Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Nelson de Sá

CRÍTICA DIÁRIA

"No Ar", copyright Folha de S. Paulo

"24/02/02

"Carlos Tramontina, o apresentador do SPTV, recebeu um registro, em sua mesa, e encerrou assim a extensa e alarmante cobertura que o noticiário chamou de O Perigo da Dengue:

– E atenção! Uma informação que acaba de chegar: o ministro José Serra anunciou que acertou com o governo municipal o envio de mais mil agentes de saúde para o combate à dengue em São Paulo.

Uma ação do ministro da Saúde surgiu na televisão, afinal, para tratar da dengue -e não somente para responder aos adversários que o questionam, por responsabilidade na epidemia.

Ele vinha desaparecendo aos poucos do cargo.

Na noite do dia anterior, quem falou sobre as medidas contra a epidemia, no Jornal da Globo, foi seu eventual sucessor, secretário-executivo do Ministério da Saúde. Do ministro, nada.

Isso, em meio à notícia de que soldados do Exército vão entrar diretamente no combate à dengue no Rio.

Amanhã, Serra quer deixar definitivamente de ser ministro, no momento de maior pânico com a epidemia na televisão, para ser presidenciável.

Se ouvisse um marqueteiro, para dizer o menos, o tucano entenderia que um político não foge de cena, sob pena de não voltar mais.

Não é difícil identificar um político sob a influência de um marqueteiro.

Tome-se Fernando Henrique, que voltou a falar em rede nacional, agora para anunciar o que já se sabia, o fim do racionamento de energia.

Nas últimas semanas, o presidente não sai de cena, da televisão, seja em entrevistas coletivas, em comícios cobertos nos telejornais, o que for. Ontem, foi além do fim do racionamento, por exemplo:

– Já começamos a pagar a nossa histórica dívida social.

Estava em campanha por Serra -que prefere sair de cena.

Por falar em marqueteiro, o jornal ?The New York Times? noticiou em manchete que o Pentágono, o ministério da defesa dos EUA, prepara um programa para influenciar a opinião pública mundial em favor das ações norte-americanas. É um desenvolvimento do que já fez no Afeganistão.

Foi criado um escritório chamado de Influência Estratégica. E já foi contratada uma empresa de marketing, de John W. Rendon Jr. Ele foi marqueteiro do ex-presidente democrata Jimmy Carter e, mais recentemente, da CIA.

22/02/02 ? Emoções

José Serra disse que treinou horas para não se emocionar na despedida do Ministério da Saúde, ontem.

Não é difícil imaginar que o presidenciável tucano tenha de fato se preparado durante horas para o espetáculo.

Segundo relatos, quando era presidente da UNE, nos anos 60, ele foi até ator no teatro. Ontem mesmo, adaptou versos de Shakespeare para seu megaevento -descrição de Boris Casoy- armado no Centro Cultural Banco do Brasil.

Presume-se, assim, que tenha mesmo treinado horas, como um bom ator, para o discurso, que era dado como essencial na campanha. Mas é difícil imaginar que tenha treinado para não se ?emocionar?.

O que se questionou de seu discurso de anúncio da pré-candidatura, semanas atrás, em seu próprio partido, foi que não havia emoção em Serra.

Pois bem, aí estão as lágrimas do tucano. Está em campanha para o que der e vier.

Ele não evitou nem a dengue -que foi, depois das lágrimas, o que mais se reproduziu de seu discurso, no Jornal Nacional e demais telejornais.

Um candidato não se volta para a Igreja Universal impunemente, como faz Lula. Igreja Católica e Globo não tardam a mostrar a insatisfação.

A primeira já o fez pelo vice-presidente da CNBB, que falou do ?risco de elementos de uma igreja que tem uma potência na comunicação buscarem certos objetivos, como um ministério?. Ele avisou que isso incomoda ?setores da Igreja Católica?.

Na Globo, por enquanto, nada de tão direto. Mas uma manchete e a primeira reportagem do JN, ontem, insinuaram uma ligação entre uma ?quadrilha de venda de carteiras falsas de juiz arbitral? com o deputado Laprovita Vieira, do Rio.

O pastor Laprovita Vieira é ligado à Igreja Universal, da qual é um dos fundadores.

SBT e Globo têm companhia na guerra de audiência dos ?reality shows?. Agora é o Pentágono, buscando ?influenciar? a opinião pública globalizada, que recorre ao gênero.

A rede ABC, uma das três grandes dos EUA, anunciou um programa do tipo ?Casa dos Artistas?, de exaltação aos militares norte-americanos.

Ainda não se decidiu se o ?realismo? levará as câmeras para a ?Linha de Frente?, nome escolhido para o programa, mas elas estarão perto -e ele foi desenvolvido em conjunto com as forças armadas do país.

O produtor é o mesmo de ?Top Gun?, filme estrelado por Tom Cruise e pelo jato F-14 Tomcat.

19/02/02

A Globo fez farta exibição de corpos, resultado das rebeliões pelo Estado de São Paulo, o que revoltou Luiz Datena, da Record.

O animador do Cidade Alerta bateu no peito que não mostra cadáveres -e que os agourentos que só sabem falar mal de seu programa deviam voltar as críticas para a Globo.

Não deixa de estar certo, o narrador de futebol e de crime da Record. Mas os corpos nos noticiários noturnos já não chocam como antes, tal a constância. Sobretudo, não chocam porque tem coisa muito pior, na mesma Globo.

Por exemplo, no último programa Linha Direta, que abriu com as imagens de uma pessoa se vestindo, som de filme de terror, mais a locução:

– Salto alto, meias de liga. Quem veste estas roupas não é uma mulher.

Não, era um homem, um ator, já que se tratava de mais uma ?simulação?.

– Ele se vestiu de mulher para matar a companheira, com quem se casou contra a vontade dela.

Seguiram-se três blocos de ?simulação? e depoimentos. Num deles, o promotor falou:

– Ele possui um profundo desvio sexual.

Ergueu-se um espetáculo em que a jovem atriz, a mulher, dormia com um urso de pelúcia, enquanto o marido era descrito pela locução da Globo:

– Ronaldo já não disfarça mais o homossexualismo… Usa roupas espalhafatosas.

Uma ?simulação? apresentou, em detalhes, um estupro. E na ?simulação? final ele matou a mulher pelas costas e saiu como louco pela rua.

Pouco depois de encerrado o programa, na madrugada de quinta para sexta-feira, Ronaldo foi denunciado à polícia e preso.

Na manhã seguinte, ao tomar contato com detentos que haviam assistido ao Linha Direta, foi linchado.

Em nota, a Rede Globo, segundo o jornal ?O Estado de S.Paulo?, afirmou:

– O que ocorreu dentro da delegacia é responsabilidade das autoridades.

Não de Domingos Meirelles, do Linha Direta, da Globo.

José Serra foi ao Domingo Legal de Gugu Liberato, garoto-propaganda do PSDB, e o programa perdeu para o Domingão do Faustão.

Para além do fato curioso, que na verdade nem pode ser creditado a Serra, fica o registro de um comercial que entrou nos intervalos.

Era institucional, da Câmara, do também tucano e eventual presidenciável Aécio Neves."