Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Ramonet psicografado

MÍDIA VENEZUELANA

A France Presse deu, mas a imprensa brasileira ignorou. El Nacional, o maior diário venezuelano (em tiragem), "honrou" na primeira página de edição dominical Ignacio Ramonet, diretor de redação do Monde diplomatique <www.monde-diplomatique.fr> ? publicação mensal de Le Monde que virou bíblia da mídia independente. Ramonet é descrito pelo Nacional como "um dos melhores pensadores do mundo da informação".

Quem conta a história é a edição de 7/3 do Courrier International <www.courrierinternational.com>, semanário do grupo Monde que resenha a imprensa internacional. El Nacional deu tratamento "espetacular" a uma "entrevista de impacto" de Ramonet a um estudante mexicano: a "cabeça pensante da antimundialização, depositária do pensamento mais progressista do momento" ? sempre segundo El Nacional ? reprova Hugo Chávez, o presidente venezuelano.

Prossegue El Nacional: pois Ignacio Ramonet declara que "o Sr. Chávez não é um revolucionário. Falta-lhe consistência intelectual, o que explica seu desvio atual. Desde que ele venceu as eleições [em dezembro de 1998], achei que algo importante aconteceria. Mas a situação lhe fugiu das mãos. Chávez não faz nada certo. Foi vencido pelo populismo, como acontece com freqüência nesses casos." São afirmações inesperadas para um diário cristão-democrata que, depois das vitórias sucessivas de Chávez, não pára de denunciar o populismo, a arrogância e também o programa econômico antiliberal do antigo militar golpista, comenta o Courrier. Receber assim a reprovação moral de um intelectual tão renomado, até agora conhecido pela admiração por Hugo Chávez e sua "revolução bolivariana" é um verdadeiro presente.

O único problema é que a entrevista, publicada com tanta ênfase pelo Nacional, e também por Venezuela Analítica, revista em princípio séria, era uma mentira. Mentira grosseira mesmo, a tal ponto que bastaram dois dias para que Ignacio Ramonet enviasse ao jornal um severo desmentido. "Esta entrevista é uma enorme mentira. Estamos diante de um caso de velhacaria midiática total. Jamais encontrei este senhor" que se diz estudante de Princeton e que não passa de "um escroque que fez gozação com seu jornal". E, para deixar tudo bem claro, Ramonet acrescentou: "Jamais afirmei tais coisas do comandante Chávez. Ao contrário, em novembro passado lhe fiz um elogio público na Sorbonne diante de 1.000 pessoas. O texto desta intervenção está disponível na internet, e eu não mudei de opinião." Para bom entendedor…

E vejam que desfecho espantoso: o autor, o estudante mexicano na origem da falsa entrevista, endereçou ao Nacional um "manifesto" se justificando. Emiliano Payares Guzmán ? é o pseudônimo do incauto ? só fez a "entrevista inteiramente inventada" para "demonstrar a falta de rigor da imprensa caribenha em geral e venezuelana em particular".

O rapaz que afirma ser estudante da prestigiosa universidade americana de Princeton alcançou seu objetivo, "porque nenhuma verificação foi feita sobre a autenticidade da entrevista". O jovem encerra a carta com a frase: "A quem faltou ética? Ao que inventou a entrevista ou a quem a publicou levianamente?"

El Nacional e Venezuela Analítica tiveram que apresentar suas desculpas aos leitores pelo que consideraram uma "infâmia desprezível". O artigo de desculpas do Nacional incluiu o desmentido de Ramonet e a carta do estudante mexicano "revoltado" com a indigência da imprensa venezuelana. O Courrier encerra a matéria com um comentário implacável: "Um trabalho jornalístico marcante… a posteriori."