Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Pressa crônica nas pautas

MÍDIA & MEIO AMBIENTE

Cláudio B. Guerra (*)

A informação e o conhecimento são elementos fundamentais na sociedade globalizada, tecnológica e competitiva de hoje. Dentro da dinâmica social, no longo processo de construção da cidadania ou na mudança do cenário ambiental de uma determinada região, cada dia mais a informação e o conhecimento desempenham papel primordial. A razão é simples: "Ninguém defende aquilo que desconhece."

Alguns acontecimentos no passado recente evidenciam que o público quer e precisa de mais informação ambiental. Como exemplos citamos as tentativas de mudanças do Código Florestal, os derramamentos de óleo da Petrobrás na Baia de Guanabara e no Paraná, a má qualidade do ar e o racionamento de água na cidade de São Paulo, o suborno aos fiscais do Ibama na Amazônia. Estes mostram claramente como as informações disseminadas por fontes oficiais tentaram, num primeiro momento, "minimizar" a extensão do danos ambientais, mas foram prontamente rechaçadas pela opinião pública. Aqui é preciso ressaltar o papel desempenhado pela imprensa no caso Petrobrás: investigou e trouxe à tona a verdade dos fatos.

As repercussões negativas de uma "conduta suja" em relação ao meio ambiente parecem indicar que, apesar de tudo, o brasileiro começa a cobrar uma melhor postura ambiental dos governos e das empresas, públicas ou privadas.

Ao constatar que a transparência, a ética ambiental e a responsabilidade social são valores que começam a ser cobrados pela sociedade, a direção da Petrobrás mudou completamente seu posicionamento, tomando decisões e atitudes inesperadas: a primeira delas foi o inusitado reconhecimento de culpa.

Dilema para o jornalismo

Entretanto, embora a imprensa cumpra um papel importante na formação da opinião e do posicionamento dos cidadãos frente a um determinado problema ambiental, infelizmente, o que temos visto é que, em geral, as matérias produzidas noticiam, mas não informam o leitor ou o telespectador. É o caso da descrição de um acidente ecológico, em que se apela muito para as imagens fortes, os aspectos emocionais, mas não se discute, com profundidade, as causas, as conseqüências, os responsáveis, o papel dos órgãos de fiscalização e suas condições de trabalho.

O que poucos sabem é que nenhum dos grandes jornais e emissoras de televisão do país tem uma editoria de meio ambiente. Isto mostra que as empresas de comunicação não estão dando a devida importância a um tema tão emergente e de grande interesse na nossa sociedade.

Portanto, a opinião pública precisa cobrar qualidade e confiabilidade das informações prestadas pelos órgãos da imprensa. O que se observa é uma "pressa crônica" para se cumprir a pauta a qualquer custo e uma falta de melhor embasamento técnico-científico ao tema meio ambiente por parte dos profissionais da mídia. Assim, de um lado, ficam os fatos, o comunicador social e o veículo. Do outro, a notícia da forma que foi publicada, o leitor e a sociedade.

Para se entender a postura do cidadão comum na questão ambiental precisamos ter uma visão de conjunto das relações entre a sociedade civil, o setor privado e o poder público. Sabe-se que a sociedade civil é o segmento mais desinformado e desorganizado no trato dessa questão. Ela não tem o privilégio da informação sobre questões ambientais, não lhe dando, portanto, o devido valor. Infelizmente, em geral, sua expectativa é de que o "governo vai resolver ou tem a obrigação de fazê-lo". Assim, quem tem poder econômico, como o Estado e a grande empresa, compra a informação ou um determinado serviço de consultoria. Em outras palavras, adquire o "controle social" da situação. Aqui fica claro o importante papel da imprensa: a maior fonte de informação e de influência da sociedade civil na questão ambiental tem sido a imprensa escrita e, em segundo, lugar a televisada.

Consciente dessa influência, as grandes empresas têm feito pesados investimentos em "marketing ambiental", especialmente na imprensa escrita. Este se tornou um eficiente instrumento de convencimento e de melhoria da imagem e das relações da empresa numa comunidade. Desta forma, as empresas se tornaram grandes anunciantes e, direta ou indiretamente, responsáveis pela estabilidade financeira da empresa de comunicação contemplada com o anúncio.

Começa aí um grande dilema para o jornalismo verdadeiro e comprometido com nossa realidade: como realizar matérias de profundidade, se elas podem atingir diretamente os grandes anunciantes do jornal? O mesmo raciocínio se aplica à televisão, cujos custos de veiculação de propaganda são infinitamente superiores: um minuto no horário nobre da TV Globo, por exemplo, custa em torno de US$ 70 mil.

Ampla discussão nacional

Outro aspecto a ser mencionado são as matérias pagas, que aparecem travestidas de "notícias". Elas camuflam a enorme diferença que existe entre o discurso empresarial e a prática de ações concretas de preservação ambiental. Portanto, o interesse privado (inclusive da empresa de comunicação) sempre prevalece sobre o interesse coletivo ou público.

Concluímos que, na mídia pasteurizada e descartável de hoje, a qualidade está comprometida e a ética pouco considerada. Divulgar dados e números, preocupados apenas em noticiar, sem um mínimo de análise, sem esclarecer e informar, é o mesmo que "maquiar", é prestar um desserviço à sociedade.

O que se pede aos jornalistas é que estudem mais os temas abordados e os analisem com um pouco mais de profundidade. Surge aqui uma pergunta: como fazer isto se a tendência clara desses profissionais (ou de suas redações) é de escrever ou fazer reportagens com menos tempo e menos espaço? É preciso ressalvar que jornalista não é professor nem salvador da pátria. A imprensa brasileira não pode e nem deve ser considerada culpada pelo "analfabetismo ambiental" presente em todos os segmentos da nossa sociedade.

O que esperamos é que os editores façam uma autocrítica de seu trabalho na área ambiental e da sua grande responsabilidade social. Nossa sugestão é uma ampla discussão na sociedade do tema meio ambiente e veículos de comunicação, que seria "puxada" pelos sindicatos de jornalistas e poderia ser promovida em seminários regionais, inicialmente, e depois num seminário nacional. Todos ganhariam, os jornalistas e os cidadãos.

(*) Engenheiro ambiental com pós-graduação no IHE-Delft, Holanda; foi secretário-adjunto de Meio Ambiente do governo de Minas Gerais