a denunciar todas as vezes que a ditadura censurou livros.

Opinião de especialista

Partindo de seu ponto de vista de especialista, Deonísio se detém em apontar uma extensa listagem de autores ausentes, a maior parte do século 20. Trabalho mais árduo, porém muito mais sujeito a críticas (inclusive de seus pares), faria o professor Deonísio se relacionasse todos os autores citados no texto do Almanaque Abril que ele não considera relevantes na literatura brasileira e que, portanto, deveriam ser excluídos dessa cronologia para que outros fossem privilegiados. O resultado desse seu trabalho, provavelmente atenderia muito mais especialistas como ele que o amplo público do Almanaque Abril. Com foco em nosso leitor e no espaço editorial, o verbete reúne consideráveis dados de pesquisa, constituindo uma síntese respeitável dos movimentos, escolas, autores, obras e acontecimentos mais significativos da produção literária no Brasil no decorrer dos séculos.

Já ao deixar de citar Adelino Magalhães, o Almanaque Abril, de fato, perde a oportunidade de fazer justiça a esse autor tão peculiar e original. Dessa forma, nossa publicação acaba reproduzindo vários compêndios de história da literatura, com boa valia teórica, que ignoram sua obra. Outro esquecimento, apontado por Deonísio, que merece destaque é o de Dyonélio Machado, pela originalidade do autor no âmbito do modernismo. São inclusões a ser feitas na próxima edição do Almanaque Abril.

Quanto às premiações de autores, estão ausentes do texto de Literatura, pois o Almanaque Abril dedica outro capítulo a esse assunto. Lá estão, a partir da página 222, todos os vencedores dos prêmios Jabuti, Camões e Machado de Assis, desde sua criação até os resultados mais recentes. A inclusão dos prêmios Casa de Las Américas, Prêmio Rei de Espanha e do Prêmio Passo Fundo, que cresce em importância a cada ano, são sugestões bem-vindas para a próxima edição do capítulo Prêmios.

Aprimoramento constante

Por fim, numa passagem particularmente grosseira, o professor sugere que a seção de Literatura "seja entregue a alguém que entenda do assunto". É justamente o que temos feito, não só com Literatura, mas com os diversos assuntos tratados pelo Almanaque Abril e elogiados pelo próprio professor Deonísio. Todos os anos, nossos editores contam com a valiosa colaboração de jornalistas e especialistas conceituados, professores de universidades e pesquisadores para orientar a produção de novos textos, atualizar e fazer a revisão técnica de textos já publicados em edições anteriores.

Publicação de referência de reconhecida importância, com 28 anos de uso cotidiano por estudantes, professores, profissionais (entre eles muitos jornalistas), o Almanaque Abril é totalmente aberto às críticas, como instrumento de aprimoramento constante. Não se pode pretender que uma seleção de datas, fatos e nomes, que compõe uma cronologia, possa veicular uma verdade incontestável. Fomentar o debate em torno da qualidade da informação é também uma de nossas missões, difundindo maior conhecimento de nossa história e nossa cultura.

(*) Diretora de redação do Almanaque Abril

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