Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Panacéias e sicofantas

IMPRENSA GAÚCHA

Gilmar Antonio Crestani (*)

Panacéia e Sicofanta são duas personagens da peça Um Deus Chamado Dinheiro, do comediógrafo grego Aristófanes (455-375 a.C.). Personagens antigos, com sentido cada vez mais atuais, como Pluto, deus grego do dinheiro. O Aurélio traz, respectivamente, as seguintes definições:


Panacéia ? "[Do gr. panákeia, pelo lat. panacea.] S. f. 1. Remédio para todos os males. 2. Preparado que tem certas propriedades gerais. 3. Fig. Recurso sem nenhum valor empregado para remediar dificuldades. "

Sicofanta ? Do lat. sycophanta (< gr. sykophántes), por via semi-erudita. S. 2 g. 1. Denunciante de quem roubasse figos, entre os antigos gregos. 2. Pessoa mentirosa, difamadora, delatora, velhaca.


Enquanto Panacéia faz parte da mitologia, pois descende de Asclépio, o deus da Medicina, simbolizando a cura universal, ou o remédio para todos os males, o Sicofanta (sico = figo, fago = comer, de onde, por exemplo, os vocábulos eruditos fagocitose e fagomania) é uma criação de origem vulgar, cujo significado está por inteiro nas palavras da personagem Caríon, na peça citada:


"Mas ninguém pode comprar uma garantia contra as ?mordidas? de um sicofante."


Não é por acaso que estas personagens aparecem em companhia de Pluto, o deus grego do dinheiro, e da deusa Pobreza, que dispensa explicação. É bom lembrar que não é só a justiça que é cega, Pluto também era representado pelos poetas cômicos na figura de um homem cego, porque favorecia indistintamente os bons e os maus.

Corte rápido para os mitos atuais.

Mesmo a panacéia que virou a entrada de capital externo para salvar os coronéis da mídia atual não livrou as grandes redes da disputa pelas burras oficiais. Prova disso é o êxodo no seio da Abert, opondo as redes Band, Record e SBT à Rede Globo. Até o silêncio por parte da mídia a esse respeito dá o que pensar. Ou as migalhas que caem das mesas dessas grandes famiglias satisfazem os pequenos, ou temem conseqüências ainda piores se repercutirem as verdadeiras razões da cizânia.

Não estaria acontecendo o mesmo monopólio dos destinos das verbas federais no âmbito da mídia impressa? Aliás, a depender da RBS, nem sequer saberíamos da dissidência na Abert, muito menos as razões. Por quê? Seria pelo mesmo motivo que, em todo estes sete anos, não conseguiu produzir uma única matéria desabonadora ao governo federal? Contrário senso, fica mais fácil de entender por que voltou todo o bombardeio para o governo estadual. Chegou a patrocinar os holofotes de uma CPI contra o governo gaúcho.

Nesse sentido, viu na política de segurança pública gaúcha a panacéia para explicar todos os males de uma administração petista. Principalmente a unificação das polícias Civil e Militar. A "central de recados", na Zero Hora, como os sicofantas na Grécia antiga, chegou a ver na unificação o propósito de criar uma "milícia do PT". Um primeiro passo para a cubanização do Rio Grande, como queriam os macarthistas gaudérios. Aplicam-se ao caso as palavras de Alberto Dines, em artigo recente no Jornal do Brasil, "o lobby que trabalha contra a unificação das polícias é cúmplice de um crime político na medida em que fragiliza o poder público para enfrentar a violência".

Depois que o governo federal, pressionado pela onda de violência que toma conta do norte e do sul, condicionou a liberação de recursos para a segurança pública à unificação das forças policiais, a RBS simplesmente não tuge nem muge. Antes não cansava de martelar que estava tudo errado na política de segurança pública aqui no estado. Como num passe de mágica, a partir do momento em que o governo federal tomou como suas as mesmas iniciativas do governo gaúcho, os sicofantas passaram a vender a idéia de que os seqüestradores do Washington Olivetto tinham relação com o Fórum Social Mundial e, via de conseqüência, com a esquerda gaúcha.

O coronelismo eletrônico da RBS silenciou, mas tanto o Correio do Povo quanto O Sul e o Jornal do Comércio, todos de Porto Alegre, noticiaram que o número de homicídios diminuiu no 22,75% no segundo semestre de 2001, no estado, em comparação com o mesmo período de 2000. A RBS nem precisaria atribuir a diminuição de tais índices à atuação do desafeto, José Paulo Bisol, na Secretaria de Segurança. Embora não haja um estudo comprobatório, não há como não associar à informação de que o número de desempregados, na região metropolitana de Porto Alegre, também caiu de 16,6% para 14,9%, no mesmo período. Pode não ter relação, mas o leitor inteligente, por falta de outras informações, não deixará de notar a coincidência.

A RBS também cobra respeito à lei quando o MST ocupa fazendas improdutivas. Esquece de cobrar cumprimento quando a UDR impede a vistoria das propriedades pelos servidores do Incra, que apenas estão cumprindo uma lei, goste-se ou não dela. Também se perfila ao lado da Monsanto na defesa dos transgênicos, mas, excetuando a própria Monsanto, por razões óbvias, e o ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, do PPB, quem mais a acompanha na defesa dos transgênicos? (Os jornais acabam de informar num canto de página qualquer que a Conab apresentou rombo de 100 milhões de reais, que, somados aos 169 milhões de reais do ex-juiz Lalau, os 122 milhões de reais do DNER/Eliseu Padilha e aqueles do Barbalho, dariam para terminar com o Aedes aegypti!) Se a lei impede o cultivo, estariam os sicofantas interessados em tumultuar o estado de direito?! Diante destes fatos, faço minhas as palavras do editor da página Opinião ZH, do jornal Zero Hora: "A tolerância com a agressão à lei ? irmã gêmea da impunidade ? mostra novamente sua face em vários episódios gaúchos".

A justiça pode perder a visão ou ofuscar-se com holofotes e decepar um braço da democracia com sua espada. Ainda mais se governada pelo lado da balança mais pesado. Mas à imprensa cabe ficar de olho aberto nessa história da "verticalização das eleições". Chega de eufemismos. Uma hora é recall para esconder um "defeito" grave; noutra, "equalização de preços" como eufemismo para aumento. O Shopping Praia de Belas, de Porto Alegre, por exemplo, alerta para que o cliente não deixe de "validar" o tíquete do estacionamento. Nada mais que uma oferenda de R$ 2 a hora, em honra ao deus "Pluto". São as empresas que têm sistema de assessoria de imprensa mais competente que a própria imprensa ou é mais um milagre de "Pluto"?

Ao longo da história recente, após as Diretas Já, quando os sicofantas transformaram comícios gigantescos em comemoração (a Rede Globo "confundiu" o comício da Diretas com o aniversário da cidade de São Paulo), surge, sempre às vésperas de uma eleição, um casuísmo que rima com continuísmo. Em troca de concessões de rádio e televisão para os sicofantas de sempre, José Sarney permaneceu por mais um ano no Planalto. Depois, em 1989, quando Lula parecia ganhar as eleições seis meses antes da apuração, reduziram o mandato de cinco para quatro anos. Na seqüência, em 1994, foram novamente alterados os programas de TV, na tentativa de impedir Lula de mostrar as imagens externas das Caravanas. Só imagem fixa. Uma vez eleitos, não contentes com os mesmos quatro anos de mandato e não querendo se parecer com Sarney, chamaram Pluto para resolver o problema. Alguns deputados renunciaram por terem vendido o voto para a aprovação da reeleição. Quem comprou? Os sicofantas já estão providenciando precedentes para justificar a "verticalização".

Do Proer ao Aedes

Durante anos a Rádio Gaúcha deteve o monopólio jornalístico matutino. Só ela falava mal dos pol&iacuiacute;ticos. Não de todos, claro. Só daqueles com os quais não concordava. Agora a Rádio FM Cultura, da Fundação Piratini, uma autarquia estadual, mantém duas horas diárias de programação jornalística, o Café Cultura, das 6 às 8 da manhã. A única diferença é que não entrevista os mesmos que a RBS, nem esconde o que outros mostram. Por exemplo, o affaire Padilha & DNER é tabu na RBS. NA FM Cultura, não.

A briga na Abert, entre mamãe Rede Globo e Record, Band e SBT, também não é assunto na RBS. Na FM Cultura e na TVE, sim.

O jeito então foi o pessoal da RBS se informar através da Fundação Piratini. Assistem aos jornais da TVE e ouvem os programas da FM Cultura, e depois fazem a crítica. Zero Hora vem repercutindo. Basta entrar no sítio da RBS <www.clickrbs.com.br> e procurar por TVE. O leitor verificará por conta própria. Muitas críticas, nenhum elogio. Com tanta história, só agora passou a ser notada. Por quê?

Vou dar uma palhinha. No mesmo dia em que a chefe da sucursal da RBS em Brasília, Ana Amélia Lemos, que acompanhava a comitiva presidencial no périplo europeu, anunciava a "ousadia do prefeito de Guarani das Missões", Lauro Marmilicz, do PPB, na tentativa de beneficiar um correligionário de seu amigo Pratini de Moraes, o Jornal do Brasil mancheteava: "Caravana do ócio vai às compras". No corpo da matéria, "a ousadia": "Uma parte da comitiva oficial levada pelo presidente Fernando Henrique à Europa está com graves problemas de agenda. Não tem nada para fazer. O caso mais sério é o de Lauro Marmilicz, prefeito de Guarani das Missões, município de 9 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul". Talvez por isso também que a colunista da Zero Hora dedicou mais espaço às eleições do que à viagem em que flanava.

Enquanto de um lado as oferendas ao deus Pluto atendiam pelo nome de Proer, para evitar um "risco sistêmico" entre seus discípulos, de outro ressuscitava das cinzas a Fênix que haveria de roubar a cena do espetáculo em vôo rasante, o mosquito Aedes aegypti. E, na imprensa, os sicofantas fazem da verticalização a panacéia do momento.

(*) Funcionário público