Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Manual do bruxinho colonizado

ISTOÉ PARA CRIANÇAS

José Colucci Jr., de Boston (*)

Amiguinho, conforme prometi, estou de volta com mais uma brincadeira. Desta vez a idéia veio da reportagem de capa da revista IstoÉ (22/3/02), intitulada "Magia contra as trevas". A intenção irônica dos editores da IstoÉ fica clara já no título, do contrário este seria "Ignorância contra as luzes". Afinal, essa turma toda ? editores, redatores, repórteres ? é gente séria, que teve acesso à educação, e jamais ajudaria a promover exploradores da boa-fé do público.

O quê? Você acha que não foi ironia? Menino! Tão novo e tão cético. Aliás, isso não é mais ceticismo, é quase cinismo. É claro que foi brincadeira. IstoÉ ? "a revista para quem não se contenta com nada menos do que a verdade" ? não faria de outro modo. Se publicasse tamanho amontoado de asneiras sem denunciar o absurdo que é acreditar nelas perderia a autoridade para falar de outros assuntos. O público leitor desconfiaria que critérios idênticos são usados para tratar de política, de economia, de saúde, de tecnologia, de assuntos nacionais e internacionais.

Você tem amiguinhos que pensam que o Harry Potter existe de verdade? Bem, em crianças isso é compreensível. Cada geração tem a subliteratura que merece. Nenhum adulto com mais de meio cérebro funcional, no entanto, pode acreditar que a Escola de Magia e a Bruxaria de Hogwarts tenham qualquer relação com a realidade. Existem, é claro, os patéticos seguidores das correntes ocultistas, mas esses não contam. Eu disse que o requisito mínimo era meio cérebro.

Você continua achando que a matéria foi a sério? Só por que não disseram que era de brincadeira? Eu pergunto: e precisava? Vou dar um exemplo. Aqui perto de onde moro fica uma cidade chamada Salem, onde, em 1692, inocentes acusados de bruxaria foram julgados e condenados, vítimas do fanatismo religioso da época. Ao todo, 24 pessoas morreram ? 19 na forca e 5 na prisão, sob tortura. Hoje, numa jogada bem americana, Salem faz das artes ocultas a sua principal atração turística. A cidade é repleta de museus, casas de show, parques de diversão, livrarias e restaurantes cujo tema é a bruxaria. Com exceção de uns malucos que se reúnem de vez em quando por lá ? e deixam um bom dinheiro no comércio local ?, ninguém em Salem leva o assunto a sério. Mas também ninguém diz que é de mentirinha. Isso fica subentendido. A ignorância do século 17 queria acabar com as bruxas; só a ignorância do século 21 explica querer trazê-las de volta.

Sexto sentido

Ainda não se convenceu? Tá bom, vamos olhar juntos a revista. Veja aqui, logo no começo: o estudante A. passa no vestibular por ter se limpado das energias negativas ao entrar num círculo feito com giz no chão do quintal por sua mãe, Dona C., a qual, por sua vez, foi aluna do Colégio de Tradição de Magia Divina. É brincadeira, você não percebe? Coisa tirada de livro infantil, daqueles simplórios, em que a magia do bem luta contra a magia do mal. Acho que não estrago a surpresa se disser que neles o bem sempre vence. A Dona C. sabe que pode fazer essas brincadeiras sem correr o risco de morrer na fogueira. Vivemos, isto é, você vive, num país civilizado. O quê? Não! Esse menino! Tá bom, quase civilizado. A magia tem que ser feita no quintal, lá perto do tanque, e não à beira de uma cachoeira, como manda a receita ocultista. Em espaços públicos há sempre o risco de um seqüestro relâmpago, e desse perigo nem os magos escapam.

Mais adiante, dois empresários de informática explicam que sua especialidade é "totalmente fundamentada na lógica", mas adotam a magia em seu trabalho. Pensei em chamá-los para fazer um círculo de giz à volta do meu Windows XP, que anda com más vibrações, mas, pensando bem, eles não têm a menor chance. O que são dois magos brasileiros contra o Grande Bruxo de Redmond? Não foi você que me mandou aquele cálculo que circula pela internet mostrando que o nome de Bill Gates equivale a 666, o número da Besta?

Veja este trecho: "O fato de a magia, nos moldes atuais, poder ser praticada sem espalhafato tem sido um dos seus principais atrativos, em um mundo dominado pela razão e o ceticismo". Você ainda duvida que é gozação da IstoÉ? Razão e ceticismo nunca predominaram em lugar algum. Um pouco menos na redação da revista. A história do mundo é a história da irracionalidade, quase sempre a trazer miséria e indignidade aos homens. Contrariando os redatores da matéria, o próprio mago Saraceni diz que é justamente pelo mundo moderno ser como é que as pessoas procuram a magia sem medo de ser ridicularizadas. Certíssimo. Se houvesse um pingo de senso de ridículo ninguém se fantasiaria de idiota do século 18 a dizer besteiras do século 13.

Olha essa foto aqui. Não falei? Esse cara, um tal de Paulo de Saint Germain, diz que o Conde de Saint Germain lhe apareceu através de visões que começaram aos três anos de idade e, mais tarde, imagino, ordenou-lhe que reunisse os moradores da Granja Viana e lhes cobrasse uma mensalidade para aprender magia. Gozado! Eu tive um sonho parecido. Na noite passada sonhei que me visitava Voltaire, um contemporâneo do Conde de Saint Germain. No sonho, o velho filósofo ? um defensor do racionalismo, da liberdade de expressão e da solidariedade ? recordou-me a sua frase "os que nos fazem acreditar em absurdos, fazem-nos cometer atrocidades". Fiquei com aquilo na cabeça. Afinal, Voltaire tem sobre Saint Germain a vantagem de ter existido.

E aí? Nós vamos brincar de mago ou não? Se formos, precisaremos antes arranjar os suprimentos: a túnica ritual, a espada mágica de Saint Germain, a cruz de Saint Germain, o manto mágico "que o ocultará dos malefícios", os cristais de ametistas, a vela, a taça, a medalha, o anel e o perfume da magia de Saint Germain. Felizmente a IstoÉ, em mais um serviço de utilidade pública, nos informa que esses produtos podem ser adquiridos no Emporium da Energia. Essa parte eu não entendo direito. Por que precisamos comprar esses caríssimos insumos importados? O que há de errado com os defumadores, as ervas, as velas, a carqueja, a erva de bugre e o cipó cabeludo vendidos em qualquer lojinha de umbanda? Por que o Sétimo Raio Violeta e não o Caboclo Sete Flechas? Por que o Mestre da Fraternidade Branca e não o Preto Velho da Bahia? Isso me cheira a preconceito desse tal de Saint Germain. Em todo o caso, ainda somos iniciantes na fascinante arte da magia colonizada, e devemos obedecer aos mestres.

Você perdeu a vontade de brincar? É por causa do teste da IstoÉ? Já sei: ele revelou que você não tem sexto sentido. Deixe-me ver: eles perguntam se você tem intuição. Se você disser que não, eles concluem que você não tem sexto sentido. Espere aí… Sexto sentido não é o mesmo que intuição? Você tem razão. Esse teste é uma droga. Mais uma prova do que eu digo. Só pode ser brincadeira. Tem certeza que essa não é a edição de 1? de abril? Não é possível! Tem de haver uma nota nalgum canto dizendo que é tudo uma gozação. Afinal, a "revista mais independente do Brasil" não iria decretar independência da lógica. Ou iria?

Agora você me deixou na dúvida… Esse menino!

Até a próxima semana. Um abraço do tio Zezé.

(*) Engenheiro. E-mail: j.colucci@rcn.com