Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Sobre a mão-de-obra jornalística

MERCADO DE TRABALHO

Muniz Sodré (*)

É bem razoável o nível de conhecimento, por parte dos brasileiros interessados, sobre a profissão jornalística nos Estados Unidos. As informações costumam chegar por livros, boletins, visitantes e, mesmo, pelo cinema, com suas glorificações do repórter investigativo norte-americano.

Dos países do Primeiro Mundo europeu, não se sabe tanto. Por isto, vale a pena passar os olhos (ao menos para quem seja cultor da língua de Goethe) pelo último número da revista Bildung und Wissenchaft ? B&W, editada pelo Goethe-Institut Inter Nationes. Em todo uma edição dedicada ao jornalismo na Alemanha, dois dos textos podem trazer elementos para a reflexão de jornalistas brasileiros.

Um desses textos deixa patente que existem poucos jornalistas alemães desempregados. Em 2001, cerca de mil jornalistas com formação acadêmica foram anunciados por agências de emprego ? o que é considerado índice muito baixo na Europa e leva à conclusão de que o jornalismo é um nicho profissional altamente desejável.

Mas aí se registra também um paralogismo: os jornalistas que perdem seus empregos fixos, devido à supressão de setores nas redações, à redução de cargos de chefia, à extinção de revistas ou de programas de rádio e televisão, raramente se anunciam logo depois nas agências de empregos. Muitos deles preferem tentar a sorte como "frilas".

Surge daí uma espécie de "desemprego disfarçado", uma vez que esses "frilas", apesar de não integrarem os índices oficiais de empregados, podem na realidade estar-se saindo muito bem em sua livre iniciativa. Além disso, esse tipo de profissional goza de mais auto-estima e de maior valorização social do que um desempregado que recebe seus cheques mensais do governo.

Também nesse setor, são extraordinárias as diferenças de renda. "Frilas" que trabalham em talk shows televisivos, por exemplo, geralmente ganham mais do que chefes de redação e editores, enquanto na outra ponta salarial a maioria vive à beira do mínimo.

Como um todo, pode-se afirmar que o mercado de trabalho para jornalistas vem sendo avaliado em termos positivos tanto para o presente quanto para o futuro. Num espectro comparativo de 32 outros campos profissionais, os pesquisadores de mercado estimam um crescimento de 170% de empregos jornalísticos no período de 1985 a 2010. Isto não significa aumento de empregos fixos, mas uma expansão consistente no setor de "frilas", cuja ocupação cresce em virtude do deslocamento das tarefas jornalísticas tradicionais. As pequenas produtoras, que empregam prioritariamente o "frila", antepõem-se normalmente à grande mídia no que diz respeito à oferta de trabalho.

Haveria muito mais a se detalhar. Mas este é, afinal, o caso alemão. O que nos interessa de perto é o estado do mercado de trabalho no Brasil, onde o "frila" tende a ser a relação de trabalho mais freqüente. Não necessariamente um interesse quantitativo (embora isto seja importante), mas qualitativo.

É que toda a discussão nacional sobre diploma e exercício da profissão jornalística certamente não encontraria ressonância nessa Alemanha que, pelo visto, muito valoriza o campo da informação. Outro texto da mesma B&W dá conta de que, após 30 anos de discussões e experiências, chegou-se à conclusão de que o jornalismo exige uma formação específica.

Atualmente, segundo o artigo 5? da Constituição alemã, essa profissão não está vinculada a nenhum pressuposto de uma formação escolar determinada. A Lei Magna optou pela desregulamentação absoluta do assunto, afastando-se de resíduos históricos como a lei do regime nazista que definia o trabalho do redator. Hoje, entretanto, considera-se muito pouco clara a identidade profissional do jornalista e afirma-se que, numa sociedade em que cada vez mais as pessoas escolhem as suas profissões a partir de um diploma superior, já é tempo de se estender essa exigência ao importante campo da informação.

Ao que parece, o Brasil quer parar onde a Alemanha está começando.