Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Regina Ribeiro

O POVO

"De volta à manchete suspeita", copyright O Povo, 3/3/02


O jornalista deve: ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, toda as pessoas objeto de acusações não comprovadas, feitas por terceiros e não suficientemente demonstradas ou verificadas; (…). Artigo 14 do Código de Ética do Jornalista.


"Tenho o dever de tratar novamente do tema envolvendo a manchete do O Povo do dia 21 de fevereiro que dizia: ?Prefeitura faz compras suspeitas?, e, cuja matéria havia sido alvo do meu comentário externo no último domingo.

Durante a semana recebi duas correspondências que merecem ser destacadas hoje. A primeira foi do secretário regional da SER VI, Marcelo Oliveira Mendes citado por mim no texto da semana passada. Transcrevo abaixo os principais trechos do fax enviado por ele:

?1. Sempre pautei minha conduta pessoal e profissional por critérios de compromisso, seriedade e transparência.

2. Nunca, desde que cheguei à Secretaria Executiva Regional VI (fevereiro de 2001) deixei de atender, o que é minha obrigação, todo e qualquer jornalista, que me procura, sempre oferecendo o máximo possível em informações, dados e números.

Causou-me portanto, especial surpresa e justificada revolta ver meu nome publicamente envolvido em equivocada afirmação. Jamais e de forma alguma disse, e aqui invoco o testemunho da competente jornalista Débora Lima, o que a senhora escreveu ?…Marcelo Mendes deu uma entrevista para dizer que não era com ele a história…?

Muito ao contrário do que a senhora afirma, que isto fique claro à sociedade cearense, fui insistente em apresentar vasta documentação que comprova a entrega da mercadoria comprovada pela SMDS para as escolas da Regional VI. Tais documentos já haviam sido solicitados pelo jornalista Erick Guimarães, que também pode comprovar minha boa fé, e por motivos que desconheço, não foram levados em consideração pelo O Povo como assunto interessante à pauta do jornal.?

Devo esclarecer aos leitores os tópicos sugeridos pelo secretário Marcelo Mendes:

Em nenhum momento, na Coluna externa e fora dela, fiz qualquer questionamento a respeito da conduta pessoal ou profissional do senhor Marcelo Mendes. Isso seria inadmissível.

Não me referi, em lugar algum, à disposição do Secretário em atender ou deixar de atender a qualquer jornalista.

Com relação ao equívoco que o senhor Marcelo Mendes afirma que eu cometi, preciso dizer que compreendo e respeito o sentimento e interpretação dele, mas dentro do contexto da Coluna não há equívoco no meu comentário. A entrevista com secretário Marcelo Mendes foi publicada no dia 22, na página 18, como coordenada da matéria que dava continuidade ao caso da denúncia da merenda escolar envolvendo as Secretarias Regionais da Prefeitura Municipal. No texto, o leitor não encontra nenhuma informação importante que possa lançar luz sobre o caso. O secretário afirma, nessa matéria, que a merenda escolar foi repassada às escolas da Regional VI. Diz também que Marcelo Mendes ?disponibilizou 1.200 páginas que ‘comprovariam a entrega, mas preferiu não falar sobre as denúncias de superfaturamento?. E acrescenta: ?Não posso me pronunciar sobre algo que não constatei?, disse. Ou seja, trocando em miúdos, o leitor não viu nenhuma comprovação de coisa alguma.

No item 4 o secretário relata um caso do ano passado quando essa denúncia já rondava a Redação do O Povo. O jornalista Erick Guimarães confirmou o empenho do secretário em entregar os documentos, mas acrescentou que, na ocasião, o jornal não continuou na apuração do caso, devido principalmente ao fato de a fonte ter desistido da denúncia e também porque os documentos apresentados por essa fonte não davam consistência à denúncia.

Segundo caso

A outra correspondência que eu recebi foi do vereador Heitor Férrer (PDT), autor da denúncia da compra superfaturada de merenda escolar. Ele diz que se surpreendeu ?negativamente? com o conteúdo da Coluna. E reforça: ?Você não poupou críticas?. Diz ainda: ?Prevalecendo a sua tese de só levar a público matérias já consagradas, PC Farias nunca tinha sido preso, Collor teria exercido, corruptamente, os quatro anos como Presidente da República; os anões do orçamento ainda hoje estariam manipulando e roubando verbas federais; ACM e Arruda não teriam renunciado; Jader Barbalho ainda estaria como Presidente do Congresso Nacional e o Lalau continuaria usufruindo do dinheiro da inacabada obra do TRT de São Paulo?.

Para começar essa conversa, eu quero deixar claro que eu sou Ombudsman do O Povo e de nenhum outro veículo de comunicação. Em segundo lugar, todos esses casos relatados pelo vereador não chegaram a ser manchetes de jornal assim, de uma hora para outra, sem cuidados, nem procedimentos jornalísticos.

Só para ficar com um único exemplo, o caso envolvendo o ex-presidente Collor e o PC Farias, alguns jornais e revistas famosos, de circulação nacional, fizeram, depois de passado o caso, reflexões, dando conta de que se não fosse o Pedro Collor, nada do que aconteceu teria acontecido pelo simples fato de que, nenhum deles, se dispuseram a investigar as denúncias que já existiam. Além disso, foi o irmão do ex-presidente que deflagrou o processo. Também é verdade que muitas das denúncias contra o esquema PC Farias foram comprovadas com matérias investigativas por parte dos veículos envolvidos na cobertura, mas é preciso lembrar também que muitas denúncias da época foram divulgadas abertamente pela imprensa e nunca foram comprovadas. Alguns envolvidos foram inocentados pela Justiça.

Quero reafirmar que a minha crítica ao O Povo foi com relação à decisão de transformar uma matéria que tinha alguns pecados quanto ao procedimento de apuração da denúncia, em manchete do jornal. E volto a insistir que, para o jornalismo comprometido com o leitor, não existe direita, nem esquerda. Existem fatos, denúncias, suspeitas que precisam ser apurados, comprovados e entregues ao leitor da forma mais isenta possível."