Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Sem voz e sem caneta

TRISTE ESPECTADOR

Fernando Autran (*)

Acredito ser necessário fugir da pregação nominalista e procurar analisar um determinado assunto pela prática de um pensamento cuja expressão popular, "ultrapassada", os modernosos odeiam: inserir no contexto. Ora, existe um texto, um discurso, e até mesmo a leitura de que não deve haver leitura é uma leitura. Um processo civilizatório, qualquer que seja ele, é global, totalizante, constitui um Zeitgeist, um sistema completo e dinâmico que abarca todos os aspectos da vida coletiva: alimentação, habitação, saúde, educação e informação, legislação e aplicação da justiça, emprego, segurança etc. Assim, parece-me impossível separar um acontecimento, ou mesmo uma estrutura específica, de um quadro geral, sistêmico, contextual. Permito-me acrescentar, respaldado pela experiência acumulada nos bares da vida, que até um bêbado filosofa quando, já no final de uma saudável noite recheada de bebidas e cigarros, chora os seus amores perdidos e as derrotas do seu time de futebol.

Uma análise da situação atual dos meios de comunicação no Brasil deve ter como guia, portanto, o exame das estruturas de poder e de propriedade existentes aqui e alhures. Estas estruturas são a base de todo o sistema, pois sobre elas se assentam as peculiaridades de cada uma das suas partes. Por essa via, então, cabe perguntar por quais razões, aqui no Brasil, uma elite que se apoderou do Estado e das demais instituições de regulação social, que privatizou a saúde, a educação, a justiça, o espaço público, a cidadania deixaria intocados os meios de comunicação. (Até tu, Brutus!? Por mais que os jornalistas se vejam como semideuses e procurem esconder que são bonecos de ventríloquo, eles estão sempre dispostos a cumprir as ordens de um patrão oligárquico. E aqui afirmo, sem medo de errar, que são todos, todos mesmo, todos sem exceção: todos os patrões pertencem à oligarquia que domina este país há mais de 500 anos, e todos os jornalistas lambem as botas dos patrões e de quem eles mandarem.)

Degradação da vida

Está claro que a mídia, tanto nas tradicionais quanto nas suas novas configurações, não ficou de fora. Não se trata de uma questão de mocinho ou bandido, de eixo do mal e do bem, mas sim de uma inter-relação sistêmica que já foi exaustivamente analisada, de Gramsci a Fredic Jameson, apesar da ausência de "repercussão" na mídia.

O problema é sistêmico, de estrutura de poder. Diz respeito, portanto, aos mecanismos da própria dinâmica interna do sistema, uma vez que atende às necessidades do desenvolvimento tecnológico, principalmente da tecnologia da informação, que, depois da derrota de um projeto civilizatório alternativo, acelerou o processo de formação de hábitos sociais e de um padrão de pensamento que atendam às exigências das novas formas de produção e de divisão social do trabalho. Surgiu daí o decantado Pensamento Único, contraditoriamente revestido de um multiculturalismo mimético e vazio de conteúdo. Recorro ao já citado Jameson para denunciar a "canibalização aleatória de todos os estilos do passado, o jogo aleatório de alusões estilísticas, a primazia crescente do neo (…), esse apetite dos consumidores por um mundo transformado em mera imagem de si próprio por pseudo-eventos e por espetáculos (…), a cópia idêntica de algo cujo original jamais existiu".

Os meios de comunicação dos países periféricos exacerbam esta inter-relação existente entre as dominações econômica e cultural produzindo e importando informação e entretenimento (arte, nem pensar) de baixa qualidade, ao mesmo tempo em que rotulam como retrógradas, ou jurássicas, formulações de novos pensamentos ou qualquer tentativa de análise da realidade. A produção cultural em massa, a mercantilização da arte, a superficialidade e a censura, principalmente a censura, despolitizam a juventude e impedem o exercício da cidadania. Parece um massacre, um bombardeio no cérebro da população. No curso desse processo, os jornais apodrecem, as televisões bestializam-se, a arte é substituída pelo entretenimento, a informação vira fofoca. Quanto ao cidadão, kafkianamente transformado em consumidor, sobra-lhe o papel de espectador passivo, ele que não tem voz nem caneta para protestar. Na atual democracia seletiva, ou ditadura democrática, resta aos privilegiados que comem e habitam a alternativa de escrever para os jornais sobre o buraco da sua rua ou plantar-se diante da televisão para assistir ratinhos e bigbrothers. O resto é manipulação, jornalismo chapa branca, exacerbação da violência, degradação da vida. Aliás, estou escrevendo este artigo para quem?

(*) Escritor e produtor cultural em Recife