Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

O ponto dos jornalistas estrangeiros em Paris

CORRESPONDENTES

Leneide Duarte, de Paris

O presidente do Knesset (Parlamento israelense), Avrham Burg, foi lá. O conselheiro de Arafat para assuntos estratégicos, Hani Al Hassan, também foi. Em dezembro de 2001, Gorbachev foi falar de sua ONG, Green Cross International e do encontro Earth Dialogues, que se realizaria em Lyon, em fevereiro deste ano. O prefeito de Xangai, Xu Kuangdi, foi falar sobre sua cidade, assim como o prefeito de Moscou, Iuri Liukov. O primeiro-ministro da República Iugoslava falou sobre a reconstrução de seu país. Uma organização humanitária, que reúne israelenses e palestinos, foi denunciar a detenção por Israel de crianças palestinas, em total desrespeito às leis internacionais de proteção à infância. Membros da comunidade judia da França foram denunciar atos de agressão a judeus e suas comunidades em todo o país.

Paris é uma espécie de passagem obrigatória de chefes de Estado, políticos e dirigentes de organizações governamentais e não-governamentais do mundo inteiro. E o CAPE (Centre d?Accueil de la Presse Étrangère/Centro de Recepção da Imprensa Estrangeira) é onde os correspondentes vão encontrá-los ? uma espécie de ONU dos jornalistas. Lá podem ser ouvidas quase todas as línguas do mundo, faladas por correspondentes de rádios, jornais e televisões africanos, árabes, sul-americanos, russos, iugoslavos, ingleses, alemães, chineses, coreanos e israelenses, entre tantos.

A situação de guerra no Oriente Médio não impede que um jornalista judeu francês discuta amavelmente com seu colega sírio e com o correspondente argelino de um jornal de Portugal. O judeu anuncia sua próxima mudança definitiva para Israel e não perde a oportunidade de provocar seus colegas, fazendo piadas sobre a tradicional inimizade entre judeus e árabes. Acima dos ódios raciais, reina o corporativismo (no bom sentido da palavra) e a fraternidade entre "coleguinhas".

Eles vieram de todo o mundo para trabalhar em Paris e no CAPE sentem-se em casa. Criado no segundo semestre de 2000, quando a França presidiu a União Européia, por iniciativa do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério das Finanças, o CAPE funciona como um ponto de encontro e de debates onde são realizadas cerca de cinco entrevistas coletivas por semana. Depois de encerradas as entrevistas, os jornalistas que quiserem permanecer no Centro podem escrever ali mesmo suas matérias. Eles dispõem de 16 computadores com acesso à internet, além de máquinas de fax, scanners e duas cabines à prova de som, onde podem ser gravadas entrevistas de rádio. Uma sala com os principais jornais e revistas da Europa e do mundo serve também de restaurante e bar onde, entre um café e outro, fala-se sobre as fontes ou se programa um encontro de trabalho.

Carteira de jornalista

Os entrevistados que passam pelo CAPE tanto podem ser franceses como estrangeiros. Entre os franceses, já se submeteram ao crivo dos correspondentes estrangeiros em Paris Lionel Jospin e onze de seus ministros e secretários de Estado. E neste ano de eleições presidenciais, todos os candidatos irão se encontrar com a imprensa estrangeira de Paris ? que conta com cerca de 1.300 correspondentes.

Entre os estrangeiros, muitos chefes de Estado ou de governo já foram ao Centro falar com os correspondentes. Além deles, representantes de organismos como a Anistia Internacional, a Liga Internacional dos Direitos Humanos, a Transparência Internacional, a Associação das Mães da Praça de Maio, os Médicos sem Fronteira e o Human Rights Watch encontraram os jornalistas no CAPE.

"Paris precisava ter um centro como esse, que existe em todas as grandes cidades do mundo", explica o secretário-geral do CAPE, Christian Habonneau, funcionário do Ministério das Finanças e da Indústria. "O diretor do centro é um funcionário do Ministério das Relações Exteriores e o presidente do Conselho de Administração é um jornalista. O centro é financiado 90% com verbas públicas mas as associações de jornalistas têm total liberdade de convidar qualquer personalidade que lhes interessar", explica Habonneau. Ele acrescenta que o CAPE está aberto a todos os jornalistas, quer sejam ou não membros das 18 associações profissionais em atividade na França. "Apenas os jornalistas franceses não podem vir trabalhar aqui, um local exclusivo da imprensa estrangeira", explica.

Como os estrangeiros podem se sentir como peixes fora d?água ao desembarcarem em Paris, três adidos de imprensa trabalham no CAPE para facilitar os contatos entre os jornalistas e as instituições públicas. Além deles, uma funcionária do Quai d?Orsay (Ministério das Relações Exteriores francês) trabalha numa dependência do Centro para tratar dos processos para a concessão de carteira de jornalista estrangeiro, o que dará direito à moradia e ao trabalho.

Inaugurado no fim do ano passado, o sítio <www.capefrance.com> é atualizado regularmente e informa sobre todas as atividades do Centro.