Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Otavio Frias Filho

ELEIÇÕES 2002

"Enquanto é tempo", copyright Folha de S. Paulo, 14/03/02

"Que cada um tire suas conclusões. O diretor da Polícia Federal que executou a diligência na firma de Roseana Sarney é filiado ao PSDB, partido pelo qual pretende fazer carreira política. Não faz sentido pensar que o dinheiro apreendido tenha dormido na empresa por muito tempo, sinal de que os agentes sabiam o que iam encontrar.

O ambiente político está turvado de indícios de que a operação determinada pela Justiça contra a pré-candidata foi apenas a cobertura legal para manobra mais oculta e suspeita. A governadora foi alvo de uma rede de espionagem particular, denunciada de antemão, e que resultou num ?dossiê? destinado a prejudicá-la.

Em seguida veio a campanha na mídia governista, a martelar as imagens do dinheiro para chocar a audiência incauta e ingênua, que não tem como saber que as cédulas de Roseana equivalem a troco para a feira se comparadas às quantias que escorrem neste exato momento dos bancos para certa candidatura mais consistente e bem aparelhada.

Tudo isso ocorre quando uma das grandes emissoras de TV faz acerto gigantesco com o BNDES em torno da dívida que a vinha estrangulando. Isso acontece, ademais, sob o silêncio obsequioso de sua rival, ela mesma às voltas com problemas para cuja superação espera contar com a simpatia do governo federal.

Qualquer pessoa informada sabe que o eleitorado só decide nominalmente na democracia, aqui ou onde for. Na realidade, e nem poderia ser diferente, o sistema político oferece ao eleitor um cardápio pronto. Seu direito de opção é a seguir manietado por influências poderosas como o peso da máquina e sobretudo o poder do dinheiro ilícito.

Ninguém se elege para um cargo executivo sem lançar mão de contabilidade paralela e inconfessável. Foi o caso da própria campanha presidencial de Fernando Henrique, conforme documentada reportagem já publicada nesta Folha. Nada disso é novo nem causa escândalo, e mesmo as democracias mais avançadas sofrem do mesmo problema.

Diga-se de passagem que, em condições normais, o bombardeio contra a candidata pelo PFL faria parte do processo pelo qual, durante a campanha, os mais vulneráveis vão sendo alijados da disputa. Não dá para lamentar a derrocada de uma candidata que nunca apresentou propostas e que vivia da própria imagem virtual na TV.

Mas estamos diante de algo preocupante. Trata-se do mais impressionante rolo compressor já montado na política recente. Dinheiro, recursos políticos, mídia, pressões, ameaças, tudo é usado para favorecer o candidato oficial. Detalhe importante: está sendo organizada uma estrutura paralela ao governo e a seu partido, algo sem precedentes.

Salvo melhor juízo, Lula é um candidato que vai ao segundo turno fazer figuração e enfeitar a vitória do oponente, qualquer que seja. É grande a chance de a eleição ser definida, portanto, em primeiro turno. Ainda é tempo de evitar que tal definição seja um jogo de cartas marcadas para que reste algum grau de opção ao eleitor, esse desavisado."

 


"Conquistas democráticas", copyright Folha de S. Paulo

"16/03/02 –Ao ler o artigo ?Enquanto é tempo? (Opinião, pág. A2, 14/3), de Otavio Frias Filho, vemos com mais clareza que a nossa nação passa por um sério e delicado momento político. Mas, acreditando no que diz o autor, convido a OAB, a imprensa, os partidos políticos, os setores organizados da sociedade e todos os cidadãos de bem para, ?enquanto é tempo?, montarmos guarda e sermos zelosos com nossas conquistas democráticas, que foram alcançadas com tanta luta nestas últimas duas décadas. O alerta está dado. Cabe a nós a vigilância pela manutenção do nosso Estado democrático de Direito. O que legitima o poder é, justamente, o fato de este advir do povo. Eli Correia de Melo (São Paulo, SP)

A coluna do sr. Otavio Frias Filho de 14/3 entra pelo caminho fácil da versão conspiratória ao acusar veladamente a candidatura Serra de estar envolvida na ação da PF na empresa Lunus e diretamente de ser apoiada pela ?mídia governista? e de ser favorecida pelo ?mais impressionante rolo compressor já montado na política recente?. Será que todos os processos abertos pelos Ministérios Públicos em período recente foram também manipulados por algum grupo (em favor de quem?) -Chico Lopes, Lalau, dossiê Cayman, Eduardo Jorge, Paulo Maluf, Jader Barbalho, Antonio Carlos Magalhães, juízes no Rio, Sudam, Roseana/Murad etc.? Será que a análise de Luís Nassif na coluna ?Uma obra de arte política? (Dinheiro, pág. B3, 9/3), indicando que o que vem ocorrendo está relacionado ao fortalecimento das instituições -propiciado pelo atual governo-, não estaria mais próxima da realidade histórica? Por que será que os maiores adversários da candidatura Serra são exatamente duas das mais tradicionais oligarquias da política brasileira -os Sarney e ACM? Renato Pedrosa (Campinas, SP)

19/03/02 – Com poucas exceções -vide Luís Nassif-, a maioria dos jornalistas que escrevem na Folha -Clóvis Rossi, Otavio Frias Filho, Janio de Freitas, Carlos Heitor Cony e Elio Gaspari, para citar alguns- apresentam em seus artigos a forte convicção de que Roseana Sarney foi vítima da violência do Palácio do Planalto. Gostaria que esses senhores, em nome do jornalismo sério e educativo, apresentassem provas de suas opiniões, pois, em teoria, a intervenção na Lunus derivou de ordem judicial. Os senhores acima deveriam responder, entre outras, às seguintes perguntas: o Planalto ordenou aos promotores que incluíssem a Lunus no inquérito da Sudam? O Planalto ordenou que o juiz acatasse o pedido de busca e apreensão solicitado pelos promotores? O Planalto forçou a PF a realizar a ordem do juiz? O Planalto definiu a data da intervenção -sabendo que na Lunus se encontrava vultosa quantia em dinheiro? Até que essas perguntas sejam respondidas, fica a impressão de que se está fazendo torcida ideológica, e não jornalismo. Luigi Cardillo (São Paulo, SP)"