Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Nelson de Sá

CRÍTICA DIÁRIA

"No ar", copyright Folha de S. Paulo

"05/04/02 Bombas de fumaça

A Globo foi das poucas a registrar:

– Os soldados explodiram bombas de fumaça para encobrir a visão das áreas da cidade histórica que estão sendo destruídas pelos tanques.

Falava de Belém. Esta guerra está servindo para coisas assim, para descobrir que uma expressão como cortina de fumaça, de origem militar, está de volta ao seu lugar.

A diferença é que agora se trata de esconder ações das câmeras de televisão, não dos inimigos militares.

São elas que não podem checar se o exército israelense explodiu, como acusaram palestinos, uma das entradas da igreja da Natividade.

Jornalistas bem que tentaram cobrir o que acontece em Belém, mas foram impedidos. De volta à Globo:

– Bandeira branca nas mãos, com capacetes e coletes à prova de bala, os correspondentes conseguiram entrar, mas minutos depois, quando tentavam falar com as famílias palestinas, já estavam sob a mira dos soldados israelenses.

Eram as câmeras que estavam sob a mira.

Com o pouco que se consegue ver, de Belém e das demais cidades, já se formou uma opinião pública que dobrou até George W. Bush.

Ele bem que tentou seguir no ataque a Arafat, mas o que ficou de seu tortuoso discurso de ontem, transmitido por toda parte, foi o esforço para fazer Ariel Sharon parar.

Sharon deu de ombros. Não vai retirar as tropas e, mais até, já ameaça com ataque ao sul do Líbano, em declarações registradas pela BBC.

O mais que fez foi permitir que o general enviado por Bush tenha um encontro com o ?isolado? Arafat.

Com a União Européia, Sharon foi ainda mais arrogante. Simplesmente negou um encontro da missão enviada pelos europeus com Arafat.

Ridicularizada uma segunda vez, como na Bósnia, a UE saiu às pressas para o aeroporto, dizendo coisas como ?uma solução não é possível sem os Estados Unidos?.

FHC elogiou Itamar anteontem. Ontem, Geraldo Alckmin e Jarbas Vasconcelos ecoaram e foram além, dizendo que seria um bom vice. Até Aécio Neves mimou Itamar.

Nos telejornais da Globo, ele voltou a ser protagonista por um dia inteiro.

E tudo para chegar à noite e afirmar, em nota, que não vai deixar o cargo, que não quer nem saber, que não vai ser vice de José Serra.

04/04/02 – Com força

– Temos um candidato com força…

FHC se traiu no discurso de ontem, transmitido ao vivo pela Band News e reproduzido nos telejornais.

José Serra foi esnobado pelo vice peemedebista que tanto queria e já não transmite toda a ?força? que parecia ter. Daí ser preciso insistir que sim, ele é um bom candidato.

Mas o que se vê realmente são os tucanos atônitos com o PMDB, nem de longe o aliado fiel que foi o PFL.

Os peemedebistas faltam a votações, deixam para dizer não na última hora e fazem debandada do ministério, quando sentem pouca ?força?.

Ney Suassuna, que era ministro, saiu dizendo:

– Mudei de idéia.

Raul Jungmann idem.

E toca FHC a dar uma força a Serra. ?Entraram noite adentro no palácio?, relatou a Globo, com o mote:

– Procura-se um vice.

No discurso, em meio a ministros obscuros, chamados ?técnicos?, FHC apelou:

– O meu antecessor trabalhou muito bem.

Falava de Itamar Franco, nova aposta para vice peemedebista. O mesmo Itamar que não sabe se fica ou sai do PMDB, se fica ou sai de Minas etc.

Paralelamente, o mesmo FHC disse que continua ?querendo? pefelistas.

Por enquanto, só tem Jaime Lerner. Este ao menos demonstra desejo de ser vice de Serra, o que anda raro.

Ontem na Jovem Pan, fez eco à pobreza metafórica do ?casamento à moda antiga? proposto pelo tucano aos peemedebistas. Disse que o PFL é que tem que voltar aos tucanos:

– É como no cinema. Se um encostar a mão, o outro tem que pegar logo.

Henry Kissinger deu entrevista à CNN e criticou Ariel Sharon. James Carville, o marqueteiro tornado âncora da CNN, comparou o ?desastre? ao Vietnã. Até o papa saiu falando contra, sempre na CNN.

Mas foi mesmo nas reportagens e imagens do canal americano, direto dos territórios palestinos, que se sentiu o quanto Sharon foi isolado.

Por exemplo, a CNN bateu o dia todo que havia civis e, mais significativamente, crianças na igreja da Natividade cercada em Belém.

De todo modo, foi na BBC que surgiu o que é provavelmente a razão da grita do Ocidente contra a operação. Um dos padres que tentou entrar em Belém e foi impedido declarou:

– Eles (soldados israelenses) tocaram os lugares santos.

03/04/02 – O que é terrorismo

– Por que vocês não qualificam Arafat como terrorista?

Foi uma das perguntas ouvidas pelo secretário de Estado, Colin Powell, em sua ronda nos telejornais americanos pela manhã, reproduzida à noite nos brasileiros.

A resposta foi que, como participou do processo de paz, Iasser Arafat não pode ser visto como os demais chefes de estado que mantêm terroristas em suas fronteiras.

O presidente George W. Bush foi na mesma linha, inesperadamente. Ele agora diz que Arafat não pode ser tratado como um mulá Omar, por exemplo, porque negociou a paz. Do porta-voz de Bush:

– A situação é, de fato, diferente.

Ele sublinhou que o líder palestino reconheceu o direito de Israel de existir, o que Osama bin Laden, entre outros, nunca fez. E arrematou o porta-voz, ao repórter:

– Entendo que você queira compará-los. Mas essa não é uma comparação que o presidente aceite.

Voltando às entrevistas de Colin Powell, uma declaração dele ao programa The Early Show, da CBS, talvez indique por que Arafat, de repente, tornou-se ?diferente?:

– Não serviria ao nosso propósito, agora, qualificá-lo como terrorista.

?Agora?, ou seja, neste início de semana, os preços do petróleo dispararam.

Não foi só o governo americano que mudou ou apresentou divisão, em suas declarações à TV. Sharon, com ironia extremista, defendeu a viagem de Arafat ao exterior, mas com ?passagem só de ida?, como destacou a CNN.

Não demorou e seu próprio ministro do Exterior, o trabalhista Shimon Peres, apareceu na rede BBC dizendo ser contra a imposição de exílio ao líder palestino.

Na mesma BBC, um negociador indicado pelos palestinos disse que Arafat não vai se exilar e voltou a falar:

– Eu acredito que Sharon quer nos matar.

O Jornal da Band reproduziu cenas da entrevista de Sharon, com destaque para um diálogo entre ele e um assessor militar -quando a coletiva já havia se encerrado. Primeiro cochichou o assessor:

– Nós precisamos expulsá-lo agora.

E Sharon:

– Eu sei.

Do Jornal Nacional ao Jornal da Noite, na Band, não tem noticiário que não retrate o horror de Ramallah.

Mas, antes ou depois das cenas da ?cidade fantasma?, surgem as daqui, tão parecidas -de uma granada que explode no Rio ou de uma escola de Guaianazes em que a professora foi assassinada.

02/04 – Silêncio

Iasser Arafat, segundo relatos não de todo confiáveis, já que a bateria do celular acabou e poucos chegam até seu refúgio, dizia ontem que ?existe uma conspiração de silêncio? contra ele.

Chega a soar estranho, vindo de quem bateu o telefone na cara de Cristiane Amanpour, da CNN, na sexta. Ele não gostou de duas perguntas, exigiu equilíbrio da CNN -que não favorecesse Ariel Sharon- e desligou ao vivo.

Agora Arafat questiona a ?conspiração de silêncio? -e não está errado.

Antes de Amanpour, semana passada, ele já havia falado à emissora Al Jazeera. Não mais. Desde a ocupação de Ramallah, os correspondentes do canal do Qatar estão sem sair do prédio, cercado por tanques e ocupado por soldados:

– Não nos deixam sair.

Não deixam chegar a Arafat. Nem Al Jazeera nem qualquer outro canal árabe.

A CNN conseguiu no fim de semana, mas para tanto seguiu os militantes pacifistas que avançaram em meio aos soldados atônitos.

Com direito à bandeira do MST, fartamente mostrada na CNN, parecia cena de ?Terra de Ninguém?, sátira de guerra que venceu o Oscar.

Mostrando ter aprendido a lição americana do Afeganistão, os soldados de Sharon não demoraram a acabar com a cobertura de TV.

Outras redes já sofreram com a censura a Arafat e seja lá o que mais não se quer mostrar -a começar das imagens de Ramallah destruída.

Uma equipe da CBS foi cercada por sete veículos militares e retirada da cidade. A agência Reuters, que fornece imagens de TV, informou ela mesma que foi expulsa de sua sucursal. De um jornalista brasileiro, de seu hotel em Ramallah, para o Jornal da Band:

– Ninguém pode sair.

O resultado é que George W. Bush, Sharon, seu ministro do Exterior, da Defesa etc. falam sozinhos -sem um Arafat para dizer que não e sem cenas de horror para atrapalhar.

– Preferia que estivesse com a bandeira brasileira.

A crítica do ministro Celso Lafer à bandeira do MST estendida por Arafat não poderia soar mais canhestra.

FHC havia reagido de imediato em favor de Arafat e contra a ocupação. Prometeu tropas para uma força de paz. Mas não, quem foi parar nos telejornais do mundo foi o MST -que um ministro seu, dias antes, chamou de ?terrorista?.

Não se troca de lado assim, tão rápido."