Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

O estado ‘crítico’ da imprensa

Uma pesquisa multidisciplinar em oito áreas do jornalismo nos Estados Unidos traçou um quadro sombrio e cheio de incógnitas sobre o futuro da imprensa no país.

O relatório ‘The State of the News Media 2004’ foi elaborado por um grupo de cerca de 60 professores, jornalistas e especialistas americanos sobre a imprensa nos Estados Unidos; mas, tirando os dados numéricos e algumas citações, o diagnóstico não fica muito diferente do que acontece também aqui no Brasil.

O documento de 500 páginas (o resumo executivo pode ser baixado em (www.stateofthemedia.org), divulgado no dia 15 de março, após seis meses de trabalho, diz, sem meias palavras, que a mídia americana está passando pela sua maior crise desde a invenção do telégrafo e do telefone.

A queda na qualidade da informação fornecida ao público, somada à percepção de que as empresas de comunicação do Tio Sam funcionam basicamente como grupos de interesse e pressão, abalaram a credibilidade e confiabilidade do público a um nível sem precedentes na história dos EUA.

O estudo, organizado pelo Projeto para a Excelência em Jornalismo (http://www.journalism.org/) da Universidade de Colúmbia (Nova York) e financiado pelo Pew Charitable Trust, destaca oito grandes tendências em curso:

1. A audiência das emissoras de TV e de rádio, bem como o número de leitores de jornais e revistas da chamada mídia convencional, devem continuar em queda, agravando os problemas econômicos dos grandes grupos da imprensa. Em compensação, o estudo recolheu dados mostrando um crescimento sustentado da procura por informações online e pelas mídias associadas a grupos étnicos e veículos alternativos.

2. A maior parte dos investimentos que estão sendo feitos pelos grandes grupos da imprensa privilegia a melhoria da distribuição em detrimento da produção de conteúdos. Isto significa que mais dificuldades para os profissionais e veículos comprometidos com a qualidade.

3. A pressa por disponibilizar cada vez mais informações e com maior velocidade está levando os meios de comunicação a entregar mais material bruto do que reportagens elaboradas. Esta prática, segundo o relatório, aumenta o risco da distribuição de informações inverídicas ou distorcidas antes de qualquer checagem ou correção.

4. O documento chegou também à conclusão de que a qualidade varia brutalmente até entre veículos diferentes de um mesmo grupo de comunicação. O merchandising, proibido pelos códigos de ética do jornalismo impresso, pode ser facilmente tolerado na emissora de televisão do mesmo grupo. Este fenômeno foi considerado como um dos motivos que estão levando o público a associar a cada vez mais a mídia com negócios em vez de interesse comunitário.

5. As empresas de comunicação continuam apostando na estratégia de procurar a lucratividade à base de cortes nos gastos. A conseqüência é a manutenção do enxugamento das redações e aumento da carga de trabalho dos profissionais, o que inevitavelmente levará à queda dos padrões de qualidade, com reflexos negativos, também inevitáveis, nos índices de audiência e leitura.

6. Os dados recolhidos pelos pesquisadores mostram que a convergência digital, vista como o grande vilão da mídia convencional, deixou de ser tão assustadora e está até ajudando alguns grandes grupos de comunicação a reduzir a evasão de público. É o caso das versões online de vários jornais americanos.

7. Outra constatação: o grande desafio do jornalismo online não é tecnológico e sim econômico. Não há mais dúvidas de que a informação por meio da internet ocupará espaços cada vez maiores na comunicação social – o problema é a sua viabilidade financeira. As fórmulas da mídia convencional não funcionaram até agora. O dilema é como tornar rentável o jornalismo online.

8. Os manipuladores da informação, através de recursos como marketing e advocacy, exercem uma influência cada vez maior na agenda noticiosa da imprensa, por conta do menor poder de barganha dos jornalistas comprometidos com a qualidade e a isenção.

O diagnóstico da realidade e das tendências está longe de ser róseo para a imprensa americana. Por isto ela reagiu de forma quase envergonhada diante da exposição pública de suas mazelas. Jim Romanesko, um dos mais lidos críticos de mídia dos EUA, dedicou um curto comentário, no dia do lançamento do estudo, que pode ser encontrado em (http://poynter.org/column.asp?id=45).

Howard Kurtz, repórter de mídia do Washington Post, gastou apenas 20 linhas para comentar o estudo (http://www.washingtonpost.com/ac2/wp-dyn/A59010-2004Mar14?language=printer) numa matéria dedicada a desvios de conduta entre jornalistas americanos.

O consultor de mídia Vincent Crosbie (http://www.ojr.org/ojr/business/1079553393.php) foi menos econômico sem chegar a fazer grandes elogios ao trabalho dos quase 30 especialistas comandados pelo professor Tom Rosenstiel, um ex-repórter do Los Angeles Times e da revista Newsweek.

No Brasil, o site BlueBus (http://www.bluebus.com.br/index2.frm ) deu uma nota (em 16/2) sobre a divulgação do ‘The State of the News Media 2004’.

Nas suas conclusões, o estudo destaca o que classificou de ‘circulo vicioso’ da crise: queda na qualidade informativa gerando desconfiança do público, o que reduz audiência e circulação, aliada à queda de receitas e novos cortes nas redações, de onde sai a qualidade na informação.

Os autores admitem que a quebra deste círculo vicioso será difícil – ‘porque o jornalismo tornou-se uma atividade muito complexa’ – e deixam no ar uma série de perguntas entre as quais a mais inquietante é:

‘Quanto tempo o jornalismo conseguirá suportar o descrédito do público consumidor de notícias?’

******

Jornalista e pesquisador de mídia eletrônica, e-mail (cacastilho@brturbo.com)