Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Mino Carta

GLOBO & BNDES

"Quem cala consente?", copyright Carta Capital, 18/03/02

"Vemos o senhor Cheney, com sua expressão de pastor protestante, circulando pelo mundo em missão de paz. Compenetrado, aparentemente entregue a santos propósitos. Não faltará quem se convença da sua boa-fé.

Vemos o senhor Berlusconi, com sua expressão de vendedor do elixir da vida eterna, prometendo a transformação da Itália em paraíso terrestre. Não faltará quem se convença da sua boa-fé.

Vemos o senhor Blair, com sua expressão de maître d? hotel na hora de advogar a causa do vol au-vent de rins de boi, botando no chinelo o neoliberalismo da senhora Thatcher (com sua expressão de governanta de castelo escocês) e não faltará quem se convença da sua boa-fé.

A hipocrisia dos senhores não é novidade, reforçada pela vocação teatral de alguns. Ou mesmo histriônica. Mas não é que necessitemos de melhores informações para enquadrar as personagens acima dentro de papéis arcados com o habitual desembaraço.

O pastor protestante, vice-presidente dos Estados Unidos, carrega nos ombros o escândalo Enron, que ganharia manchetes infinitamente mais retumbantes não fosse a colaboração de Bin Laden com George Bush. O presidente americano, entronizado imperador do mundo com a ajuda de um golpe de mão, devidamente comprovado, bem que poderia acender um punhado de velas no altar de Allah para agradecer a ajuda dos terroristas suicidas.

O vendedor de elixir, sagrado primeiro-ministro à testa de coligação dita de centro direita composta por conservadores, fascistas e separatistas, consegue juntar a condição de manda-chuva da política com a de empresário mais rico da Itália, à sombra do projeto, até agora em perfeito andamento, de impor a ditadura pela via parlamentarista.

O maître d?hotel, eleito premier do Reino Unido ao cabo de pregação trabalhista, trai impavidamente as tradições do Labour Party e do orgulho albiônico para se tornar mais ferrenho que a Dama de Ferro, inclusive na vassalagem ao império americano.

Não carecemos de outros exemplos do ataque desfechado aos ideais democráticos, às esperanças de paz, aos anseios igualitários. Ao próprio senso comum, recurso e expressão dos homens de boa vontade. Mas fiquemos nestes, no plano internacional.

No plano nacional, tem espaço cativo, na galeria, o nosso presidente, Fernando Henrique, na versão em vigor até a definição da candidatura José Serra. Ou seja: na interpretação do príncipe dos sociólogos que recomenda ?esqueçam o meu passado? e passa a liderar a maior, mais determinada e feroz aliança de direita já selada no País.

Sempre chega, não temam, o momento em que o mundo se curva. Nada se compara, no ataque aos mais elementares princípios democráticos, ao esforço concentrado empreendido pela armada tucana para alavancar – ah, eis o verbo inescapável, como a gravata amarela dos senhores e seus imitadores – a candidatura do sucessor de FHC. Empalidecem falsos pastores protestantes, vendedores de elixir, maîtres d?hotel. Todos aprendizes de mágico.

CartaCapital não entra no mérito das qualidades ou defeitos do senhor Serra, como político, como cidadão, como indivíduo. Nem discute a legitimidade da escolha presidencial e partidária, ou a consistência da trajetória do candidato e as razões da sua ambição. Discute o comportamento governista.

O Brasil ainda fica, infelizmente, a considerável distância, não apenas geográfica, dos Estados Unidos, da Itália e do Reino Unido. Na história do País, é mais fácil perceber o arranjo oligárquico do que o democrático. Mesmo assim, jamais se viu algo similar, por aqui e em quaisquer outras latitudes, esquema prepotente, arrogante, antidemocrático quanto este, montado para promover a candidatura Serra à eleição popular.

Sabemos que os donos do poder sonham desde sempre com a democracia sem povo, e sabemos que encaram o Brasil como fazenda infinda da sua exclusiva propriedade. Não sabíamos, não imaginávamos – quanta ingenuidade – que ainda viriam a agir tão desabridamente às escâncaras.

A operação de pronto-socorro à empresa do plimplim configura episódio inédito e incomparável, de todos os pontos de vista, mas não deixa de ter seus inconvenientes, mexe com interesses graúdos e atiça a grita dos grandes esquecidos. Veremos. Quanto a CartaCapital, pergunta-se o que esperar de um candidato, caso se eleja entre um plim e outro, disposto a caminhar imperturbável na rota de uma eleição profundamente injusta. Desigual. Ou, por outra: que idéias tem o senhor Serra a respeito de democracia?"

 

"O Jogo do Milhão", copyright Carta Capital, 18/03/02

"?O importante é a comunicação de massa.? Fernando Henrique Cardoso

Jornalistas, no mais das vezes, têm um trabalho penoso no juntar de fatos, dados, histórias, frases, pessoas, sinais e muito mais, que sejam conectáveis, que formem um todo com sentido e utilidade para quem quer ler, ouvir, ou ver as notícias e seus desdobramentos. De quando em quando os fados, ou os fatos, ajudam. Uma conjunção, quiçá astral, torna tudo cristalino sem que seja necessário o repórter, a repórter, se esfalfar. Basta ouvir, olhar, ligar o gravador ou recolher as frases soltas por aí. O que está dito, tendo sido dito por quem disse, resume e explica tudo. Nessa segunda semana de março a colheita foi mais fácil do que catar maná naquele deserto, umbu no sertão da Bahia ou mosquito da dengue Brasil afora. Vamos à primeira fase, resumida, do fraseado, que é auto-explicativo.

Roberto Civita, diretor-presidente e editor da Editora Abril, ao jornalista Paulo Henrique Amorim:

– Se for assim, eu também quero.

Antônio Teles, vice-presidente da Rede Bandeirantes, em entrevista a Cartacapital (à página 28).

– Esse empréstimo do BNDES à Globocabo é um escândalo. Em época eleitoral, como agora, será uma sombra sobre todo o processo…

Fernando Portella, vice-presidente- executivo do jornal O Dia, do Rio de Janeiro, a CartaCapital:

– A operação BNDES-Globo foi montada com o objetivo, do ponto de vista do negócio, de capitalizar e arrumar a empresa para, numa segunda fase, depois de votada a emenda ao artigo 222, atrair um sócio estrangeiro. Ora, todas as empresas querem arrumar o seu balanço, eu também quero arrumar o meu…

Silvio Simões, diretor do jornal A Tarde, da Bahia, para CartaCapital:

– Qual o critério que levou o BNDES a fazer essa operação com a Globocabo? Se foi eleitoral e político, eu discordo de forma radical e absoluta. Se a operação não tem rentabilidade, eu sou contra, isso é prejuízo para a sociedade. É preciso ter critérios, e no caso não se sabe quais foram os critérios.

O diretor de uma das maiores redes de rádio, tevê e jornais do País, que pede anonimato, para CartaCapital:

– Essa não é uma operação normal. Não fossem o volume e a natureza, poderia ser até justificável, mas não é. O volume chama a atenção. É um momento eleitoral, um momento infeliz, pois o governo, que tem um candidato, chama para ele, governo, a dívida de um grupo tão poderoso. Esse não é um caso estratégico para o País, vai ficar essa coisa no ar…

Boris Casoy, âncora do Jornal da Record:

– …a dívida total das Organizações Globo é de 1 bilhão e oitocentos milhões. É claro que essa é uma operação de ajuda. O que se espera é um tratamento igual para todas as emissoras. SBT e Band chiaram, dizem que não têm recebido o mesmo tratamento. E chama a atenção essa operação num final de governo e a poucos meses das eleições presidenciais.

O CEO de um dos mais populares jornais do País, a CartaCapital:

– Olha, é normal a gente sempre se acertar com o governo numa eleição, mas essa é a primeira vez que eu vejo prepayment…

O Macaco Simão, da Folha de S.Paulo:

– GLOBOCABO VIRA GLOBOCABO ELEITORAL! Globocabo eleitoral do Serra. Rarará.

As Organizações Globo como um todo têm uma dívida total de US$ 1,3 bilhão. O fraseado acima se refere à operação Bndespar/Globocabo, a empresa de tevê por assinatura do grupo.

Ao final e ao cabo esta operação, agora, de socorro à Globo pode custar ao BNDES R$ 284 milhões. Disso, R$ 125 milhões em debêntures de 1999 o banco troca por ações na operação desta semana. Há três anos o BNDES já entrara com outros R$ 284 milhões.

No total, sem ser feita a conta real-dólar de 1999, e incluindo-se um financiamento de outros R$ 220 milhões em 1997, desde então a parceria com o BNDES rendeu à Globo R$ 639 milhões.

Fora penduricalhos: R$ 58 milhões para o parque gráfico em 1998, outros R$ 12 milhões para o Projac em 2001. (Leia sobre tais relações às págs. 28/29.)

O que a turma logo acima está a dizer é o que se poderia ouvir nos barracos do Jardim Angela, em São Paulo, pelas palafitas de Alagados, Brasil adentro:

– Se é assim, eu também quero.

Fernando Portella, de O Dia, explica:

– Não causaria estranheza se fosse uma linha de crédito disponível para todo o mercado de comunicação. Este mercado, ainda numa fase de transição no negócio, é de famílias que no momento se preparam para a busca de sócios estrangeiros. No momento em que se está saindo de uma fase analógica para uma fase digital, não há como bancar isso como pessoa física. Então, se é para abrir financiamento, o BNDESPar deveria, com clareza, abrir uma linha de crédito para todo o setor.

Silvio Simões, de A Tarde, diz:

– Tem sustentabilidade e retorno? É democrático? Há critérios? Se não cumpre essas condições, sou contra. O risco é parte da vida empresarial.

A operação se divide, do ponto de vista do negócio, em três partes. Primeiro, busca capitalizar a empresa e arrumar seu balanço. Reduz a alavancagem financeira, o endividamento (melhora muito a proporção capital próprio/capital de terceiros) e aumenta a liquidez (entram R$ 155 milhões no caixa).

Segundo: dívidas da empresa com acionistas e debêntures da Globo em poder de acionistas serão convertidos em capital. Terceiro: a emissão de novas debêntures conversíveis. Com garantia de recompra pelos sócios até o limite de R$ 298 milhões serão emitidas as debêntures.

O banco que vai executar a operação no mercado – ao que se diz o Banco do Brasil – assume o compromisso de recompra de até R$ 20 milhões do que não for colocado.

Resta a dúvida se a Globo arruma seu balanço para atrair um sócio estratégico ou se já existe o sócio e o que se fez agora foi um trabalho antes que se aprove o ingresso de capital estrangeiro nas empresas de mídia.

No dia 1? de Março, quando a Polícia Federal entrou na Lunus, empresa do casal Roseana Sarney-Jorge Murad, em São Luís, o sistema de poder montado há sete anos por Fernando Henrique Cardoso começou (para se ter uma data-símbolo) a rachar.

O racha se aprofundou na quinta-feira 7, quando do desembarque do PFL do governo. É certo que o desembarque ainda é parcial, é seguro que se buscará uma recomposição para mais adiante.

Inegável é a rachadura. Enquanto isso, amadores em geral seguem a discutir quem é ladrão e quem não é ladrão, oportunamente esquecidos da sólida parceria dos últimos sete anos. Melhor, dos últimos 14 anos, 28 anos, 54 anos, 108 anos…

De repente se descobre que o vento venta e que a água molha. Amadores em geral tentam fazer crer a amadores em geral que tudo a que se assiste no País desde que março começou é obra do acaso.

O Ministério Público tem o dever de apurar e indicar os crimes cometidos. A Polícia Federal está obrigada a cumprir ordens judiciais. Ponto. Mas quem ainda não sabe que a Polícia Federal, cada dia mais empobrecida, é cada vez mais uma polícia refém da política, não sabe nem o início.

De resto, a chusma de manchetes e matérias dos últimos dias dando conta de detalhes da arapongagem e presença de agentes da inteligência do governo na operação cata-Roseana dispensa a necessidade de maiores comentários.

Tedioso, e sinal de miopia, seria a essa altura – quando as investigações avançam – seguir a discutir ainda as empresas de Roseana e sua dizimada candidatura, o milhão e trezentos em notas de R$ 50, etc., etc.

O que as reações à Operação Salva-Globo evidenciam é que a rachadura no sistema de poder amplia-se para além do espectro político-partidário.

A virulência e a ansiedade inoculadas no processo político em busca de consolidação da candidatura Serra dividem, por ora, também outros atores, decisivos em uma eleição no Brasil: os donos da mídia.

A ajuda à Globo trouxe à tona algo que já cozinhava na panela. Explique-se: está no Senado, depois de aprovada em dois turnos na Câmara, a emenda ao artigo 222 da Constituição Federal, que permite o ingresso de capital estrangeiro nas empresas de comunicação.

O que significa a ajuda à Globo num instante em que praticamente todas as empresas de comunicação do País enfrentam enormes dificuldades financeiras? Significa que, quando aprovada a emenda ao 222, apenas uma empresa – das tantas que precisam – terá arrumado sua casa, estará em condições de bem negociar com novos sócios: a Globo.

Anote-se. Assim como dispõe de condições e poderes para tentar recompor, em outros termos, uma aliança político-partidária, Fernando Henrique tem nas mãos a arma para quietar o brado retumbante da mídia: a emenda ao 222.

O PFL, ferido, também percebeu o poder dessa carta. Com a relatoria nas mãos, ameaça sentar em cima da emenda ao 222 no Senado. Vai negociar com quem detém o poder de erguer ou dizimar candidaturas: os senhores da mídia. Aguarde-se o desfecho.

Não será fácil a composição de interesses conflitantes, nem se conhece o apetite, e em que medida há, dos gringos pelo mercado midiático verde-amarelo. Certo é que estão quase todos, os grupos de mídia, reféns do presidente da República, e antes do PFL, em pleno processo eleitoral. O brado retumbante diz muito. E não é obra do acaso a escalada de março.

No plano interno, basta ler, ouvir, ou ver na tevê: Fernando Henrique e Serra atacam o FMI; Fernando Henrique diz que não precisou do PFL para se eleger; essas oligarquias nordestinas não prestam mesmo…

Com uma inacreditável oposição a si mesmo e ao seu governo, reverberada pelos sócios e apaniguados no poder midiático, o sociólogo FHC aplaina o caminho para o economista Serra.

An&aacutaacute;lises e mais análises sobre a genial jogada para deixar de lado as oligarquias do PFL. Bem, mas agora parece que o negócio será com o PMDB do Geddel, do Newtão Cardoso, do Padilha e do Jader? É bom evitar o tema. Provoca em alguns profunda irritação, e tédio. Há que focar apenas na grana da Roseana.

O Jornal Nacional da terça-feira 12, é uma lição para quem quer entender o jogo. Uma seqüência para semiólogo perder o fôlego.

Minutos e minutos de Roseana, Murad, a dinheirama. Segue-se, sem tomar fôlego: ?Pesquisa patrocinada pelo Bank of America mostra Serra em segundo lugar?. Seqüência, sem pausa: ?Bolsa sobe em São Paulo?. Comerciais, por favor.

Comerciais. Da revista Época. Mas a Época não é do grupo Globo? Quanto a Época, da Globo, paga para anunciar no Jornal Nacional da Globo? E o Cade, diz o quê?

Cerveja com cerveja não pode, pasta de dente com pasta de dente não pode. Caracteriza monopólio, concorrência desleal. E pode, pagando o que, revista do mesmo grupo anunciar na mesma televisão? Que é, recordemos, uma concessão do Estado.

Se tudo isso pode, CartaCapital solicita desde já uma linha de crédito, ao BNDES, para fazer-se anunciar nos comerciais do Jornal Nacional. Com essa capa que está nas bancas.

Esse será um jogo pesado, de idas e vindas. Na quinta-feira 14, em artigo na Folha de S.Paulo, o diretor de redação do jornal, Otavio Frias Filho, observou:

…trata-se do mais impressionante rolo compressor já montado na política recente. Dinheiro, recursos políticos, mídia, pressões, ameaças, tudo é usado para favorecer o candidato oficial. Detalhe importante: está sendo organizada uma estrutura paralela ao governo e a seu partido, algo sem precedentes.

Idas e vindas. Roberto Civita, na segunda 11 dizia a Paulo Henrique Amorim:

– Se for assim, eu também quero.

Na quinta 14, Mônica Bergamo registrava na Folha nova opinião do mesmo Civita:

– A operação me parece correta.

Para que se entenda qual e tamanha é a relação entre poderes constituídos no Brasil, vale uma rápida visita ao gabinete de Civita, no 24? andar do número 7.221, Marginal Pinheiros, São Paulo.

O edifício é dos tais inteligentes. Monumental, debruça-se sobre o fétido Rio Pinheiros, uma espécie de divisa entre o primeiro e o quarto mundos: a favela do Jaguaré não muito distante da Abril, a meio caminho da Editora Globo.

A visita. Antes de sua sala, uma outra, mesa enorme, de reunir ministério, escura como as águas do rio. À entrada de sua sala, à esquerda, uma escadinha leva ao mezanino e à pequena biblioteca, estilo norte-américa.

A mesa de Civita fica diante do aparador. Sobre ele, fotos. A mulher, os filhos, a família. Além dos Civita, mais uma, só mais uma foto. De Fernando Henrique Cardoso.

Por mais de uma vez, a mais de um amigo, Civita explicou:

– Pensam que a Abril apóia o programa governo do Fernando Henrique. A questão está mal colocada. Não é a Abril que apóia o programa do Fernando Henrique. É o Fernando Henrique quem apóia o programa de governo da Abril."

 

"Uma sombra sobre as eleições", copyright Carta Capital, 18/03/02

"O vice-presidente da Band e a ?operação obscura?

CartaCapital: A Band anunciou há três semanas sua saída da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, a Abert…

Antonio Teles: Saímos há coisa de um ano e meio, o que fizemos agora foi comunicar ao público que a Abert não fala em nome das três emissoras – Band, Record e SBT. Não fala por uma razão que agora se comprovou em toda sua extensão; nos últimos anos a Abert representa os interesses da Globo. A Abert é um braço avançado da Globo para gestionar privilégios junto ao poder público, como se representasse todo o setor de rádio e tevê, quando só representa a própria Globo. Isso se comprova e fica transparente agora.

CC: Como e por quê?

AT: Em nenhum momento a Abert se manifestou abertamente diante desse escândalo, em época eleitoral, que envolve a concessão de um privilégio financeiro a uma rede de tevê, a Globo. Se representasse o setor, teria a obrigação de vir a público e dizer o que pensa. Poderia até dizer que este é um tratamento merecido, que a Globo deveria até ter um apoio maior, uma vez que foi e é tão importante na construção de uma sociedade livre e democrática. Por favor, essa última frase entre aspas.

CC: Os telejornais da Band, na qual o senhor é vice-presidente, têm usado o termo ?esquema? para se referir à operação Globo-BNDES. Que sentido tem a expressão ?esquema?. O que quer dizer isso?

AT: Uma operação como essa, urdida da maneira mais obscura, só pode ter obedecido a um esquema. Tamanho cuidado e sutileza, a pretensão do sigilo até o final, até a última hora, só se toma tais e tantas precauções se há um esquema. Um esquema bem organizado, diga-se.

CC: O senhor usa acima a expressão ?escândalo em época eleitoral?. O que exatamente quer dizer isso?

AT: No momento em que o poder público prioriza qualquer grupo econômico já é um espanto para a sociedade. As regras do bom capitalismo, para dizer o mínimo, é que todos tenham direitos iguais. Falamos aqui de linhas de financiamentos, créditos, oportunidades, etc., etc. Essa é inclusive uma questão de moralidade pública. Especialmente numa época pré-eleitoral, quando se antevê uma campanha presidencial que será a mais disputada que o País já teve na história recente, a prudência e a cautela deveriam ser maiores ainda. Qualquer sombra que pairar sobre uma operação dessa natureza – sobretudo para um grupo de comunicação com um imenso poder de penetração na opinião pública – fará com que todo o processo eleitoral seja posto em questão em algum momento. Eu não posso acreditar que isso tenha sido intencional. Quem sabe não foi um deslize da burocracia, dos tecnocratas, não é mesmo?

CC: Deve ter sido, deve ter sido… O senhor crê que tal ?esquema? tem por intenção beneficiar alguém?

AT: Eu detestaria fazer qualquer ligação com os fatos que estão acontecendo simultaneamente no País, embora para nosso espanto tudo esteja acontecendo no clímax de um processo.

CC: Mas essa não é uma velha história, não é sempre assim nesse setor?

AT: A história toda da Rede Globo é pontuada de situações semelhantes. Primeiro o acordo com a Time-Life, depois aqueles famosos incêndios sucedidos pela importação privilegiada de equipamentos de primeira geração. Qualquer manual básico da história da Globo, de fácil acesso, conta isso. E o resultado é sempre o fortalecimento sucessivo da empresa que resulta na liquidação, ou tentativa de liquidação, da concorrência. Apesar das denúncias, os fatos são sempre consumados. E já dizia Zezinho Bonifácio, lá de Minas: ?Contra o fato consumado não se luta.?

CC: O que há mais nesta operação, ou ?esquema? como o senhor prefere?

AT: Parece que o Banco do Brasil também vai participar do resgate aos náufragos, desse imenso naufrágio.

CC: Isso é certo?

AT: Pelo andar da carruagem deve se consumar. Não é e não será novidade. Mas, para você ter uma idéia do que isso representa: na Copa 98, a Band, o SBT e a Globo pagaram, juntos, US$ 9,8 milhões. Em 2001, a Globo, para afastar a concorrência, negociou isoladamente e pagou pelas copas 2002 e 2006 US$ 240 milhões. Uma atitude perdulária, insustentável, dessa natureza só é tomada quando se pode contar com o erário, público como sabemos, para suprir dificuldades de caixa.

CC: Repito a pergunta: no setor de vocês isso não foi sempre assim? Cinco anos para o Sarney em troca de mil emissoras de rádio, tevês…

AT: Na época do Sarney, sem defendê-lo, pelo contrário, aquilo foi um reembolso por favores prestados. Deram o quinto ano, levaram rádios e tevês, mas aquilo foi dado a políticos. Agora não. Isso é um favor, mas eu não sei qual a motivação.

CC: O senhor admitiria estar em curso uma manobra em favor da candidatura à Presidência patrocinada pelo governo?

AT: Eu detestaria acreditar nisso. Ainda tenho esperança na democracia brasileira. Apesar de tudo isso.

CC: ?Tudo isso?, o quê?

AT: Como diria o conterrâneo Guimarães Rosa, eu só sei que eu não sei de nada, mas desconfio de quase tudo."

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"?Eles que se dirijam ao BNDES?", copyright Carta Capital, 18/03/02

"Presidente da Globocabo diz que trata apenas do seu problema

CartaCapital procurou João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, para falar sobre a bateria de críticas à operação BNDES-Globocabo. Marinho pediu que a conversa, abaixo, se desse com Luis Antonio Viana, presidente da Globocabo.

CartaCapital: São muitas as críticas ao processo BNDES-Globocabo. De Antônio Teles, vice-presidente da Bandeirantes, e de outros donos e dirigentes de grupos de mídia. O senhor…

Luis Antonio Viana: Eu não comento críticas. Eu posso falar sobre o trabalho que foi feito. Quando entrei na companhia, em 1? de outubro, após avaliar a situação, comecei a construir um plano de negócios que teria de se basear em quatro grandes pontos. Mercadológico, operacional, estratégico e de reestruturação financeira. Não necessariamente nessa ordem. Em conseqüência disso, cerca de um mês depois apresentei o plano a todos os acionistas, inclusive ao BNDES. A partir daí estamos discutindo não só aspectos financeiros como também os aspectos de governança cooperativa, que resultaram na montagem que ora se conclui. Um processo exaustivo, detalhado e profissional. Esta é a verdade. O resto eu não comento.

CC: Entendo que esta seja a sua verdade, mas o senhor não admite que outros donos de empresas de comunicação tenham suas razões. Quem está chiando pode ter lá a sua razão ao dizer ?eu também quero o meu??

LAV: Bem… o que… o que eles querem ou não, não é da minha alçada…

CC: Imagino que não…

LAV: Eles, eles têm de se dirigir ao BNDES, equacionar seus problemas do jeito que puderem. Meu negócio é a Globocabo. Ponto. Acho que cada um deve tratar do seu problema. O meu é a Globocabo. Eu estou focado na Globocabo.

CC: E quanto às críticas…

LAV: Não comento nada, isso não é questão minha.

CC: O senhor foi do BNDES, não?

LAV: Saí em 1985! Respeito muito a casa, tenho grande admiração e respeito pela casa BNDES e creio que lá sou respeitado."