Sunday, 25 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Pensar com os próprios pés

OFJOR CIÊNCIA 98

Carlos Vogt

 

Sobre as universidade públicas brasileiras já se disse de tudo. E nada! É como futebol. Ou – para reproduzir o que escreveu o Jornal do Brasil de 28/07/98 em matéria sobre a crise na UFRJ -, como o adágio “em casa onde falta pão, todo mundo opina e ninguém tem razão”.

Ou todos têm!

Parece piada de papagaio. Há sempre uma última. No futebol, sobre o final da Copa, a publicação argentina El Gráfico del Mundial, certamente apoiada no ícone francês do galo cantante (Chanteclair), classificou os jogadores da Seleção Brasileira também entre os bípedes emplumados, só que alocando-os no gênero feminino da espécie: onze galinhas, foram chamados, a propósito do vergonhoso desempenho do escrete nacional diante dos azuis, na última e decisiva partida do campeonato mundial de 1998. Reproduzida pela Veja (22/07/98, p.36) a manchete é a seguinte: “O galo esmagou onze galinhas”.

E para aumentar nossas penas, não é que agora o que se compara a galinhas são os docentes das universidades! E por coincidência, quiçá desígnio dos deuses do futebol, ou dos deuses do ensino público superior (se lá há, por que é que aqui não há de haver?), num artigo cujo título é nada mais nada menos que “O canto do galo”, de autoria do professor Rubem Alves, publicado na Folha de S. Paulo, de 21/07/98, p.3.

Eu já havia assistido, em outro momento, por ocasião da entrega do título de professor emérito da Unicamp ao ilustre e saudoso Paulo Freyre, cerimônia na qual o autor do artigo fez a saudação acadêmica ao homenageado, eu já havia presenciado, como dizia, o professor Rubem Alves lançar mão de imagens emplumadas, daquela feita evocando a parábola da águia, no céu alto distante, e das galinhas, ciscando cá na terra comezinhas.

Mas agora não! A parábola dinamizou-se e as galinhas, nas mãos de “um granjeiro que criava galinhas”, são privadas do ardor natural do amor procriativo do galo que canta, trepa nas femininas costas e produz ovos com pintos, em nome do cientificismo, da produtividade, da ambição lucrativa e da ideologia aberrante das quantificações desenfreadas.

Resumindo: ovo galado e com pinto = qualidade; ovo sem galo e sem pinto = quantidade.

Na granja das universidades, os docentes são as galinhas que, segundo o artigo, devem produzir ovos com qualidade e não quantidade de ovos desqualificados. Medir produtividade acadêmica por número de artigos, ensaios e livros produzidos, por atividades de pesquisa, ensino e extensão objetivamente quantificáveis é tocar a granja para produzir ovos podres. É preciso emprenhar as galinhas com o canto mágico do galo fornicador da qualidade.

Vê-se, assim, que o futebol e a universidade pública aproximam-se pela analogia das imagens, e, por elas, todos nos ligamos “nessa corrente pra frente, unidos num só coração” à mesma alegoria, com sinal invertido.

Para os argentinos, somos galinhas e o galo nos ferra: a quantidade conta e os 3 x 0 se impõem; para o articulista, somos galinhas, o galo canta e nos ferra, o ovo é galado. O pinto nasce e a qualidade…

Apesar do esforço parabólico do artigo, a verdade é que tudo continua como dantes no quartel de abrantes. De nada vale, ou muito pouco, essa história de ficar contrapondo qualidade e quantidade na avaliação da vida acadêmica nacional. Melhor seria não fazer eco a esses “opinionismos” e trabalhar na mídia não só a necessidade urgente dessa avaliação como também os seus parâmetros de objetividade e de interesse social efetivo.

Não sou daqueles que entram no carro e só olham para frente; ao dirigir, olho o retrovisor tanto quanto o pára-brisa. Há muito o que fazer, em se tratando do sistema universitário brasileiro, mas muito já se fez e longas distâncias foram percorridas. É preciso olhar também para elas, não fosse senão para resgatá-las na memória e usá-las como apoio para avanços futuros.

Pelo retrovisor, contudo, o que se vê também são acúmulos de terras arrasadas. Como aquelas esterilizadas na inteligência acadêmica nacional pela tradição conservadora e perversa do bacharelismo que, quando menos se espera, mostra os dentes e a voracidade tacanha.

A notícia publicada em “Breves” (O Estado de S. Paulo, de 24/07/98, p.A-10) sobre o fechamento da Universidade del Sur (Unisur), de Cochabamba, na Bolívia, pelo Ministério da Educação desse país vizinho e a declaração do ministro de que a “Unisur vendia certificados a pessoas que não estavam inscritas, especialmente brasileiros em cursos de Medicina e Odontologia” é, em sua brevidade, eloqüente o bastante para atestar apego arraigado de nossa cultura aos títulos e diplomas contra a competência profissional, a responsabilidade ética e social a que toda profissão deve obediência.

Mudar essa cultura e os encaixes cartoriais de sua articulação é também tarefa premente. O jornalismo investigativo, que muitas vezes acerta, outras erra, não deve eximir-se, nesse caso, de um trabalho mais profundo e sistemático que poderá revelar o quanto os cartéis e o cartorialismo do ensino superior são atuantes no Brasil e o quanto urgente, entre outras coisas, é dar ao sistema privado uma estrutura jurídico-institucional de fundação.

Ainda pelo retrovisor, entre as ruínas que o progresso abandona, vê-se que a crise das universidades federais, longe de solucionar-se, deixou seqüelas gravíssimas, das quais os sintomas mais evidentes são aqueles que aquecem a temperatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a propósito da sucessão da reitoria.

Os jornais televisivos mostraram, no dia mesmo dos acontecimentos (27/07/98), cenas de descompostura institucional explícita. O reitor escolhido e nomeado pelo MEC, professor José Henrique Vilhena, tentou tomar posse real de seu trabalho, entrando em seu gabinete logo pela manhã. De lá foi expulso no meio da tarde pelos adeptos do primeiro colocado na lista da comunidade, professor Aloísio Teixeira, tendo sido seu carro, no momento em que saía, objeto de agressões que resultaram em vidros quebrados e outros danos, inclusive, é claro, os de natureza moral sofridos pelo motorista, e não pela máquina.

A situação na UFRJ caracteriza um verdadeiro impasse do qual as partes envolvidas têm de ter a coragem de recuar, para, desfazendo o nó formal que o ata, permitir a nova formalidade que o desatará em plena institucionalidade.

De fato, a consulta para a escolha do reitor, como foi realizada na UFRJ, fez-se ainda nos moldes da universalidade dos votos, sem que a instituição obedecesse às novas normas de ponderação já vigentes no país e que mandam dar 70% de peso ao voto docente.

Ao aceitar a lista que lhe foi encaminhada e ao escolher dessa lista um dos nomes que a integravam, pouco importando, no caso, se o primeiro, ou o segundo, ou o terceiro, o MEC aceitou, no mínimo, uma irregularidade de procedimento, e dentro dessa irregularidade cometeu a contravenção da praxe, que mandaria escolher o primeiro colocado.

Chocam-se (não de ovos) aqueles que invocam e evocam a democracia para justificar o universalismo de suas preferências e, de outro lado, aqueles que, com razões históricas, temem o corporativismo sindicalista de grave memória dos tempos do reitor Horácio Macedo.

No meio, a instituição em frangalhos absorve os golpes da disputa. Até quando? Ao governo cabe a sábia decisão de propor um recuo dessa situação de embate; negociar o ajuste da instituição às novas regras de escolha do reitor; propor uma nova consulta e, então, da lista que dela resultar, pelos caminhos da institucionalidade, fazer a escolha, dentro das prerrogativas que lhe cabem.

À imprensa nacional cabe esclarecer essa situação de impasse e fazer a “campanha” das alternativas de soluções institucionais, e não apenas registrar o espetáculo, muitas vezes deprimente, da disputa em seus lances mais teatrais.

A propalada reforma do ensino superior, tantas vezes reclamada pela imprensa, passa pela solução urgente desse tipo de problema, que só na aparência e enganosamente pode ser tratado como questão regional. Do contrário é trapalhada, barafunda, baralhada.

O papel da imprensa é ajudar a desbastar o cipoal de ruídos em torno do tema das universidades públicas para que possamos, sociedade e atores sociais envolvidos, encontrar, com pragmatismo ético e social, o caminho das reformas e da autonomia efetiva do sistema.

Mas voltando ao canto do galo e às suas galinhas, é claro que, como outros jornais, a Folha de S. Paulo está protegida das opiniões que abriga pelas letrinhas miúdas do que vem escrito logo ao lado de “Tendências/Debates”, onde o artigo foi publicado. Não se trata, pois, de fazer crítica ao jornal pela filosofia-bípede-emplumada do autor do artigo, nem pelo artigo, e tampouco pela moralidade que carrega e acarreta.

Trata-se, pelo exemplo, de refletir sobre os critérios que os jornais adotam para a seleção das “opiniões” que publicam e, pela oportunidade de mostrar o saco de gatos opinativo em que vai se constituindo, cada vez mais, a questão do ensino público superior no país.