Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

Por que 1968 foi mais badalado do que 1964

OS 30 ANOS DO AI-5 um golpe dentro do golpe foram muito bem relembrados pela mídia. O retrospecto foi esmerado. Incomparavelmente melhor do que as comemorações dos 30 anos do primeiro ato dos Anos de Chumbo – a quartelada que derrubou Jango Goulart.

Qual a razão da diferença? Por que este empenho num episódio que, cronologicamente, é secundário com relação ao outro?

Nos dois episódios a imprensa foi protagonista. Em 1964, excetuada a Ultima Hora, a grande imprensa estava na vanguarda do movimento militar. Foi vilã. Em 1968, vítima. A primeira vítima. Sem uma imprensa amordaçada e intimidada seria impossível prosseguir na escalada de violências.

É preciso que se diga que a censura exerceu-se com diferentes intensidades, em diferentes períodos, nos diversos veículos. Não foi linear. A primeira fase foi manu militari (sobretudo no Rio, ainda câmara de eco do país). Depois veio um vergonhoso período de auto-censura (imposto em diferentes momentos nos diferentes veículos) onde a exceção foi a imprensa alternativa, os nanicos. A história detalhada do vai-e-vem do processo censóreo ainda precisa ser relatada. O livro de Paolo Marconi (A censura política na imprensa brasileira, 1968-1978, Global Editora, 1980) é um excelente ponto de partida. Falta minuciar muita coisa, inclusive o desempenho da imprensa ao longo da “distensão, lenta, gradual e segura”.

Falta contar com detalhes o que aconteceu depois da greve dos jornalistas de 1979. E o que esta significou como alavanca para o primeiro movimento patronal concatenado dentro da imprensa brasileira a criação da ANJ (alguns detalhes ao longo do livro de Bernardo Kucinsky, A Síndrome da Antena Parabólica).

A lembrança de 1968, trinta anos depois, demonstrou a esquecida capacidade da imprensa brasileira de buscar a densidade, o contexto, a investigação. Num passe de mágica, voltamos a 68 ou 78. E não apenas através da remissão histórica, mas através da disposição de assumir as mesmas atitudes jornalísticas e espirituais de então.

Há críticos de mídia que condenam elogios, para eles só no cacete. Bobagem. O ato de criticar impõe a necessidade de estabelecer padrões de excelência. No finzinho do ano em que a mídia desnudou-se e escancarou suas fragilidades, uma pequena e significativa amostra de que nem tudo foi para o brejo.

Os melhores desempenhos foram dos semanários Época e Veja. O primeiro optou pela reconstituição histórica, cuidada, relevante. Com o complemento sonoro na Internet: a gravação da sessão do Conselho de Segurança Nacional que aprovou o AI-5. (Ver no Caderno do Leitor carta de Fábio Altman.)

Veja, felizmente esquecida de algumas travessuras pouco dignas, fez um esplêndido trabalho de investigação trazendo de volta todo o horror das câmaras de tortura. Os jornais estenderam-se em edições caprichadas. Mesmo aqueles, como O Globo e a Folha, poupados pela censura.

Mais uma vez ficou provado que lembrar faz bem.

 

ALÉM DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL dos Direitos Humanos, que acaba de completar meio século de existência, existem dois novos diplomas em vigor: o Convênio Internacional sobre Direitos Políticos e Civis e o Convênio Internacional sobre Direitos Econômicos, Políticos e Culturais.

No conjunto, os três documentos garantem basicamente 34 direitos. Desses direitos, pelo menos dois defendem o cidadão da mídia. Um terceiro defende os direitos dos jornalistas diante do poder das empresas de mídia. Os três fazem parte da Declaração de Direitos Humanos e do Convênio de Direitos Civis e Políticos:

* Presunção de inocência

* Proteção da privacidade, família e lar

* Liberdade de pensamento e consciência.

(Fonte: caderno especial, The Economist, 5/12/98, pg. 9)

 

AS GRAVAÇÕES DE CONVERSAS TELEFÔNICAS no âmbito da Assembléia Legislativa fluminense sobre a privatização da Cedae servem para estabelecer diferenças com o caso das fitas do BNDES. E balizar o comportamento dos jornalistas diante de um processo de obtenção de informações que, parece, tende a tornar-se freqüente:

* As gravações foram realizadas por deputados para denunciar ilícitos cometidos por colegas.

* A divulgação das fitas foi feita em plenário pelos próprios grampeadores que estavam sendo aliciados para vender seus votos.

* A imprensa não foi usada por grupos ou facções para acusar ou defender. Apenas reportou o que foi denunciado em plenário.

* Não houve invasão de privacidade. As conversas foram provocadas por uma das partes, os denunciantes.

 

O JORNALISTA AMERICANO ERIC FORD, 27 anos, foi condenado por um juiz da Califórnia porque gravou conversas telefônicas entre a atriz Nicole Kidman e o ator Tom Cruise. Depois vendeu a gravação para um tablóide inglês. O crime: “violação de comunicação”. Pena: 15 anos de prisão.

 

VEJA, TÃO ZELOSA EM SEPARAR publicidade da redação, acabou cometendo uma grosseira infração. Na edição 1574 publicou um vistoso encarte da Joalheria Dryzun. Na mesma edição, rubrica “Estilo”, publicou matéria jornalística sob o título “Ai, que tentação” com as novidades em matéria de gemas e jóias. As fotos repetiam as que haviam aparecido na matéria paga. E no texto da matéria jornalística as informações diziam respeito apenas ao joalheiro que pagou o encarte. Não vale.

 

OS TRÊS MAIS IMPORTANTES quality papers americanos voltaram a apresentar queda na venda avulsa. Em março tiveram a alegria de constatar o primeiro aumento das vendas em anos. Mas, no relatório que fechou em setembro, voltou a tendência de queda. O The New York Times caiu 0,7%. O Washington Post perdeu 1,8%. Mas o Wall Street Journal teve o maior declínio, 2%. Importante registrar que este jornal de negócios, conservador, procurou sempre adotar posturas compatíveis com o padrão dos seus leitores. A partir de janeiro, no entanto, foi dos mais veementes na cruzada para derrubar Clinton (informações publicadas no Estadão de 4/11, pg. A-12.)

 

NO INÍCIO DE NOVEMBRO, o telejornalismo de Nova York ferveu com a notícia de que o cineasta Oliver Stone fora contratado pela alta direção da rede ABC para rodar um “especial” sobre a queda do Boeing da TWA, vôo 800. Como se sabe, as causas do acidente ainda não foram esclarecidas.

Houve um grande mal-estar no meio jornalístico porque o famoso cineasta gosta de trabalhar ficcionalmente histórias verídicas com recursos que parecem jornalísticos (caso de JFK, onde avança com uma nova hipótese de conspiração para abafar o assassinato do presidente Kennedy). Temia-se que, ao usar técnicas de reportagem para uma hipótese ficcional, Stone transferisse para o departamento jornalístico a responsabilidade de suas conclusões.

A celeuma foi grande. Nos primeiros dias de dezembro a direção da ABC finalmente anunciou que descontinuaria o projeto, para alívio dos jornalistas. Quem bufou foi a esquerda americana: The Nation, em sua edição de 30/11, vai em cima dos jornalistas, acusando-os de corporativismo e complacência com os grupos de pressão. A tese de Stone é que o Boeing foi abatido por um míssil da Marinha disparado por engano. Aliás, Stone apenas repete uma hipótese aventada em 1995 por Pierre Salinger, ex-jornalista, ex-porta-voz de Kennedy, agora relações públicas de uma empresa de seguros.

No Brasil, quando a Globo tenta repetir a “fórmula Stone” no Fantástico, quem reclama são os setores mais progressistas, em benefício dos jornalistas. Nossas vanguardas são melhores do que as americanas.

 

COM O INTERVALO DE POUCAS SEMANAS, a ouvidora da Folha espinafrou duas vezes – e com grande destaque – um mesmo colunista: Arnaldo Jabor. Jamais expôs publicamente qualquer outro colaborador a tal tipo de vexame. A Folha comete faltas graves, certamente identificadas pela ouvidora, mas que não são trazidas para a sua coluna semanal. A insistência do jornal em querer converter uma “socialite” em jornalista chamando na primeira página suas pífias entrevistas é apenas uma delas.

A ouvidora tem razão nos dois casos. Mas perde-a diante da humilhação pública a que submeteu um profissional. Se a falta é grave, demite-se.

 

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