Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Trágicos ciclos tropicais nos jornais e televisão

Miguel Chaia*

 

O

s telejornais e a imprensa escrita têm insistido, nos últimos dias, em decorrência da mudança do rumo econômico do Governo Fernando Henrique Cardoso, na volta da inflação, no reagrupamento das brigadas de defesa dos consumidores, na alta do dólar, na volta das missões do FMI e no aparecimento de boatos que alertam para novos planos, confiscos e outras mazelas a mais.

Todos estes fatos ou a sucessão das imagens televisivas sobre estes temas permitem pensar na retomada de ciclos que se desenvolvem na história brasileira. As notícias e as imagens produzidas, hoje, parecem que já foram lidas ou vistas em vários momentos do passado. O leitor ou o telespectador vive a sensação de assistir a um filme já visto ou de ler um velho jornal.

Durou quase cinco anos o ciclo do Plano Real, fazendo com que no início de 1999 a população brasileira fosse acordada para uma dura realidade com a qual estava temporariamente desacostumada. Despertou para um pesadelo, já que se tornou inevitável reavivar a memória e iniciar um processo de rememoração de experiências anteriores. O Plano Real sucedeu a outros planos ou pacotes e os interregnos entre eles também marcaram profundamente a nossa memória social. Por isso, o desastre, sempre anunciado, que acabou ocorrendo em janeiro, deflagrou antigos medos, ansiedades e expectativas, na forma de velhos fantasmas conhecidos. A imprensa expressa este fenômeno histórico, tornando visível esta complexa trama social brasileira.

No filme “Os Dois Mundos de Charly” (1968, direção de Ralph Nelson) o personagem interpretado por Cliff Robertson, sofria de problemas mentais, sendo um adulto com idade mental de criança. Uma medicação retira-o desta situação e ele se desenvolve intelectualmente a ponto de se tornar um cientista, que passa a avaliar o seu próprio caso, até descobrir que a sua saúde estava se degenerando rumo à antiga situação. Conscientemente Charly vai perdendo a consciência até entrar novamente num mundo mental infantil. Um trágico ciclo pessoal que pode se transformar em metáfora de conturbações sociais.

Não se pode deixar de considerar a imprensa, de forma geral, como um dos fatores fundamentais que possibilitou a letargia da consciência brasileira nestes últimos cinco anos, aprofundando o sono brasileiro sob o Real ou dificultando a compreensão de possíveis desfechos. Paradoxalmente, de forma isolada, a imprensa escrita permitiu espaços para críticos deste sono, que insistiam na perspectiva de um retrocesso histórico.

A população, pesquisadores e, mesmo, jornalistas não se acostumaram com a nossa trágica história que ocorre em ciclos. Na falta de uma tendência histórica como aquela que o capitalismo clássico desenvolve, para atingir o auge e depois iniciar sua curva descendente, nós, ao contrário, seguimos ritmos desvairados, múltiplos e repetitivos. Os países periféricos, ou emergentes como querem atualmente, não conhecem a estabilidade. A repetição e a dificuldade do avanço marcam o nosso destino, na qual tensões e paradoxos existem como no capitalismo clássico, mas suas marcas são mais freqüentes, aparentemente eternas na repetição.

Talvez no desencanto e no reconhecimento da especificidade deste tipo de história, que conhece “absurdos reais”, Gabriel Garcia Marques tenha resumido, em seu livro, cem anos (de solidão) numa rápida fração de tempo. Ou talvez, este mesmo desespero tenha levado o personagem autoritário Porfírio Diaz, líder da direita, de “Terra em Transe” (1967, direção de Glauber Rocha), a declarar raivoso “Aprenderão! Colocarei estas histéricas tradições em ordem. Pela força, pelo amor da força chegaremos a uma civilização”. Esquerda e Direita defrontam-se com situações que contemplam ordem e caos, possibilidade de controle e descontrole absoluto.

Thomas Skidmore levantou a hipótese, em seu livro “De Getúlio a Castelo”, de que o Brasil não consegue realizar os ciclos governamentais uma vez que, entre eles, se intercalam constantemente as crises de sucessões. Da pressão militar a impedimentos legais se constroi um espectro de fatores que dificultam, senão impedem as continuidades políticas democráticas. Sob uma outra perspectiva, Florestan Fernandes buscando elucidar o processo de implantação capitalista nas condições de subdesenvolvimento, apontou a dificuldade brasileira em realizar as revoluções burguesas, seja ela política ou econômica. Na sua análise, elucidou que estas revoluções não conseguem desenvolver uma dinâmica contínua, sofrendo constantemente interrupções, realizando ciclos abruptos e interruptos ou sofrendo sérias retrações políticas e econômicas. Daí a dificuldade do país em produzir os paladinos da civilização e em imprimir andamento contínuo para o seu processo de desenvolvimento.

A nossa história, realizada em ciclos que se sucedem e se repetem, marca um ritmo alucinante a nos fazer acordar para pesadelos que retomam sempre o mesmo ponto. O Plano Real, no momento em que faz água, lembra os piores momentos do Governo Sarney. O pânico da população fazendo fila nos bancos com medo do confisco, lembra o nascimento do Plano Collor. A perspectiva da inflação, mesmo que reduzida para 1999, já assusta os consumidores, cerceia o futuro da população de baixa renda e começa a fazer a alegria dos especuladores e dos intermediários gananciosos. Momentos semelhantes revividos outra vez, em infindáveis exemplos que poderiam ser lembrados.

Com certeza, depois de um breve sonho, acordamos para a realidade do nosso capitalismo: diferente, selvagem, desigual daquele sonhado. A cada ciclo que se encerra, após o interregno que dá início a outro, podemos constatar que convive com a história cíclica, uma tendência permanente – esta sim até agora imutável e que pode ser apreendida na observação de que vem se mantendo no Brasil a concentração da renda ou a radical desigualdade social. Enfim, na história brasileira descortina-se uma tendência, esta sim vem se mantendo constante, qual seja, o descaso para com o social.

Os tristes ciclos políticos/econômicos brasileiros bem expressam os trágicos dramas shakespeareanos, que envolvem governantes e governados, sempre recortados por fatos contundentes como guerras, conspirações, assassinatos ou crises que dão início a um fim ou a um novo começo – e assim sucessivamente.

* Miguel Chaia – Professor do Departamento de Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-SP. Pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC-SP.