Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Por que os jornalistas morrem?

COBERTURA DE GUERRA

Cristiana Mesquita (*)

A morte do jornalista Daniel Pearl desencadeou uma discussão importante sobre o comportamento da imprensa nos conflitos recentes. Por “recentes” estou me referindo da Guerra do Vietnam para cá, já que não podemos falar da Segunda Guerra Mundial porque os tempos eram outros e o jornalismo era outro.

Foi bom ler o artigo Journalists are now targets ? but who is to blame for this? (Jornalistas agora são alvos ? mas de quem é a culpa?), de Robert Fisk, no jornal The Independent [23/2/02, ver remissão abaixo]. Todo mundo leu e comentou o artigo do jornalista inglês que faz pertinentes criticas aos colegas que chegam ao absurdo de usar uniformes e até a andar armados. Não vou me dar o trabalho de comentar o uso de armas por jornalistas porque isso beira a loucura e, graças a Deus, é raro. No campo, nós chamamos estes jornalistas fantasiados de “cowboys” e fugimos deles como o diabo foge da cruz, porque até ficar por perto é um perigo.

Admito que, às vezes, eu mesma adoto parte da indumentária local por motivos práticos. Se você está dirigindo por uma estrada e mal pode respirar por causa da poeira, não vejo nada de mais em comprar um lenço no bazar local para cobrir o rosto, desde que esse lenço não nos identifique com um grupo ou facção. Mas, como o próprio Fisk escreveu, não há como disfarçar o fato de que somos estrangeiros, ocidentais, infiéis etc. Além disso, somos obrigados pelas nossas empresas (por exigência das companhias de seguro) a usar coletes à prova de bala e capacetes. Esses adereços já nos transformam numa espécie de exército à parte e faz com que nós nos destaquemos da multidão.

Muitos jornalistas, eu inclusive, só usam essa parafernália quando absolutamente necessário ? como numa incursão a uma frente de batalha ou em deslocamentos por estradas perigosas, que é onde morre a maioria dos jornalistas. Com coletes, capacetes, canivetes suíços e um bom café da manhã estamos, muitas vezes, mais bem equipados do que a população e a maioria dos exércitos locais.

Em Sarajevo, por exemplo, confesso que tinha vergonha de andar com toda essa proteção, enquanto a população civil era alvo de franco-atiradores em cada esquina. O problema é que fica tão bonitinho na televisão… Todo repórter de vídeo sonha com aquela passagem ao lado de um tanque, paramentado com colete e capacete azul, mostrando ao mundo como ele/ela é corajoso e como aquele lugar é perigoso.

Mas, cá entre nos, vamos falar sério. O que está matando jornalistas não é a indumentária do repórter, mas a maneira de reportar.

Engajamento

Já faz algum tempo que venho observando com horror a mudança de “estilo” no jornalismo de uma maneira geral e no jornalismo de guerra em particular. Só para citar alguns exemplos: vimos a CNN entrar num acordo com Saddam Hussein para permanecer em Bagdá quando todas as outras redes de televisão estavam sendo expulsas do país. Só Deus sabe o que a CNN ofereceu em troca. Vimos a famosa jornalista Christianne Amampour, também da CNN, cobrar do presidente Clinton, numa entrevista ao vivo, a imediata intervenção do exército americano na Bósnia. O engajamento da Christianne, que no meu livrinho é mau jornalismo, foi decisivo para os acontecimentos da guerra e rendeu à repórter um contrato de um milhão de dólares por ano.

Outro famoso repórter da BBC ? John Simpson ? fez questão de se adiantar às tropas da Aliança do Norte e, ao entrar na capital do Afeganistão, anunciou, ao vivo e em cores, que a BBC estava liberando Cabul.

Ora, ninguém tem sangue de barata, e muitas vezes não podemos evitar chorar e sofrer com o desespero da vítimas de uma guerra. E ainda bem que é assim, porque no dia em que não sentirmos nada devemos parar tudo e procurar uma terapia urgente. Mas, na hora de reportar a história, temos que ao menos tentar colocar os sentimentos de lado e deixar que os fatos falem por si.

Mais do que qualquer outra coisa foi a busca de neutralidade e imparcialidade que nos manteve vivos. Mas parece que esses são conceitos antiquados e incompatíveis com o jornalismo moderno e participativo de hoje em dia.

Redes mundiais

Precisamos lembrar que, com as redes mundiais e a internet, tudo o que fazemos e dizemos pode ser visto e ouvido por todos, inclusive por aqueles de quem estamos tratando. Osama bin Laden, por exemplo, contava com uma complexa rede de comunicação via internet e tinha acesso a parabólicas que permitiam a ele acompanhar todo o noticiário internacional. Portanto, ele poderia ter desafetos neste ou naquele repórter.

Já houve situações em que escapei da morte simplesmente por provar que não trabalhava para a BBC ou para a CNN. Isso é inevitável, mas faz com que o nosso trabalho fique muito mais perigoso.

Ainda se discute se Daniel Pearl foi morto porque era americano ou judeu ou correspondente do Wall Street Journal. Artigo publicado neste Observatório insiste em que ele foi morto por ser judeu [ver remissão abaixo]. Não concordo. Se fossem matar todos os judeus da imprensa não sairia jornal no dia seguinte. Penso que Pearl morreu, antes de tudo, porque era americano. Se fosse inglês, também serviria. É claro que se além de inglês ou americano o sujeito for judeu é melhor ainda. Com o envolvimento desses países nas guerras, as empresas estão cada vez mais optando por jornalistas de nacionalidades neutras, como australianos, sul-africanos, neozelandeses e até mesmo brasileiros.

A morte de um cidadão inglês ou americano é uma valiosa arma de propaganda. Quantos jornais do mundo colocariam na primeira pagina o título “Jornalista brasileira é executada por extremistas no Paquistão”?

Crise de identidade

Vamos falar sério novamente. Em setembro do ano passado, o líder da Aliança do Norte, comandante Masoud, foi assassinado no Afeganistão por militantes do Talibã que se passavam por uma equipe de televisão que ele recebia para uma entrevista. Não me lembro bem dos detalhes, mas houve também o caso da polícia holandesa que se disfarçou de equipe de TV para obter acesso a um local onde algumas pessoas estavam sendo mantidas como reféns. Uma vez lá dentro, as câmeras se transformaram em armas e os seqüestradores foram mortos.

Aqui mesmo, no Brasil, lembro de um homem que apontava o revólver para o pescoço de uma jovem quando um cinegrafista se aproximou e conseguiu controlar o criminoso. Depois ficamos sabendo que o cinegrafista era, na verdade, um policial que pegou a câmera emprestada para se aproximar do bandido.

O caso da Holanda causou discussão nos órgãos de imprensa de lá, que protestaram contra a atitude da policia, mas aqui ninguém falou nada. Deve ser porque estamos acostumados a essa confusão de papéis. A todo instante vemos jornalistas com câmeras escondidas fazendo trabalho de polícia… Portanto, não deve ser nada de mais ver um policial se passar por jornalista.

Estamos vivendo uma crise de identidade. Precisamos rever os princípios básicos da nossa profissão e nos agarrar a eles como o náufrago segura a tábua de salvação. Se quisermos nos engajar em alguma causa devemos trabalhar para uma ONG. Se quisermos ficar famosos devemos fazer novelas. Se quisermos pegar o bandido ou entrar em combate devemos trabalhar na polícia ou nos alistar no exército. Mas se queremos ser jornalistas e continuar vivos devemos simplesmente reportar.

(*) Jornalista; cobriu a guerra da Bósnia
e, mais recentemente, a do Afeganistão


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