Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Seduções e omissões

CASO SARNEY-MURAD

Gilmar Antonio Crestani (*)

As peripécias de Ulisses, que Homero registrou na Odisséia, vêm sendo contadas e recontadas desde a Antigüidade. Algumas adaptações ou releituras são "ilegíveis", como diria o ex-ministro Magri, a exemplo do Ulisses, de James Joyce. Tirando o tradutor, Antônio Houaiss, não conheço mais ninguém que o tenha lido. Tentar também eu tentei.

Assim como cada um dos trabalhos de Hércules serve para explicar fenômenos da vida atual, também as vicissitudes de Ulisses ajudam, cada uma a sua maneira, a entender fenômenos do nosso cotidiano. As sereias que tentavam os navegadores homéricos eram seres híbridos, mulheres-pássaro. Escreveu Homero: "Chegarás, primeiro, à região das Sereias, cuja voz encanta todos os homens que delas se aproximam. Se alguém, sem dar por isso, delas se avizinha e as escuta, nunca mais sua mulher nem seus filhos pequeninos se reunirão em torno dele, pois que ficará cativo de seu harmonioso canto".

Ulisses, o dos mil artifícios, tapa com cera os ouvidos de seus marujos mas os dele ficam livres para a aventura do conhecimento. No entanto, por segurança, pede que seja amarrado. Ulisses não renuncia ao conhecimento, apenas toma as devidas precauções para que não lhe faça mal. Para o estudioso francês Jean-Pierre Vernant, "as Sereias são ao mesmo tempo o apelo do desejo de saber, a atração erótica ? são a sedução em pessoa ? e a morte."

O cinema hollywoodiano preservou o apelo erótico, mas metamorfoseou a parte ave em peixe. A mídia gaúcha também metamorfoseia a sereia, mas mantém o apelo erótico. A capa da revista Press, aquela que copia a velha propaganda do sabonete Lux, pois nove em cada 10 capas são ocupadas por figurinhas da RBS, traz a estampa do ex-governador Antônio Britto com a seguinte manchete: "Não há mais virgem na política gaúcha." Cito de memória, pois a vi, de relance, numa banca de Porto Alegre. Não sei o que aquele sorriso de satisfação tem a ver com a manchete. É que as sereias, aqui no Sul, têm um modo muito especial de seduzir.

A mídia tem lá seu canto de sedução. Nós, leitores, às vezes somos obrigados a tapar o nariz e fazer ouvidos moucos. Na verdade, aí é que deveríamos abrir os olhos. Certas atitudes cheiram mal, como, por exemplo, esconder informações. Está difícil de entender essa atitude que toma forma de linchamento contra Roseana Sarney. Não porque os fatos que emergiram não mereçam a devida atenção. Tirando aquela fortuna em dinheiro vivo, não há nenhum fato novo. A mídia é que sempre chega atrasada. Não raro, a cabresto de algum outro interesse. Neste caso, evidentes demais. Como nessas casas do SBT e da Globo, os integrantes se conhecem demais. Tiveram pelo menos sete anos de convivência. Conhecem os truques e os blefes.

A mídia também deveria saber. Talvez saiba. Mas é o leitor que fica perdido.

O vilão é nordestino?

Não faz muito foi devassada a vida de Cassio Taniguchi, também do PFL, com sobras de campanha superiores às encontradas na empresa do diligente marido de Roseana. Em que pé está? Foi explicado, está sendo investigado? Aqui no RS tivemos uma CPI da Segurança, que virou o bicho. Espalhou-se pelos jornais nacionais da vida que fulano tinha ouvido de sicrano que o governo gaúcho usaria o dinheiro do jogo-do-bicho em programa sociais. Pronto. A Folha de S.Paulo criou o bordão: "O bicho do PT". O relator, seduzido pelo canto mavioso dos holofotes, fazia entradas triunfantes nos lares nacionais, pois a interrupção dos trabalhos da CPI coincidia com os blocos de notícias ao vivo.

Agora, o Ministério Público arquivou, por inconsistentes, as denúncias. A própria Assembléia Legislativa, ocupada majoritariamente pela oposição, rejeitou a afoiteza dos intrépidos marujos, mandando para o lixo o Relatório da CPI da Segurança. Mas os coronéis da mídia que fazia o linchamento esqueceram de curar as feridas. Os leitores foram seduzidos, e agora jazem nos promontórios do esquecimento, entre Caríbdis e Cila, sem saber em que pé ficaram todas as acusações feitas.

Os filtros criados em torno do affaire Roseana e seu colchão começam a vazar. Aqui nos querem fazer crer que Roseana é um daqueles seres mitológicos, cuja origem remonta a uma relação entre deuses e mortais. Nada a ver com aquela história do Boto encarnado no cinema por Carlos Alberto Ricelli. Até agora não tinha passado, era a sedução em pessoa ou um acidente genético que poria o Brasil no Guiness. Uma mulher para presidente! Como explicar que tenha sido reeleita e tenha ainda tanta popularidade no Maranhão? Será que por trás de tanta popularidade e poder não exista algum ranço de coronelismo eletrônico? A repetidora da Rede Globo no Maranhão nunca produziu qualquer matéria que pudesse dar pistas aos brasileiros, seja no Jornal Nacional ou no Fantástico. Isso não é fantástico? Ou o aporte de R$ 800 milhões que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está viabilizando para a Globocabo não explica nada?

Uma vertente sulista com inserção na mídia quer fazer crer que o Nordeste é o vilão da política. Todos os males, como Roseana, vêm de lá. Embora nenhum outro estado tenha fornecido tantos ditadores como o Rio Grande do Sul. As loas tecidas aos políticos sulistas, quando comparados aos nordestinos, são filhas das mesmas sereias que vendem os EUA como o país da liberdade e do livre mercado. O país da liberdade tem, proporcionalmente, a maior população carcerária do mundo. O livre mercado vai até aonde afete o suco, o aço ou qualquer outro produto que concorra com a indústria americana.

Proeza catarinense

Ora, ninguém lutou mais para que a Ford fosse para a Bahia, em conluio com Antonio Carlos Magalhães, quando ainda era majestade na presidência do Senado, do que o coronelismo eletrônico sulista. Se o leitor tiver interesse, poderá ler no sítio da Associação Comercial da Bahia <www.acbahia.com.br/materia05.html> que a construção do complexo Ford empregou mais gente que a própria montadora está empregando hoje. O professor da Universidade Federal da Bahia Iberê Luiz Nodari <nodari@ufba.com>, em artigo que corre pela internet, completa as informações que desencanta quem ainda restava seduzido pelos encantos da Ford.

O ministro da Agricultura, o gaúcho Pratini de Moraes, do PPB, sempre incensado pela chefe da sucursal da RBS em Brasília, tem tomado atitudes rancorosas em prejuízo do Rio Grande do Sul com apoio dos coronéis sulistas. Os desvios do DNER foram praticados por algum nordestino? Também está certo que alguns nortistas tenham sido seduzidos pelo canto dos duzentos dinheiros no episódio da compra da reeleição. Mas quem cantou a nota foram nordestinos? Maluf é nordestino? Pitta é nordestino? Onaireves Moura é nordestino? Darcísio Perondi é nordestino? Não. Esta fina flor é sulista.

ACM ou mesmo Roseana existiria se não existisse um Jorge Bornhausen (PFL-SC)? Aliás, o Diário Catarinense, do grupo RBS, de 10/3, conseguiu uma proeza. Tratou do caso Roseana trazendo a seguinte manchete: "As conexões da máfia da Sudam", sendo que a chamada de uma das matérias dizia que "Pefelistas suspeitam de ação política". A proeza é totalmente explicável, embora eu mesmo ainda não a tenha explicado. Acontece que o presidente do PFL, que maquinou para que a sereia maranhense seduzisse os brasileiros de todos os modos possíveis, até em telenovela da Rede Globo, é catarinense. Jorge Bornhausen, sulista da pura cepa, não foi ouvido muito menos mencionado pelo bravo órgão informativo. Neste caso, não adianta o leitor querer ouvir, tem mesmo é que abrir o olho se acha que está sendo informado.

(*) Funcionário público