Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Sobre jornalistas e judeus

CASO DANIEL PEARL

Fabio Pri (*)

O que mais chocou as pessoas, no episódio da horrenda morte de Daniel Pearl por radicais islamitas, no Paquistão, não foi o fato de ele ser americano ? não teria tido igual repercussão, na mídia, o assassinato de qualquer soldado ou mesmo civil americano. Pearl era jornalista, credencial que sempre simbolizou um modelo especial de imunidade em períodos de guerra. Jornalistas, afinal, eram até agora porta-vozes da liberdade de expressão, sempre a servi&ccediccedil;o da imparcialidade ? quando ainda se acreditava nesta entidade abstrata. A esse respeito, li recentemente artigo do jornalista inglês Robert Fisk, intitulado "Journalists are now targets ? but who is to blame for this?" (Jornalistas agora são alvos ? mas de quem é a culpa?).

Correspondente no Oriente Médio há 25 anos e profundo conhecedor dos conflitos que lá se desenvolvem, Fisk faz um apanhado de como os jornalistas deixaram de ser "testemunhas imparciais" dos combates e passaram a pegar em armas e a vestir uniformes. Dá uma gama de exemplos para justificar sua tese de que os jornalistas, de certa forma, têm parte da culpa no caso Daniel Pearl. Entretanto, com o cinismo de quem enxerga apenas o que quer, Fisk desvirtua o tema e passa batido por uma questão central: Pearl não foi morto por ser jornalista; ele foi morto por ser judeu. Anos de experiência não arrancam das pessoas a incapacidade de discernir verdades de convicções pessoais.

Carneiro da vez

Correspondente do Wall Street Journal no Sul da Ásia, Pearl morava em Karachi com a mulher, grávida de sete meses, e investigava indícios que ligassem o britânico convertido ao Islã Richard Reid (acusado de tentar detonar explosivos em vôo da American Airlines, em dezembro) ao grupo al-Qaeda, de Osama bin Laden. Na lista de contatos do jornalista estava Ahmed Omar Saeed Sheikh, responsável pelo seqüestro de quatro ocidentais em 1994, com quem Pearl tinha agendado entrevista na véspera de seu desaparecimento, em 23 de janeiro. Não foi mera coincidência: o jornalista foi vítima de uma emboscada.

Robert Fisk, conhecido por suas posições críticas ao governo israelense, obteve três entrevistas com Osama bin Laden ao longo de sua carreira. Daniel Pearl não pretendia tanto, mas dois detalhes contribuíram para o trágico desfecho de suas investigações: era americano e, mais que isso, judeu. Os detalhes de sua terrível morte foram fartamente divulgados pela mídia americana e inglesa, mas quase ignorados no Brasil. Em vídeo entregue por um jornalista paquistanês ao consulado dos Estados Unidos, em Karachi, Pearl é obrigado por seus seqüestradores a ler uma frase: "Eu sou judeu, minha mãe é judia." Logo depois, é decapitado. Em fotos que chegaram à imprensa americana em e-mails, dias antes de ser morto, Pearl aparecia com uma arma apontada para sua cabeça.

Por que esta arma não foi usada para assassiná-lo? O método escolhido por seus seqüestradores teve algo de macabro. Em matéria publicada no site do jornal inglês The Independent ? o mesmo que publicou o artigo de Robert Fisk ?, o repórter Peter Popham escreve que o vídeo da morte de Pearl foi entregue na véspera do feriado muçulmano de Eid. A principal prática desta data, lembra ele, é o sacrifício de cabras e carneiros, pela degola. Daniel Pearl foi o carneiro da vez.

Recado a Fisk

Fahad Naseem, um dos suspeitos do seqüestro, disse, ao ser preso em Karachi, que Pearl era um "anti-Islã e um judeu". Segundo The Observer, cúmplices de Omar Sheikh informaram à polícia que ele teria afirmado que queria matar alguém que fosse "contra o Islã, um judeu". O jornalista americano também foi acusado de trabalhar para a CIA e para o Mossad, o serviço secreto israelense. Não há dúvidas de que Pearl era judeu, mas estava longe de ser um "anti-Islã", muito menos espião de qualquer serviço de inteligência. Do mesmo modo, jornais árabes noticiaram que o atentado de 11 de setembro teria sido planejado pelo Mossad, e que nenhum judeu teria trabalhado no World Trade Center naquele dia. Cabe a nós decidir a quem dar ouvidos: a uma imprensa livre ou a uma que funciona, em sua grande maioria, como propaganda de seus governos?

O colunista do Washington Post Richard Cohen, também judeu e jornalista, escreveu que, por causa disso, nós, leitores, poderíamos entender sua "tristeza e raiva" a respeito da morte de Daniel Pearl. Também sou judeu. Concordo com ele, e isso não me faz fechar os olhos para o que acontece com os islamitas. O momento não é para reafirmarmos cegamente velhas convicções, mas para refletirmos sobre os fatos de um ponto de vista não-unilateral. Cerca de duas mil pessoas foram detidas, sem provas, nos Estados Unidos, desde o atentado de 11 de setembro ? informação também pouco divulgada no Brasil. O motivo? Seus sobrenomes árabes eram suspeitíssimos. Muitos deles, pais de família, que deixaram mulheres e filhos para pagar o preço alto da batalha ideológico-racial. Assim como Daniel Pearl.

(*) Estudante de Jornalismo da UFRGS