Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Regina Ribeiro

O POVO

"O BID e O Povo ", copyright O Povo, 17/3/02


"(…)?A vida é indivisível. Mesmo

A que se julga mais dispersa

E pertence a um eterno diálogo

A mais inconseqüente conversa?

Mário Quintana, poeta


Nos dias 7 a 13 últimos, nem precisamos de esforço para lembrar. A cidade parou e O Povo recolheu-se para dar passagem ao evento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Não vou gastar a sua paciência, leitor, dizendo que essa instituição financeira internacional tem sua importância ? embora questionável ? para regiões pobres como a nossa, carentes de dinheiro para tocar projetos. Além do mais, embora não tenha sido dito, a própria criação do BID foi uma reação em conjunto dos países pobres que ficaram à margem da reconstrução do mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Os países europeus ? esfolados ? e os Estados Unidos ? os que mais lucraram com a guerra ? chegaram à conclusão de que o desenvolvimento econômico dos povos poderia evitar conflitos beligerantes de grandes proporções e se lançaram com força numa trajetória de refazer suas nações e crescerem, crescerem, crescerem.

Para a América Latina, sobrou nada. Somente na década de 60 o BID veio aliviar a tensão latino-americana dos preteridos na divisão mundial do desenvolvimento.

Além desses aspectos históricos que envolvem a atuação do BID na América Latina e Caribe, faltou à cobertura uma criticidade jornalística capaz de mostrar aos leitores qual o perfil de atuação do BID. Um bom exemplo, e que foi propagado pela própria organização do evento, é que o banco investe sob condições. A principal delas diz respeito a um ajuste fiscal rigoroso. Ou seja, o que importa são as contas públicas seguindo o modelo pré-determinado por outros agentes multilaterais e internacionais, como o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Cifras demais, crítica de menos

Os leitores do O POVO encheram os olhos com cifras razoáveis, todas na casa dos milhões e bilhões que deverão chegar ao Estado e ao País em forma de projetos. Uma leitura essencial, no entanto, escapou do noticiário. Parte dos investimentos feitos pelo BID, até o momento no Ceará, tem um efeito concentrador de renda. Em outras palavras, os projetos estruturantes ? estradas, porto, aeroporto, investimentos turísticos ? tem como alvo uma classe econômica já privilegiada da sociedade. Isso é um fato. Está ao nosso lado. É só verificar.

É importante dizer também que o discurso das manifestações que tiveram espaço no O Povo foi pobre demais, com uma argumentação que chegava às raias do panfleto, que pode até ter o poder de elevar os ânimos, mas nunca terão de influenciar de forma política os leitores.

Um dos leitores que criticaram a cobertura levantou um tópico que passou em branco. O feriado do dia 11, segundo ele, prejudicou milhares de pessoas que tinham compromissos médicos marcados e que terão de esperar mais alguns meses até regularizar a situação de atendimento nos postos de saúde e hospitais por causa do feriado não programado. ?Por que O Povo não fez matéria sobre esses prejuízos?’, indagou o leitor, informando que a espera por um atendimento médico na rede oficial de saúde chega a quatro meses. ?É justo deixar milhares de pessoas prejudicadas por causa de 5 mil pessoas que estão visitando Fortaleza?’, indagou.

A ausência de cobertura do evento paralelo que houve na Assembléia Legislativa, nos dias 12 e 13, foi sentida por vários leitores, tanto pela importância do seminário, quanto pelo nível dos debates realizados.

Na última sexta-feira, uma matéria publicada no O Povo, informou que Fortaleza passou no teste e pode se comparar a outras cidades internacionais no tocante à recepção de eventos do porte do BID. Acredito no entanto, que O Povo não passou no teste de um jornalismo analítico e crítico bem fundamentado, que fosse capaz de atender aos leitores principalmente no que diz respeito às abordagens que pudessem dar visões mais abrangentes da atuação dessa instituição financeira internacional no nosso Estado.

Contraponto

O editor do Núcleo de Negócios, Guálter George, afirma que a cobertura feita pelo O Povo está sendo submetida a uma avaliação constante desde o encerramento do megaevento. ?A média do juízo feito pelo público externo, inclusive no âmbito do Conselho de Leitores, aponta para a execução de um trabalho de resultado final satisfatório?, declara o editor. Ele acrescenta que a cobertura deve ser vista pelo conjunto. Informa que houve uma articulação com os Núcleos de Cotidiano e Conjuntura. Diz que tudo isso ?somada à presença quase diária de artigos críticos no espaço de Opinião, mesmo que alguns de caráter excessivamente panfletário, compõem um cenário que permite levar ao entendimento de que O Povo foi além do relatorial?, afirma Guálter George.

Concordo com a avaliação satisfatória do ponto de vista de um noticiário que se pautou pelo caráter informativo com falhas consideráveis em alguns pontos. No entanto, do ponto de vista da uma análise crítica fundamentada com vista a um aprofundamento maior das informações, O Povo deixou a dever aos seus leitores. Além do que as opiniões publicadas nos artigos não supriram, de forma convincente, a necessidade de avaliação e contextualização do que o evento do BID representou no cenário nacional e local e internacional."