Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Nelson de Sá

CRÍTICA DIÁRIA

"No ar", copyright Folha de S. Paulo

"DIA 8/03/02Notas de 50

– Um milhão e 340 mil, em notas de 50.

Foi como o Jornal Nacional descreveu a imagem dos pacotes de dinheiro, ao mesmo tempo em que desmontava as justificativas de Roseana Sarney.

As duas fotos do dinheiro descoberto na empresa da ?candidata?, não mais pré-candidata, como quer o PFL, foram o que de pior a Rede Globo poderia apresentar contra Roseana.

Editada como foi, a reportagem expôs mais a pefelista, que na sequência declarou:

– Não é crime ter dinheiro em caixa…

Tamb&eaeacute;m expôs a pefelista quando ela disse:

– Não pedi para suspender investigação nenhuma.

Corte para a repórter do JN:

– Mas na prática…

Na prática, as investigações foram suspensas. Na prática, destacou o JN, o pedido de Roseana e seus advogados traz expressa a ?imediata suspensão?.

A cobertura apresentou muito mais, até com maior poder de demolição, contra a candidata. Mas o que ficou, para o público do JN, foi a imagem das milhares de notas de R$ 50.

E nada de o pefelê entregar ?todos os cargos?.

Poucas horas depois de se ouvir, ontem à tarde na Globo, entre sorrisos de ironia, que o acontecimento ?histórico? estava confirmado, Jorge Bornhausen já surgiu avisando que Everardo Maciel seguiria no governo FHC por ser um ?técnico?.

Mais à noite e o próprio governo anunciou que Emílio Carazzai continuaria dirigindo a Caixa Econômica Federal, também por ser um ?técnico?.

Marco Maciel, o vice-presidente, por sua vez, apareceu dizendo que não se afastaria do governo, por ser um ?eleito?.

Isso só no primeiro e segundo escalões. Para baixo, deve ser muito maior o número de ?técnicos? e de ?eleitos?.

No dizer do pefelista maranhense Edison Lobão, sobre os ?técnicos? -expressão dele- de menor escalão, ?a decisão está na mão do governo?.

Como se vê, não estava de todo certa a Globo, ao afirmar à tarde que o grupo político hoje no PFL deixaria o governo pela primeira vez desde o ano de 1964.

DIA 7/03/02 – Todos os cargos

– O PFL vai entregar todos os cargos.

Fátima Bernardes sublinhou ?todos?, ao anunciar o acontecimento histórico, no Jornal Nacional. ?Todos os cargos? abrangem os milhares de segundo escalão para baixo.

Roseana Sarney dobrou o PFL. Os pefelistas agora estão tomados, também eles, pela ?ira divina? resultante da investigação do suposto desvio de verbas na Sudam.

A decisão ajuda a reforçar a imagem de perseguição política, tão necessária para anular eventuais provas do desvio que surjam no correr da campanha eleitoral.

Mas a ?ira divina? é também efeito da intenção de voto.

Os pefelistas passaram a acreditar na candidatura Roseana -ela que surgiu meio ano atrás dizendo que ?o destino das mulheres não é ser vice?, mas ?as mulheres, se quiserem, podem ser vice?.

O comercial foi feito antes de ela passar dos 20%. Agora o partido não quer mais ser vice. Quer Roseana.

É capaz de entregar ?todos os cargos? por Roseana. Ela tomou o poder no PFL.

O ex-presidente José Sarney, do PMDB, anunciou com estardalhaço o fax enviado pela Polícia Federal a FHC, na sexta, insinuando ser prova do Watergate maranhense.

A prova se esvaziou rapidamente, com a resposta governista de que foi enviada no final da operação -e reenviada a Jorge Bornhausen, que chefia a campanha da filha de Sarney.

Ficou do episódio, que certamente pesou na decisão dos pefelistas de deixar o governo, um ex-presidente que trata o presidente por golpista.

E um presidente que trata um ex-presidente por mentiroso.

A decisão histórica de entregar todos os cargos quase fez esquecer que José Serra finalmente estreou o seu longo programa de horário nobre, em cadeia nacional.

Ecoando ou não a crise com o PFL, ele foi apresentado como o candidato de FHC, como o candidato do governo.

Um locutor dizia que ?o presidente Fernando Henrique? e seu partido ?estão se unindo em torno de José Serra?. E o próprio dizia:

– Eu mereço o respeito e o apoio do presidente.

É o caso de perguntar se não há dúvidas no presidente, no momento em que inicia contra a sua vontade, de uma vez por todas, a fase terminal de sua presidência.

Se Roseana tomou o poder no PFL, Serra fez o mesmo no PSDB.

DIA 6/03/02 – Comprar briga

A ira divina com que Roseana Sarney foi retratada na Globo, anteontem, prosseguia ontem. Mas Roseana já dividia lugar com a relutância costumeira do PFL. Ouvido na rede, a certa altura:

– Os ministros do partido podem até sair, mas…

Saem dos ministérios, antes do previsto, mas mantêm os outros cargos. Saem dos ministérios, mas seguem votando com o governo. Ou não.

O PFL rachou, com governistas como Roberto Brant dizendo que a legenda seguiria votando com FHC. Com Jorge Bornhausen dizendo que, para decidir se deixa a base, o partido deverá ouvir todos os parlamentares -aqueles que detêm cargos de segundo escalão para baixo.

Na ponta oposta, ACM ressurgiu para ofender FHC e se postar ao lado do peemedebista José Sarney na exigência de que o PFL deixe o governo. Com eles, um também redivivo Inocêncio Oliveira barrou as votações.

Um PFL rachado como nunca se viu. Parecido com o PMDB.

Nem o Jornal Nacional tem como se furtar à marcha de cobertura de um escândalo.

O telejornal cobriu longamente a investigação de Roseana e Jorge Murad. E deu um verdadeiro discurso do procurador Pedro Taques. Trechos:

– Nós, do Ministério Público Federal, não temos culpa se muitos daqueles investigados figuram em cédulas eleitorais… Os juízes são juízes dignos, honestos, juízes corajosos, que estão simplesmente cumprindo a leir, doa a quem doer.

E assim foi para o espaço, ao menos no JN, a acusação de operação armada. Resta o vazamento para a mídia, para Roseana se agarrar no ataque ao governo. Mas é pouco.

Olhando de longe o estrago no PFL, José Serra estreou comerciais e abriu caminho para o programa que inicia hoje a massificação de seu nome.

Na mais chamativa das inserções, o ator global Raul Cortez disse que Serra faz o ?impossível? virar ?possível?:

– Impossível. José Serra já provou que essa palavra não existe. Ele comprou uma briga contra os grandes laboratórios de remédios e ganhou. Comprou uma briga com a indústria de cigarros e também ganhou.

Foi eficiente. Mas deixou uma mensagem subliminar, talvez uma confirmação, de que Serra só faz comprar briga.

Nem Roseana nem Serra. Quem deu um salto em sua campanha, ontem no JN e nos demais, foi Geraldo Alckmin, que apareceu para colher votos após a batalha contra o PCC."