Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Serventia e origem das "roseanas"

CASO SARNEY-MURAD

Chico Bruno (*)

É dever da imprensa informar, aos nascidos depois de 1964, o passado de alguns políticos que militam há mais de 50 anos na política brasileira e, ainda, se encontram na ativa. Pelo menos os mais conhecidos hoje em dia.

Entre eles está o senador maranhense José Sarney, eleito pelo Amapá e pai da governadora Roseana Sarney. Ele proferiu discurso no Senado usando o ataque como arma de defesa da filha. A grande imprensa deu ampla divulgação ao discurso, ao contrário da réplica do senador carioca Artur da Távola, líder do governo no Senado. O discurso de fera ferida de Sarney foi transmitido ao vivo pela TV Senado e pela Globo News, canal pago da Rede Globo. Vários jornais no dia seguinte o transcreveram integralmente.

Infelizmente, quase todos deixaram o senador posar de arauto da democracia, não fazendo menção ao seu passado, contribuindo dessa forma para a falta de memória do povo. Foram poucos os analistas políticos que se deram a esse trabalho.

Este Observatório tem grande contingente de leitores jovens, que precisa saber que o senador era uma das principais vozes da ditadura militar, instaurada no país em 1964. Falta, portanto, história a José Sarney, chefe de uma oligarquia regional que durante anos coonestou todos os atos da ditadura. Ele e muitas outras figurinhas carimbadas da política, que posam hoje de democratas, davam suporte ao arbítrio, à tortura e às mortes perpetradas nos porões do DOI-Codi, a polícia política da ditadura que maculou o país durante vários e longos anos.

O dever da imprensa

Aliás, nesse episódio Roseana/Murad, a imprensa tem cometido falhas imperdoáveis. Uma delas é ter questionado mais quem investiga, no caso o Ministério Público, do que os próprios crimes, cometidos pelos investigados, que os investigadores descobriram. "Estão tentando tirar o sofá da sala", afirmou a O Globo o procurador Mário Lúcio Avelar, na edição de domingo, 24 de março de 2002.

Outra falha foi apostar na versão de utilização política do episódio, com possível vazamento da operação. Ora, sigilo serve para proteger a investigação ? e cessa quando a operação de busca e apreensão é iniciada pela Polícia Judiciária. A lei não estabelece o contrário. Portanto, não houve vazamento, houve acompanhamento pela imprensa de uma operação pública. A própria imprensa fica querendo saber quem vazou as fotos das 26.800 notas de R$ 50, ironicamente batizadas pelos cariocas de "roseanas".

Infelizmente, não tem a mesma atitude em relação à serventia e à origem do dinheiro. A grande maioria dos jornalistas e publicitários que militam em campanhas políticas sabe que as 26.800 notas não são caixa dois de campanha. Desde 1996 que os recursos minguaram. Os empresários estão preferindo fazer contribuições legais no período próprio, e o dinheiro em espécie do caixa dois foi substituído pela confecção de material de campanha, tipo camisetas, santinhos, galhardetes etc. Infelizmente, parece que a imprensa engoliu a última e sétima versão, de que o dinheiro era para despesas da campanha de Roseana.

A imprensa tem o dever de não relegar esse episódio a segundo plano, pois o povo continua querendo saber da serventia e da origem das 26.800 "roseanas" encontradas no escritório da Lunus ? assim como quer acompanhar a continuidade das investigações, quer pelo Ministério Público, caso saia do governo para concorrer à Presidência ou ao Senado ?, quer pelo STJ, caso continue governando o Maranhão. O que mantém o privilégio de só ser processada pelo STJ, com a licença concedida pela Assembléia do Maranhão.

(*) Jornalista