Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Um "clássico" em matéria de isenção

FOLHA, 15/3/2002

O jornalão fez uma opção estratégica:
não é de oposição, nem se identifica
com alguma ideologia ou partido de oposição. Quer
apenas diferenciar-se do resto da mídia que considera "chapa
branca". Aparentemente válido: leitores e anunciantes
ainda não suspenderam as assinaturas nem cortaram os contratos.

Mas para aqueles que gostam de ler os jornais "de outro jeito"
? o público deste Observatório ? vale a pena
examinar esta edição exemplar num dia rigorosamente
insignificante. Um caso de estudo para os anais do "jornalismo
de intervenção" que está sendo inventado
nos laboratórios da Folha de S.Paulo.

Primeira página: nada de especial já que a prioridade
era internacional.

Página 2, opinião: artigo de José Sarney,
apesar de chocho, claramente contra o governo federal.

Página 3, opinião: no alto, violento artigo de Saulo
Ramos, ex-ministro de Sarney, contra o ministro da Justiça.

Página 4, noticiário político: no alto, "PFL
ameaça Serra com CPI do Grampo e cassação de
Fortes"; na parte de baixo, três outras matérias
dando seqüência às denúncias de grampo
e medidas antigrampo. Nada sobre os fatos da semana ? a corrupção
no Maranhão.

Página 5, ídem: o presidente na defensiva, "?País
perde com tricas e futricas?". Nenhuma palavra sobre as denúncias
contra os Sarney que causaram a crise.

Página 6 e 7, intervalo para a isenção ? anúncios.

Página 8, ainda notícias políticas: no alto,
manchete em oito colunas, no condicional "Maia diz que PFL
apoiaria o PT contra Serra". Evidentemente contra o candidato
do governo. No meio da página, nada de anormal, embaixo a
merecida homenagem da Academia Francesa ao amigo da casa, José
Sarney.

Página 9, mais política: "Fundo rende mais após
pesquisa do Ibope", título em oito colunas tentando
colocar sob suspeição uma sondagem abertamente patrocinada
pelo Bank of America. Nenhuma palavra sobre a pesquisa do DataFolha
que chegou aos mesmos resultados. No pé da página,
escondido em uma coluna, o único registro em toda a edição
sobre a devassa no Maranhão: "Projeto suspeito consumiu
R$ 24 milhões".

Página 10, a última antes da seção
Internacional, os escândalos de Maluf com título inteiramente
amortecido pelo desgaste, "Promotores pedem a quebra de sigilos
de Maluf e seu filho". Com títulos mornos como esses,
Maluf consegue há mais de 20 anos seu atestado de idoneidade.

A matéria mais quente, mais audaciosa e mais surpreendente
sobre os graves perigos que rondam a conjuntura política
é assinada por Luís Nassif, um dos mais respeitados
colunistas de economia, enfiada sem qualquer destaque no segundo
caderno. Corajosa denúncia contra os procedimentos da mídia,
inclusive do próprio jornal na manipulação
do noticiário político [
clique aqui

para ler o artigo de Nassif
].

Graças à sua proverbial transparência, a Folha
está conseguindo emplacar um novo tipo de jornalismo ? o
"chapa preta".