Segunda-feira, 3 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Com mobilizações populares, o antirracismo toma corpo e disputa a narrativa na França

(Foto: cottonbro studio/Pexels)

Tenho defendido que há um deslocamento em curso no debate público francês sobre raça e racismo, e ele pode ser descrito com alguma precisão a partir de mobilizações recentes vividas no país europeu. Durante décadas, o universalismo republicano operou como dispositivo de silenciamento: a tese de que todos os cidadãos são iguais perante a lei, independentemente de origem ou cor, foi convertida no argumento de que nomear a raça seria, em si, instituí-la. O efeito prático foi manter o racismo fora do vocabulário legítimo do debate, enquanto seguia operando nas estruturas.

O que se observa na França de 2026 é a ruptura desse arranjo. O racismo vem deixando a esfera da negação e está entrando, cada vez mais, na esfera da disputa cotidiana tendo como protagonistas os sujeitos que geralmente são seus alvos. As mobilizações vêm ocorrendo em várias frentes:  eleitoral, jurídica, midiática e cultural, para disputar a narrativa. Um exemplo que gostaria de apresentar é o festival “Nous en France“, realizado em Paris no último sábado, 13 de junho. A mobilização organizada por mídias independentes tornou-se um observatório privilegiado desse processo.

No Centro de Paris, das quatorze horas à uma da manhã, três veículos independentes ocuparam a Gaîté Lyrique, equipamento cultural da prefeitura de Paris, para a primeira edição do festival “Nous en France”, apresentado por seus realizadores como um festival antirracista. As mídias organizadoras foram as páginas Histoires Crépues (@histoires_crepues), Komune Média (@komune.media) e La Fabrique des Soignants (@la-fabrique_des_soignants), três mídias jovens incubadas em 2025 no programa Médias Indépendants, conduzido pela associação Arty Farty e sediado na própria Gaîté Lyrique.

Vale dizer que não se trata de instituições consolidadas nem de braços de grandes grupos de comunicação, mas de veículos digitais nascidos fora do circuito tradicional da imprensa francesa. Cada um chega ao tema da raça por uma via distinta. Histoires Crépues dedica-se à análise da história colonial francesa. La Fabrique des Soignants atua na interseção entre saúde e racismo, partindo da constatação, hoje documentada, de que as discriminações se inscrevem nos corpos e nos percursos de cuidado. Komune Média trabalha a crítica de cultura e de discurso público. Os três compartilham uma estratégia que contraria a expectativa de que veículos militantes se contentem em falar para os já convencidos: em sua comunicação pública, Histoires Crépues formula o objetivo de normalizar o antirracismo e torná-lo “mainstream”, sustentando uma cobertura de atualidade com olhar decolonial. A ambição declarada é disputar o centro do debate, não ocupar um nicho.

A questão organizadora do festival foi formulada de modo deliberado: o que a França faz com os corpos para os quais não olha? A escolha do corpo como eixo cumpre uma função precisa no contexto francês, ao permitir recusar o terreno dos discursos identitários e deslocá-lo para o registro material, o do corpo atravessado pela história colonial, pelas transmissões diaspóricas, pelas desigualdades de saúde e pelas experiências de racialização.

Em texto publicado no portal Mediapart às vésperas do evento, Kendrys Legenty, diretor de La Fabrique des Soignants, sintetiza essa operação ao elaborar a própria expressão que dá título ao festival: estar “en France” é diferente de ser “de France”. A preposição marca uma presença que ocupa o espaço sem jamais ser reconhecida como parte constitutiva da nação. Em um país que, segundo ele, continua a decidir democraticamente quem pertence à nação e quem nunca será mais do que um problema a administrar, a afirmação inverte os termos: não se trata de corpos acrescentados à França, mas de corpos que a constituem, material e simbolicamente. A tese é que não há França sem eles. Trata-se de uma reivindicação de pertencimento.

A programação articulou registros que raramente coexistem no mesmo espaço, e essa coexistência é parte do argumento. A cineasta Amandine Gay, madrinha desta edição, conduziu a mesa central e animou o debate da noite. Houve a exposição “Corps, luttes et mémoires indociles”, leituras, uma “carte blanche” a mídias emergentes, oficinas de voguing e de waacking, danças surgidas nos clubes queer e racializados dos anos 1970 como resposta corporal à exclusão, além de stand-up, performances de ballroom, DJ set e concertos. A decisão de encerrar uma jornada de reflexão crítica com uma festa não é incidental, ela inscreve a celebração e o prazer como dimensões do repertório antirracista.

A um ano de uma disputa presidencial, tudo leva a crer que o tema do antirracismo deixou de ser marginal e passou a ser objeto explícito da narrativa política e do debate público. A esquerda tem protagonizado o debate nesse sentido a partir da França Insubmissa, partido do agora candidato Jean-Luc Mélenchon, que escolheu Saint-Denis para o lançamento de sua candidatura. Em 21 de junho, durante a Fête de la Musique, celebração francesa pela chegada do verão, uma celebração antirracista ocupará a “Place de la République”. O programa combina concertos, falas militantes e uma marcha contra o racismo. O coordenador nacional do partido, Manuel Bompard, definiu a aposta ao afirmar que a intenção é fazer da campanha um momento de efervescência cultural. Segundo a imprensa francesa, a ideia teria surgido no comício realizado em Saint-Denis, no dia 7 de junho.

A cena francesa de 2026 apresenta um ponto de partida que precisa ser mantido no centro da análise: esses coletivos vêm construindo audiência, linguagem e legitimidade em um país cuja tradição republicana tratou a categoria raça como algo que não se deveria sequer nomear. Tornar esse tema um conteúdo de circulação ampla, e não apenas um objeto acadêmico ou militante, constitui um deslocamento de ordem considerável. Afinal, quando o racismo deixa de ser negado e passa a ser disputado em público, e quando essa disputa se dá ao mesmo tempo na urna, nas redes sociais, no palco e na rua, o tema torna-se estruturalmente mais difícil de silenciar. É essa configuração, mais do que qualquer episódio isolado, que justifica acompanhar de perto, inclusive do Brasil, o que se passa no debate francês contemporâneo sobre o racismo e o antirracismo.

Referências

LEGENTY, Kendrys. Nous en France: quand l’antiracisme prend corps. Mediapart, Paris, 9 jun. 2026. Disponível em: https://blogs.mediapart.fr/kendrys-legenty/blog/090626/nous-en-france-quand-lantiracisme-prend-corps. Acesso em: 16 jun. 2026.

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Diego Francisco é jornalista e doutorando em Sociologia pela UERJ e pela Université Paris 8, onde pesquisa as mobilizações antirracistas no Brasil e na França entre 2019 e 2026.