Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Perigo de extinção

NOTICIÁRIOS DE TV

Por duas décadas, eles reinaram incólumes. Trio de ouro do jornalismo televisivo americano, os âncoras Dan Rather, Peter Jennings e Tom Brokaw sobreviveram a fusões de companhias, à queda de audiência e à competição com TV a cabo e internet. Mas agora, sem estardalhaço, a situação pode estar mudando. Numa época em que Ted Koppel, veterano apresentador do Nightline, é considerado dispensável pela ABC (que pensa em trocá-lo pelo showman David Letterman), os tradicionais noticiários noturnos parecem ter perdido a invulnerabilidade.

O problema, aponta Howard Kurtz [The Washington Post, 10/3/02], é que Rather, Jennings e Brokaw já têm, respectivamente, 70, 64 e 62 anos, e os programas podem não se sustentar sem seu prestígio. "Quando eles se aposentarem, será uma ótima oportunidade para as corporações decidirem que os noticiários não valem mais a pena", prevê Ken Bode, ex-correspondente da NBC.

Se isto acontecer, observa Kurtz, será a maior mudança no consumo de notícias na história da televisão, em parte causada pelo fracasso destes programas em atrair telespectadores abaixo de 50 anos. É o mesmo problema que atormenta Nightline: um público envelhecido que está morrendo aos poucos.

Mas muitos não acreditam nesta previsão: mesmo que a audiência tenha encolhido em um terço, os noticiários das três emissoras juntos ainda atraem 23 milhões de pessoas. Passar o trono a novos herdeiros, no entanto, não será nada fácil. Aaron Brown, âncora da CNN, lembra que os sucessores não têm grande exposição, já que o público foi fragmentado. Enquanto os mais velhos estão acostumados aos programas das 18h30, muitos jovens não adquiriram tal hábito e têm mais opções de mídia: um número cada vez maior prefere obter informações online.

A diferença entre o jornalismo das emissoras abertas e a cabo é destacada por Roger Ailes, presidente da Fox News: nos canais a cabo, os apresentadores são mais informais, e não estrelas que recebem salários na casa dos US$ 7 milhões, embora estes noticiários ainda precisem conquistar a confiança do público. Já Brown ressalta que as redes abertas têm um grande orçamento a seu favor: "O que o World News Tonight gasta numa matéria é consideravelmente maior do que a CNN investe, não tanto na reportagem mas na produção".

Quanto mais a audiência diminui mais as redes desmantelam os departamentos de jornalismo. Sucursais estrangeiras foram fechadas e repórteres que cobriam órgãos como o Departamento de Estado e de Justiça, transferidos. Bob Schieffer, correspondente veterano da CBS, lembra que quando entrou na sucursal de Washington, em 1969, contava com 26 correspondentes. Hoje, são apenas 10. Todos estão conscientes da onipresença dos canais a cabo. "Cabe a nós contextualizar ou dar aos telespectadores algo que eles não teriam numa cobertura ao vivo. Às vezes temos sucesso, às vezes não."