Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Não basta ser mulher

ELEIÇÕES 2002

Isabel Machado (*)

Há anos sonho em ver as mulheres no poder. Não como atitude feminista impensada, mas como alguém que acredita seriamente que a corrupção, este câncer que assola o Brasil e o mundo, seria menor se o país fosse dirigido por elas. Por todos os fatores culturais, por tudo o que a história mostra e ainda vai mostrar, pela forma de agir e pensar da alma feminina, em sua grande maioria.

Agora, aproximando-se as eleições, vejo as pesquisas apontando o crescimento da candidata do PFL à presidência, Roseana Sarney. Vejo a campanha mostrando um jingle bem vendável criado pelo publicitário Nizan Guanaes. Num dos filmes ela diz que fica brava quando ouve dizer que uma mulher não pode ser presidente do Brasil.

Pode sim, Roseana. Sabemos disso. Pode ter no poder Ana ou Juliana, como canta o seu jingle. E Marianas, Rosanas, Adrianas, Dianas, Elianas, Giovanas, Luanas, Suzanas, Veridianas…

"Eu tenho garra, tenho força e talento para arrumar essa nação/ com competência não importa se quem manda é Joana ou se é João/ tenho coragem e já estou acostumada a encarar o que vier/ Me chamo Ana, Juliana ou Roseana, eu sou a mulher", diz a música.

Mas é preciso mais do que ser apenas mulher. É preciso mais do que uma campanha bem feita na exploração da arte para a venda de um político. É preciso muito, muito mais.

E agora chegou a hora de mostrar sua competência e SEU caráter no almejo de um cargo tão elevado. Apareceram denúncias que precisam ser investigadas a fundo, tiradas a limpo, lavadas com creolina, para que tudo fique muito transparente. Agora… quando ainda dá tempo.

E o que vejo? Uma Roseana dizendo que "não deve e não teme", mas nitidamente apavorada. Se não deve e não teme, então que deixe a Polícia Federal apurar. Esclareça todas as dúvidas, elucide todos os pontos, dê a cara pra bater e saia sem hematomas. Esta seria a coerência dos fatos. Esta é a postura que desejamos em qualquer político, Candidato ou não às próximas eleições, homem ou mulher. Esta é a postura que sonhamos tirar da utopia.

Então fale, exponha tudo. Escancare as portas e janelas. Mostre que realmente nada é tão sujo e podre como a imprensa está divulgando. Pare de fazer picuinhas, de ameaçar revoltada como quem bate o pezinho por ter sido contrariada. Pare de dizer asneiras, como a de que está sendo perseguida por ser mulher. Pare de usar um preconceito real como escudo. Neste momento, não cabe.

E se o tombo for inevitável, lembremos da propaganda que não é política, mas propícia ao momento: "Não basta ser pai, tem que participar."

Não basta ser mulher. Tem que ser A mulher.

(*) Jornalista, radialista e poetisa. E-mail: <isabelmachado@bignet.com.br>