Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

RBS manda bater no povo

MÍDIA GAÚCHA

Caco Schmitt (*)

Estamos vivendo um dos momentos mais tristes da história do outrora combativo jornalismo gaúcho. Sou do tempo em que Porto Alegre se orgulhava da sua imprensa alternativa (a chamada "imprensa nanica"). Jornais como o Coojornal (fechado com bombas nas bancas e pressão do Exército sobre os anunciantes), como o Lampião (fechado com prisão e processo contra os jornalistas), como o Tição (pioneiro na crítica ao racismo), só para citar três exemplos, alcançaram prestígio nacional e internacional. Pela defesa das liberdades democráticas, pela luta contra a ditadura, pela não-violência repressiva das forças armadas e policiais contra o povo trabalhador e estudante.

Até mesmo na chamada grande mídia houve exemplos de um jornalismo menos comprometido com as elites empresariais e políticas que lucravam com o endurecimento do regime. Caso da Folha da Manhã, a Folhinha da Caldas Júnior, que praticou um jornalismo diferenciado, sem passar a versão dos poderosos a cada lauda.

Sou do tempo em que ainda na faculdade ou nos primeiros estágios a gente ia cavando brechas (nas tais entrelinhas) para passar recados sobre temas veladamente proibidos. Sou do tempo em que, pelo menos nos bares, a gente bradava por uma imprensa livre que pudesse criticar a violência policial, que pudesse falar da repressão às greves (o silêncio tumular ia da TV ao jornal impresso), uma imprensa que pudesse denunciar a morte dos sem-terra na Amazônia por jagunços a soldo dos coronéis políticos apoiados por militares corruptos.

Sou do tempo em que o grande debate (entre focas e velhos redatores) era a descriminalização do movimento social. Polícia para quem precisa de polícia.

Sou do tempo em que os repórteres relutavam em assinar matérias sobre movimentos de bairro, a reação popular de tranca-rua com pneus por causa de atropelamentos, uma subida em árvore para impedir o corte ? casos de "subversão" à ordem.

Com o fim da ditadura e um certo alívio na pressão, lembro que os jornalistas de Porto Alegre, como em todo o país, puderam levar à grande mídia o debate sobre violência policial. Quando a Brigada Militar exercia em demasia a violência sobre um grupo de cidadãos e cidadãs, sempre havia espaço para críticas à ação policial. Direitos humanos em cena (que saudades, seu Jair…) [Jair Kriscke, presidente do Movimento Justiça e Direitos Humanos]. Quando um "ladrãozinho qualquer" era torturado, havia condenação na imprensa. Não pode roubar; mas também não pode ser torturado.

Com a rearticulação dos movimentos sociais, a organização dos trabalhadores sem-terra, dos operários do ABC Paulista, o pau continuou solto e a imprensa, sem necessariamente defender esta ou aquela posição, defendia sempre a não-violência. O diálogo em primeiro lugar. Chegava-se a lembrar que a polícia britânica só usa cassetete.

O diálogo primeiro

Hoje, o que assistimos, especialmente nos veículos da RBS, que já faz escola entre outros jornalistas, crias da casa que atuam em outros órgãos, é algo assustador. Nunca vi, nem na ditadura, tanto jornalista pedir que a polícia bata no povo.

E eles se dizem defensores da ordem estabelecida (não querem ? por não terem coragem ? se assumir como defensores da ideologia capitalista e dos interesses da classe dominante rural e industrial). Que ordem, companheiros? O direito de uns sofrerem calados enquanto outros usufruem de tudo com o apoio dos jornais das classes dominantes, que ficam com parte das sobras?

Tenho uma dúvida: será que por trás desta indisfarçável posição de muitos coleguinhas está a missão de sustentar o confronto com o governo do PT? Ou de dizer que o governo eleito democraticamente, com um programa contrário aos interesses das elites econômicas, não cumpre a lei? Que protege os movimentos sociais etc.?

Querem jogar a Brigada Militar contra o governo? A sociedade contra a Brigada, o governo contra a sociedade, todos contra todos, sem medir as conseqüências? Até uma tragédia acontecer… Mas, aí, vão tirar o corpo fora e jogar a culpa numa das partes envolvidas.

Sou do tempo em que se batalhava por uma polícia que dialogasse primeiro e atirasse depois. Não só com os sem-terra, com as donas-de-casa revoltadas com atropelamentos, nos professores em greve. Até mesmo nos suspeitos pois, até prova em contrário, ninguém pode ser taxado de bandido por morar numa vila, por ser negro, por andar de Brasília à noite, e não de BMW, ou por estar caminhando de madrugada na rua. Uma polícia moderna e eficiente tem que ser cidadã e treinada para a abordagem, sempre correndo o risco, é claro, de um simples suspeito ser efetivamente um culpado. Para isso existe o treino, não a pressão.

Confronto direto

O momento é triste e vergonhoso porque é crescente nos últimos três anos. O Rio Grande acorda com uma sensação estranha de que tudo era maravilha no tempo do Brito [ex-governador Antonio Brito]. Não havia violência ? ou os jornais aliados não a destacavam.

A violência, de fato, aumentou, porque predomina o modelo neoliberal que destruiu o emprego e as empresas nacionais e favoreceu os bancos e seus aliados. Mas, aqui no estado, segundo estes jornalistas que passaram quatro anos do governo Brito calados, é muito mais grave. (Claro que não é, mas eles afirmam que é). Tanto que um fuzil AR-15 foi encontrado na Restinga e virou capa da Zero Hora, quando qualquer traficantezinho do Rio tem um arsenal deles em cada beco do morro. Se os sem-terra invadem, os jornais saem dizendo que tem que bater, tem que expulsar a bala. Se pequenos proprietários perdem terras para barragens e protestam têm que levar tiro, têm que morrer. Se pequenos produtores de leite querem preço justo e trancam a usina de leite, têm que morrer.

Aqueles sentimentos que lutamos para construir há 20 ou 30 anos, de que as pessoas tinham direito à manifestação, de que o diálogo é necessário, foram para o vinagre. E os coleguinhas nem se ruborizam: alegam que defendem o Estado de Direito (direito de quem, volto a insistir, dos exploradores?).

Repito: nunca vi, nem na ditadura, tanto jornalista pedindo para se bater no povo. E eles nem ficam vermelhos…

Torço para que não tenhamos uma tragédia aqui no Rio Grande do Sul. Tanto querem que a Brigada Militar bata, tanto querem que a Polícia Civil mate, tanto instigam, como alcoviteiras, a insubordinação dos soldados "humilhados" e dos oficiais "repreendidos" que um dia algo acontece. Seria mais digno um confronto direto com o governo a quem querem derrubar por diversas razões ? entre elas, a orientação dos donos da mídia. Seria mais digno do que usar desses expedientes sujos, jogando com o ânimo das massas e da polícia.

(*) Jornalista, funcionário do setor de comunicação do governo da Frente Popular no Rio Grande do Sul