Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Regina Ribeiro

O POVO

"Manchete suspeita", copyright O Povo, 23/2/02

"?Tenho duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio? (Carlos Drummond de Andrade, poeta)
É um fato que os jornais, a TV e demais veículos de comunicação são o palco de guerra entre os políticos em praticamente todo lugar do mundo ocidental. É a partir desse cenário que se forma a maior parte da imagem que nós temos sobre a classe política e sobre alguns políticos especificamente. No caso brasileiro, a representação política ? no sentido de como os homens e mulheres eleitos aparecem na mídia ? não é das melhores. Pense um pouco nos escândalos noticiados que envolvem a apropriação do dinheiro público de forma desumana; pense nos homens acusados de participarem de máfias que contavam com assassinos, torturadores e traficantes de drogas; pense ainda na ausência total de um procedimento ético nas relações políticas e nas relações entre representados e representantes.

Tudo o que você, leitor, imaginar, já foi publicado nos jornais e revistas ou você já viu pela TV e fica com aquela sensação de tristeza de como o poder político está fortemente ligado a algumas pessoas tão desmoralizadas publicamente.

Bom, então vamos voltar à questão do palco. O Povo e demais veículos são o ?campo de batalha?, como diz o sociólogo espanhol, Manuel Castells, onde é travada a grade maioria das intrigas, denúncias, construção e desconstrução de imagens políticas.

A questão da democracia, como regime, está intimamente ligada à liberdade de imprensa, no sentido de que esse poder ? a imprensa ? tem um papel importante para cumprir no que diz respeito ao acompanhamento das ações políticas dos governantes. Além disso, tem uma tarefa reguladora de forças no jogo político-democrático. Vamos lembrar que num ambiente ditatorial o primeiro e principal alvo é a imprensa.

O caso

Depois dessa prosa inicial, vamos ao caso. No último dia 21, O Povo deu a seguinte manchete: ?Prefeitura faz compras suspeitas?. A matéria se referia a um ?suposto esquema de corrupção que envolveria um assessor do deputado Sérgio Benevides (PMDB)?. O deputado Sérgio Benevides é genro do prefeito de Fortaleza, Juraci Magalhães (PMDB).

No comentário interno eu questionei a escolha do assunto como manchete. Em primeiro lugar devo afirmar que, como jornalista, eu tenho dúvidas sobre quando uma ?suspeita? deve gerar uma manchete de jornal. No O Povo ou em qualquer lugar do mundo.

O meu questionamento, no entanto, foi feito com base em algumas perguntas básicas do procedimento jornalístico que não foram respondidas na matéria:

1. O texto fala de duas empresas que têm um procurador, que é assessor do deputado que estaria envolvido, mas não tem nenhuma indicação de que O Povo tentou encontrá-lo para explicar as operações irregulares das duas empresas. O Povo procurou diretamente o deputado Sérgio Benevides.

2. A matéria tem com base única a denúncia feita pelo vereador Heitor Férrer (PDT), nos documentos e procedimentos apresentados por ele, sem nenhuma investigação do próprio jornal para checagem de informação.

3. A matéria envolve as secretarias regionais de Fortaleza, sem que nenhuma delas fosse ouvida.

4. No dia seguinte, 22, O Povo, fez uma outra matéria (suitou, na linguagem jornalística) sobre o caso. Nesse matéria, de forma correta, o jornal indica que procurou o senhor Alexandre Gaspar, procurador das empresas envolvidas no escândalo e mais uma vez o deputado Sérgio Benevides, sem sucesso. Também diz que tentou falar com todas as secretarias regionais, mas apenas um secretário, Marcelo Mendes, deu uma entrevista para dizer que não era com ele a história, já que estava chegando no cargo.

Conversando

A administração do prefeito Juraci Magalhães tem sido constantemente questionada: seja na escolha dos projetos para Fortaleza, que aterra a avenida Beira-Mar, mas deixa centenas de crianças sem salas de aula; seja quando o assunto é denúncia de compras envolvendo gêneros de toda sorte e ordem.

É verdade também que o vereador Heitor Férrer é o campeão de denúncias contra a Prefeitura Municipal. Vereador de oposição, Férrer, não faz mais do que o papel dele em tornar público o que ele considera ser um prejuízo para a cidade e os cidadãos de Fortaleza.

Apurando um pouco a memória, não recordo de um caso em que o vereador Sérgio Benevides apareça no noticiário de forma positiva, defendendo um projeto social ou envolvido em alguma questão cultural ou de meio ambiente.

O foco da minha crítica, no entanto, não são os atores dessa parafernália política, o que eu questiono é o procedimento do jornal. Todas as informações dadas pelo vereador Heitor Férrer deveriam ter sido checadas e as pessoas tinham de ter sido procuradas, antes de tornar aquela informação a manchete do Jornal.

Também defendo a idéia de que O Povo foi útil ao vereador Heitor Férrer e, do ponto de vista jornalístico, os integrantes da oposição devem ser fontes que merecem ser questionadas e checadas sim, e sempre.

Julgamento

O que eu estou fazendo não é uma defesa da Prefeitura ou condenando a denúncia do vereador oposicionista. Repito: o que estou questionando é a informação dada pelo O Povo como manchete. Não cabe a mim fazer julgamentos do caso no momento, até porque O Povo ainda não investigou a denúncia apresentada pelo vereador do PDT para comprovar o que aconteceu e, assim, oferecer condições para que os leitores possam exercer um juízo de valor de forma mais sólida.

Acredito que a isenção do O Povo diante das denúncias de irregularidades nas ações administrativas de governantes é essencial para confirmar a importância do jornal no atual processo político. Por isso mesmo é que O Povo não pode dar margens a leituras equivocadas que tem como origem erros no procedimento jornalístico. "