Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Precisamos de fotos chocantes?

FOTO DE GUERRA

Manoel Fernandes Neto (*)

Uma foto da AFP com um suposto palestino sendo esfaqueado, com os pés amarrados e suspensos, foi a escolha de gosto duvidoso dos editores das homes de grandes portais como JB e UOL, além de ocupar em tamanho grande as capas dos diários Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil, nos dias 12 e 13 de março.

A imagem é forte e chocante. Mostra a que ponto chegaram a humanidade
e seus meios de comunicação. Aos homens, todos os
créditos da falta de diálogo, pela incompreensão
e pela lei do olho por olho. Aos meios de comunicação,
a sanha sangrenta em disseminar essa dor, pois, se não bastasse
a publicação da foto, sem nenhuma relevância
jornalística além da ilustração do conflito,
ainda permite ao usuário, no caso da web, enviá-la
a um "amigo".

Usar uma foto sangrenta para atrair audiência é artifício ultrapassado e falta de criatividade, por mais que apelos editoriais tenham sido usados como justificativa para a edição do dia (dedicada a mais um capítulo da via crúcis política da candidata Roseana Sarney).

Vingou o trash: a exploração e a motivação de lados obscuros da mente humana, tão acostumada e paralisada por estes pequenos sacrilégios. A maioria, decerto por falta de conscientização, acaba enviando a sua lista, quando estes e-mails deveriam ter o teor da indignação e serem direcionados aos próprios meios.

O conflito no Oriente Médio há muito tempo está desprovido de elementos que o transformem em notícia atrativa. O tédio, o sangue e as versões oficiais imperam. Os grandes meios de comunicação, com raras exceções, resumem-se a registrar com alarde a chacina do dia e o placar macabro de mortes de ambos os lados. Algo tão "natural" como resultados do campeonato de futebol nacional.

Na Revista da Folha de domingo, o jornalista Ricardo Bonalume Neto assina artigo intitulado "As imagens são armas insidiosas", onde discute o poder da imagem. Em um trecho, diz o articulista: "Desde cedo o poder das imagens foi compreendido pelos donos do poder. Palácios da Antigüidade costumavam ter paredes pintadas com cenas de batalhas, de prisioneiros escravizados e decapitados, que enfatizavam o poderio do dono do palácio."

Judy Rodgers, do Imagens e Vozes, evolui a discussão em entrevista ao Mídia da Paz: "Embora uma imagem negativa possa ser um poderoso agente de transformação, um fluxo de imagens negativas tem o efeito oposto, de entorpecer quem vê e nos fazer recuar em medo e desamparo."

Esgota-se o momento dos produtores de comunicação procurarem outros ângulos na cobertura da questão palestina (será que não existia outra foto para ilustrar a editoria internacional?). Se não positivos pela gravidade da situação, que pelo menos mantenham a chama da esperança em dias melhores. Mas isso é "difícil" na cobertura do conflito "diretamente de Londres", ou entre editores preocupados e pressionados a aumentar o "fluxo de acessos e vendas" com imagens cada vez mais chocantes.

A grande mídia, mesmo com todas as dificuldades inerentes à questão, deve evitar a armadilha da audiência e procurar ângulos humanitários ou imagens que reforcem que é possível acreditar num futuro melhor. Pois nada está perdido! Ou acreditamos nisso ou desistimos de viver.

(*) Jornalista, editor do site Mídia da Paz <www.midiadapaz.org/>