Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Os flibusteiros

MÍDIA GAÚCHA

Gilmar Antonio Crestani (*)

Conta Plutarco, na biografia que escreveu de Alexandre Magno, que um dos generais deste, Clito, advertia a respeito da paulatina perda de respeito que o rei vinha demonstrando pelos seus conterrâneos, inclusive trocando a paternidade, de Felipe da Macedônia pelo deus egípcio Amon. Encerrou, com altivez, a advertência, citando um verso da peça Andrômaca, de Eurípedes: "Oh grandes deuses! Que mau costume na Grécia se introduz!" Alexandre, com a mesma espada com que desatara o nó górdio, atravessa o corpo de Clito, que morre.

Os maus costumes, tirando o ranço moral que encerra este tipo de análise, geralmente só se generalizam quando começam no andar de cima, para usar uma expressão cara a Elio Gaspari. O grau de legitimidade está diretamente ligado ao poder, crédito, prestígio de quem introduz a prática. A sabedoria popular traduz tudo isto com o dito "o exemplo vem de cima".

Ora, a lassidão com que o poder central trata os episódios de corrupção em seu governo endossa não só a naturalidade com que o clã Sarney encara o R$ 1,34 milhão em casa, como também a criação do duto cloacal que conduz dinheiro público para instituições privadas ineficientes.

A relação da mídia com as verbas públicas ainda merece um capítulo à parte. Na semana que passou estive vagando pelas belas paisagens de Bonito (MS). Na farmácia, fui brindado com um exemplar de O Informativo. Jornal de circulação restrita, a edição que me caiu às mãos acusava o alcaide municipal de ter cortado a verba que vinha sendo destinada ao referido jornal, correspondente a 40% do total de sua publicidade. Motivo, O Informativo estava informando. Isto é, dizendo coisas a respeito da administração de que o prefeito não gostou. Não sei de que partido é o atual prefeito, mas O Informativo trazia depoimento de vários ex-prefeitos mais uma vez candidatos, como quem diz que a verba sonegada agora poderá oscilar daquele para estes.

Só o espanto que certa mídia encena diante dos favorecimentos do BNDES à Globo é novo. Quanto aos mistérios desta relação promíscua, eu mesmo já havia comentado aqui neste Observatório <www.teste.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd010120021p.htm> a presença de um banner no sítio da Globo Cabo <http://globopar.globo.com/>, que lá continua tremulando.

O meu, o teu, o no$$o

Agora, convenhamos. Qual a diferença entre o coronel que entrega ao eleitor metade de uma cédula de R$ 5 antes e a outra parte somente após contabilizado o voto do detentor dos 50% da cédula, e o comportamento do BNDES com os donos da Globo Cabo? Agora, temperem a iguaria com uma pitada de pérola garimpada nas declarações de ACM a respeito dos bons momentos que passou no Palácio do Planalto: "Só não fizemos amor."

A bem da verdade, tais costumes na política nacional chegaram ao paroxismo com outro Fernando. Aquele que os donos da Globo Cabo "cabalizaram" para nos governar. Antes, já haviam azeitado a máquina com a nomeação de ACM para ministro das Comunicações, e Antônio Britto para porta-voz. A segunda parte da cédula foi entregue para completar os cinco anos do papai Sarney que, em troca, fez ACM distribuir concessões de rádio às pampas .

É sintomático que a relação das parcerias da Rede Globo inclua a RBS, no Sul, Sarney, no Maranhão, e ACM, na Bahia. E como quem sai aos seus não degenera, a prática coronelista entre elas é a mesma. A farsa de agora reúne personagens e atores de outras épocas. Como se vê, são sempre as mesmas moscas. E também o complemento continua cheirando mal.

As explicações dadas pelas personagens superam em criatividade o poltrão de novela. E quando se antepõe rede ao destino, pescam-se tubarões e piranhas. Como a RBS. O duto que conduz a grana federal ao padrão globo de venalidade é de mão dupla. E também não é de hoje. E se o poder central dispõe com naturalidade essa liberalidade toda, então, os demais na escala hierárquica da administração pública podem achar que tudo é permitido. Por isso os casos endêmicos de corrupção em todas as esferas. Ora, o exemplo vem de cima.

A RBS não tuge nem muge sobre o affaire BNDES versus Globo Cabo, como que admitindo meia gravidez. Mas desde que vendeu a Net à famiglia Marinho detém 12,2% da Globo Cabo, segundo a revista CartaCapital. Matéria de O Estado de S.Paulo, de 21/6/2000, mostra que, naquela época, eram 16,8%.

É claro também que não é só a incompetência administrativa que está levando os grupos de mídia à falência. O modelo que elas apoiaram e em que continuam apostando as fichas (não por acaso o assunto dengue saiu do ar, embora o mosquito continue) tem sua parcela de culpa. E só "o meu, o teu, o nosso dinheiro", no limite de tantas irresponsabilidades, as salvam.

Um jeito de ser da RBS

Analisando a partir do comportamento da RBS, os duzentos e vários milhões que a viúva estaria canalizando ao grupo não cobrem os serviços já prestados por seus veículos. Mas o cheiro que escapa deste esgoto é suficiente para dar conta de como são as relações privadas com o governo e vice-versa. Se não explicam totalmente, pelo menos esclarecem os reais motivos pelos quais a RBS e seus prepostos odeiam tanto a administração estadual gaúcha. É que após as mudanças de regras com relação ao destino das verbas públicas de publicidade, o torniquete estancou a sangria. Mas o azar da RBS é tanto que, mesmo com toda a torcida contra, enquanto a produção industrial caiu na maioria dos estados, no RS cresceu 1,1%. Isso que um dos principais parceiros comerciais do estado, em virtude da proximidade geográfica, é a pré-falida Argentina.

Durante o Fórum Social, um evento mundial com mais de 50 mil pessoas, que tomou conta das ruas de Porto Alegre, a RBS passou o tempo escondendo o evento atrás do biombo do Planeta Atlântida. Planeta Atlântida é um espetáculo ao estilo do Rock in Rio, restrito aos pré-adolescentes sulistas nas temporadas de verão no litoral gaúcho e em Florianópolis. Vale lembrar que em Florianópolis o Planeta havia sido construído em região de mangue, o que levou o jornal A Notícia, de Joinville, de 13/2/1998, a se perguntar: "Há dois Ibamas em Santa Catarina?". Além disso, um acidente já relatado neste Observatório <www.teste.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/fd210220013.htm>, ao estilo do que ocorreu com o Vasco do Eurico Miranda que a Globo bombardeou e a RBS ecoou, fez com que a afiliada global pagasse na Justiça o que extorquira do público. Tudo é minuciosamente divulgado por todo o conglomerado, envolvendo rádios, TVs, jornais, para benefício de um evento do grupo.

A tentativa da RBS, espelhada no exemplo da mãe Globo, que fez o quanto pôde para esconder as Diretas Já, não ofendeu somente gaúchos com alguma inteligência, mas causou espanto na imprensa nacional e internacional que participava do Fórum. A pergunta que não queria calar: que razões haveria para que uma empresa de comunicação fizesse tamanho esforço para esconder um evento daquela envergadura que estava acontecendo em sua própria sede?

Há quem prefira acreditar que a RBS faz de conta que as coisas não acontecem para que, pelo menos, não tenha que distorcer. Na sexta-feira, 22/3, todos os jornais da capital noticiaram as razões e a repercussão da greve convocada pela CUT. Adivinhem qual foi a manchete da Zero Hora? "Números da violência no Rio Grande do Sul têm atraso de meio ano." O leitor pode até achar plausível a manchete, mas há de concordar que, se já há um atraso de seis meses, poderia esperar por mais um dia para ser torpedeada, não? Porém, sempre há uma razão. Nos dias 1? e 2 de abril a Secretaria de Justiça e Segurança realiza o I Seminário Nacional de Estatística de Segurança Pública. É uma forma de desqualificar, de antemão, o desafeto José Paulo Bisol, patrocinador do evento. Mas este é o modo de ser da RBS. Como diria o Boris Casoy, isso é uma vergonha!

Visão desagradável

A vergonha fica ainda maior quando meia capa do jornal foi destinada a uma feira de decoração e arquitetura. Quer saber por quê? Leia o primeiro parágrafo da matéria: "A segunda edição do evento originado no caderno-revista de Zero Hora…". Taí, ó, a RBS pode até entender de decoração, mas de jornalismo…

No sábado, 23/3, a coluna da editora de política, Rosane de Oliveira, mandava, já no título, tomar "cuidado com as pesquisas". Foi mais enfática no corpo do texto: "Convém tomar cuidado com as pesquisas e não atribuir importância excessiva às suas ?revelações?." Na edição do dia seguinte, pesquisa local mostrava Tarso Genro, do PT, na frente de todos os demais, inclusive num eventual segundo turno. O leitor, que é menos paranóico que eu, tire suas próprias conclusões.

Uma nota difamatória pode ter o efeito de uma estocada pelas costas. E, na hora da preservação da espécie, mesmo que seja de dinossauros da incompetência privada, é que os maus costumes se propagam com desenvoltura, desde os tempos gregos. Mais raros são os Clitos tocando com o dedo na ferida e dispostos a absorverem em seus corpos as espadas afiadas da mídia.

Ao contrário das páginas laudatórias, ou dos silêncios repentinos do mosquito da dengue, faz-se necessário estar alerta para denunciar a nudez do rei, de que fala a historieta infantil "a roupa nova do rei", mais conhecida pelo epíteto "o rei está nu!", contada pelo fabulista Hans Christian Andersen. No caso presente, a corte toda está nua, e eu não estou gostando nada do que estou vendo.

(*) Funcionário público federal