Sexta-feira, 23 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

Luiz Garcia

CIDADE DE DEUS

“?Cidade De Deus?, com ou sem licença”, copyright O Globo, 29/08/02

“O filme ?Cidade de Deus? começou a ganhar fama pelo caminho secundário da notoriedade acidental: na pré-estréia, foi preso no saguão um traficante peso-pena. Ficou no ar a impressão de ligação espúria entre cineastas e traficantes. Indignada a priori, a cúpula policial se lançou numa investigação sobre possíveis contatos condenáveis entre os produtores e o chefe do tráfico na Cidade de Deus.

É claramente inaceitável reconhecer-se no traficante o status de governante de fato da comunidade favelada. Trata-se de um estado de coisas perigoso para a sociedade organizada, e cruel para os súditos. O poder marginal não surge por contrato com o poder público nem com a conivência da população favelada. Impõe-se pela força das armas, pelo poder da intimidação e por migalhas de esperança espertamente distribuídas. Em princípio, portanto, qualquer contato do lado de cá com ele é espúrio e perigoso.

O domínio dos morros pelo tráfico começou há coisa de duas ou três décadas. Coincide com a intensificação acelerada da ocupação, por migrantes internos e pela classe média empobrecida, de quase todas as encostas do Rio e de vastas áreas planas, como a Maré e a própria Cidade de Deus. Simultaneamente, alguns degraus acima na escala social, a turma de mais dinheiro iniciava longo namoro com comportamentos ditos alternativos, incluindo fumar maconha, cheirar cocaína, viajar no ácido.

Durante muitos anos, muita gente fez isso sem sentimento de culpa: é recente a compreensão de que os papelotes são manchados de sangue. Descobriu-se que as favelas dominadas pelos bandidos lembram muito pouco a floresta de Sherwood. Definitivamente, não dá para pôr em Elias Maluco aquele conjuntinho verde de Robin Hood, tão bem usado por Errol Flynn.

Hoje, pó e fumo (sem falar nos compostos mais recentes) perderam um contingente considerável de fregueses, mas certamente ganharam muitos outros: seu comércio continua a ser a atividade criminosa mais lucrativa do mundo, do Brasil, do Rio. Não existe no horizonte local uma perspectiva de mudança a curto prazo – nem mesmo com a aceleração do bem intencionadíssimo programa Favela Bairro. Ele transforma a paisagem urbana e estimula o exercício da cidadania – mas não tem expulsado o traficante. Não até agora.

Isto posto e sabido, deve-se reconhecer que há contatos necessários com o submundo. Por exemplo, para estudá-lo e escrever a respeito – ou fazer filmes. Se uma obra de arte pode ajudar a entender um problema social, por mostrá-lo com clareza, ela e quem a fez merecem respeito. É o caso de ?Cidade de Deus?. A polícia parece apenas preocupada em saber se houve entendimentos entre os cineastas e o chefão da Cidade de Deus, preso em Bangu, para que as filmagens fossem permitidas.

Em princípio, e na maioria dos casos, não se discute: é erro grave reconhecer legitimidade ao controle de fato exercido por traficantes sobre favelas; pior ainda, dialogar com eles como se autoridades legítimas fossem. Mas é ilógico fingir que o controle não existe. Será espúrio o contato, ou mesmo a convivência, com o mundo bandido, quando isso permite expor a realidade? Contar a verdade, afinal, ajuda o mal ou o bem? Para ser feito, o filme precisou mesmo de licença – mas não houve censura prévia.

Grande parte do elenco foi recrutada na comunidade. Quem já viu afirma que é um belo filme brasileiro. Alguns poderão achar que ?Cidade de Deus? exigiu concessões inconcebíveis.Outros dirão que mostrar a verdade é sempre bom – ainda que tenha um preço. Mesmo que desse mato não saia um ratinho que seja, o filme descobriu atores e produziu na comunidade uma forma de orgulho de ser e de ter vontade própria. Nada disso é bom para o tráfico.

Parece, enfim, que há motivo bastante para não ver no episódio uma descarada rendição da sociedade organizada ao poder paralelo.

Essas rendições acontecem; podem ser pejadas de boas intenções e ao mesmo tempo dar razão a quem as condena liminarmente. Há algum tempo, a generosidade de um cineasta levou-o a acreditar que uma mesada faria do traficante Marcinho VP um homem honesto. O esforço, que durou quatro escassos meses, provavelmente vacinou muita gente contra iniciativas tão ingênuas.

?Cidade de Deus? é outra coisa. As filmagens aproximaram cineastas e moradores, produzindo um relacionamento que talvez dê algum resultado. Ninguém é suficientemente ingênuo para pensar em efeitos revolucionários. Mas certamente o filme tem conseqüências mais importantes do que qualquer incursão dos valorosos homens do Bope favela adentro. E está dizendo alguma coisa a cada espectador.

Que cada um decida – sem os estereótipos do bom-mocismo nem as simplificações do tipo ?bandido bom é bandido morto? – se valeu a pena pedir licença ao atual dono da favela para contar uma história.”

 

"Nem cineasta, nem traficante?", copyright O Globo,
3/09/02

"Sou policial. Apesar de ter nascido muito pobre, sou uma prova de que existe alternativa, ao contrário do que apregoa a sra. Kátia Lund em entrevistas, quando, ao declarar-se amiga e admiradora do bandido Marcinho VP, diz que se tivesse nascido na favela provavelmente seria traficante. E este é apenas o primeiro da série de equívocos e declarações desastrosas, fruto da visão distorcida da realidade, da famosa dupla de cineastas, diretores do belíssimo filme ?Cidade de Deus?.

Sim, um belo filme, um maravilhoso elenco, mas é pura ficção.

Paulo Lins teve o cuidado de colocar na capa de seu maravilhoso livro o gênero: romance. Os cineastas e mais meia dúzia de teóricos alardeiam ser o filme um retrato fiel da realidade das favelas. Fato contestado até pelo rapper Mv Bill, nascido e criado na CDD (e que, aliás, não é nem cineasta nem traficante). Mv Bill também questionou o roteiro, aprovado por Mineiro da Cidade Alta, de dentro de Bangu I.

Uma ficção perigosa, pois, segundo um crítico de cinema do GLOBO, as pessoas saem do cinema não só com a impressão de que não há alternativa para a pobreza como podem até sair assoviando o sambinha de Seu Jorge no final.

Realidade das favelas, do tráfico e de seus chefes só mesmo nas filmagens de Tim Lopes, que nunca teve amigos em Bangu I e muito menos fez nenhum tipo de acordo com o crime; por isso foi torturado, morto e incinerado pelos cúmplices de Mineiro – este descrito por Fernando Meirelles como um cara estável, de 40 anos, que saiu da cadeia e continua comandando o tráfico da Cidade Alta. Sem dizer que é amigo de infância de Elias Maluco.

Realidade do submundo do tráfico só no feirão da Grota, nas imagens de meninas fazendo sexo no baile funk, as quais nunca veremos, pois foram incineradas com Tim Lopes e estão nas ossadas das valas comuns, nos altos dos morros de nossa cidade.

Tim Lopes é um capítulo à parte. Nasceu na favela (não era cineasta, nem traficante) e morreu na favela, viveu toda vida dentro dela, sem nunca ter sido conivente. Quando foi descoberto, sofreu o pior dos martírios.

Como pode alguém dizer que passou quase dois anos com uma câmera na favela e saiu ileso? E ainda dizer que o que foi filmado é a realidade? E pior: que não fez nenhum tipo de acordo com os traficantes? Quem acredita nisso ou é ingênuo, burro ou cínico. Da mesma forma que quem acredita que Pequeno (traficante da quadrilha de Mineiro, preso na pré-estréia) não foi convidado pela produção do filme para ir a uma festa ?fechada? no New York City Center, ou ainda que nós não o prendemos lá.

Não estou dizendo com isso que somente Tim Lopes conhecia, ou que somente a polícia conhece, a realidade do tráfico de drogas. Para quem quer aprender, eu indico, entre outros poucos que me fogem à lembrança: Dráuzio Varella, Arnaldo Jabor, Michel Misse (UFRJ), Alba Zaluar, Arthur Xexéo, Benedita da Silva, Carlos Amorim, Caco Barcelos e principalmente todos os jornalistas das páginas policiais. O resto é aquilo: muita informação e nenhum conhecimento.

Hoje podemos dizer, seguramente: o tráfico está invadindo as Forças Armadas, porque estas não têm dinheiro para repor fuzis e munição.

Quatro meses atrás, estávamos perdendo a guerra. Era notório o clima de desespero da população perante a ousadia dos ?bondes? e falsas blitzes de bandidos.

Hoje, eles estão sem dinheiro, sem drogas e com a munição acabando. Empatamos, e estamos próximos de vencer. O que nos falta é respaldo, credibilidade e apoio de todos os segmentos da sociedade. Principalmente respeito.

Hoje, a polícia trabalha diretamente com o Ministério Público e o Judiciário. A 1 Central de Inquéritos nos dá toda a retaguarda jurídica e direciona todas as formas de investigação (sem ironia: como nos filmes policiais americanos). Na polícia, tem vida inteligente, que prende traficantes no meio da festa sem ninguém ver (com exceção dos seguranças) e os prende duas ou mais vezes. Só quem não sabe disso são pessoas que passam a vida a contar histórias de bandidos e, quando são chamadas à responsabilidade, tentam em vão jogar lama em quem trabalha sério contra seus ícones pessoais (ou seriam comerciais?).

A esta altura, Mineiro deve estar profundamente arrependido de ter aprovado o roteiro e franqueado (sic) a locação. Vai ser preso novamente, graças à ?farrolice? de Fernando Meirelles, que, de maneira elogiosa, informou a toda a sociedade o retorno de Mineiro ao comando do tráfico. Aliás, desconfio que ambos estão fugindo do depoimento formal na DRE tão-somente por medo de Mineiro. Até porque debochar, desmentir e ?esculhambar? a polícia é fácil, ainda mais respaldados pelos ?integradores? do poder, no melhor estilo: aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei.

Mas com Mineiro e o poder que ele representa não adianta ?chave de galão de eminência parda?. Fernando Meirelles só tem três caminhos: ou desmente o site da Globonews, ou ratifica a entrevista, ou desmente a si mesmo. Realmente é uma decisão difícil.

Enfim, não me lembro de um ?tira? ter tido esta oportunidade de desabafar. Por isso, nem citei as dificuldades de nossa profissão. Só gostaria de lembrar que da mesma forma que quem não gosta de política está condenado a ser governado por quem gosta, quem não dá respaldo, voz e autoridade à sua polícia vai ser governado pelo tal poder paralelo.

E uma última lembrança: tem gente que nasceu na favela, viveu nela, perdeu filhos nela e não é nem cineasta, nem traficante: é governadora do Estado do Rio de Janeiro. (MARINA MAGGESSI é chefe do setor de investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro.)"

 

TALK SHOW DE MARADONA

“Maradona vai apresentar um ?talk show? na TV argentina”, copyright Folha de S. Paulo, 1/09/02

“O ex-craque argentino Diego Maradona vai conduzir um programa de entrevistas semanal em seu país. O ?Maradona Show? deve começar a ser exibido até o final deste mês, nas noites de terça, pela TV América, a segunda maior emissora argentina.

A idéia do ?talk show? surgiu há seis meses, em Cuba, país em que o ex-jogador faz tratamento para se livrar da dependência de cocaína. Como em outros programas de entrevista, o ex-jogador vai conversar semanalmente com uma personalidade esportiva, artística ou política, e contará com uma banda para animar o programa. As comparações com o ?Programa do Jô? (Globo) são inevitáveis, até porque Maradona continua bastante acima do peso que tinha na época em que era atleta profissional. A principal diferença estará no último bloco, quando Maradona e convidados vão conversar em um bar montado no estúdio, compartilhando drinks e relembrando histórias. Entre as personalidades que já foram convidadas para participar do ?Maradona Show?, estão o líder cubano Fidel Castro e o ex-presidente argentino Carlos Menem. O produtor do programa, Sebastián Rainelli, disse ao TV Folha que Romário e Pelé, ex-desafeto do novo apresentador, serão convidados a pedido do próprio Maradona.

Multimídia

As apostas ?midiáticas? de Maradona nos últimos meses não se restringiram à TV e tornaram a vida do ex-jogador quase tão agitada quanto sua história nos gramados.

Além de estrelar comerciais de diversos produtos e comentar jogos durante a última Copa, Maradona também gravou, ao lado das duas filhas e de cantores argentinos, o disco ?SOS Hospital das Crianças?, cuja renda será doada a menores carentes.

O próximo projeto é a gravação de um documentário, que deve ser lançado em vídeo e DVD até o final do ano. O filme, ainda em pré-produção, mostrará imagens do ex-jogador em ação nos gramados e contará com entrevistas de pessoas próximas e do próprio Maradona.”

 

GRANDE FAMÍLIA

“Mulheres e jovens fazem a força da ?Grande Família?”, copyright Folha de S. Paulo, 1/09/02

“Um público de jovens, entre 12 e 24 anos, com ligeira concentração extra de mulheres. Não, não é um programa para adolescentes, muito menos um perfil dos telespectadores da nova novela das 7. O produto que tem atraído este segmento tem fórmula antiga e há dois anos faz sucesso nas noites de quinta. Aliás, fazia: por causa dos reajustes promovidos para acomodar o horário eleitoral, há duas semanas, A Grande Família ocupa as noites de quarta-feira, logo após a novela Esperança.

O novo horário rendeu ainda mais alegrias à equipe. Em vez dos habituais 23 pontos no Ibope, o programa teve médias de 32 e 33 pontos, respectivamente, nas duas primeiras quartas. ?Às quintas, o programa acabava quase meia-noite, pois tinha a apresentação do Linha Direta antes e muita gente reclamava?, explica Cláudio Paiva, redator final da atração. Segundo ele, o Linha Direta também acabava dispersando o público de A Grande Família.

Fidelidade – O programa, que a princípio seria apenas uma série de oito episódios e já está no seu segundo ano de exibição, sempre sofreu com as alterações promovidas na grade da emissora, mas, segundo Paiva, o saldo das mudanças é positivo e a audiência tem se mantido muito fiel. ?O público é estável. Nos programas da noite, é comum ir perdendo audiência ao longo das horas, mas A Grande Família não perde. O pessoal assiste até o fim.?

A grande vantagem do programa, segundo Paiva, é que a cada capítulo se pode fazer um episódio diferente. ?É uma comédia de família, em que cada personagem permite mudar todo o estilo do programa.?

Apesar de já ter feito capítulos mais ligados ao público jovem, como o que Lineu (Marco Nanini) come, acidentalmente, os biscoitos de maconha que Tuco (Lúcio Mauro Filho) fez – episódio, aliás, que ficou quase um ano embargado pela direção da Globo -, Paiva diz que não trabalha para atingir um público específico. ?É um programa aberto e trabalhamos com um leque amplo de temas?, diz.

A pesquisa, encomendada pela emissora ao Ibope, comprova que a média dos jovens, na faixa etária dos 12 aos 24 anos, que assistem à A Grande Família é maior que a média dos jovens ligados no mesmo horário nos outros canais. O mesmo ocorre com a platéia feminina.

No entanto, com o público mais velho, que, teoricamente, já seria telespectador do programa em função de sua versão anterior, na década de 70, ocorre o inverso, ou seja, no horário de exibição do programa, são mais atraídos pela programação dos outros canais do que por A Grande Família.

Novelas – Para Paiva, a grande concentração do público feminino tem fundamento. O programa, segundo ele, muitas vezes, explora bem o lado sentimental dos personagens. ?Tem hora que abordamos o drama e é triste mesmo. O episódio do Dia dos Pais, por exemplo, foi um dramalhão mexicano, de partir o coração. Quem viu chorou?, diz.

O ?dramalhão? de A Grande Família tem inspiração óbvia: as novelas brasileiras. ?O programa flerta com a novela. Sempre digo que as novelas estão cada vez mais enveredando para o nicho de programas humorísticos, como foi o caso de Uga Uga, mas ninguém, até então, havia feito o caminho contrário.?

Para ele, A Grande Família está cumprindo este papel e tem até um ar de TV Pirata. ?A maioria dos programas de humor sempre foi machista, vai ver que é esse o segredo.?”