Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

O padrão Globo e o adestramento para a cidadania

Somos o país do futebol – e adoramos uma polêmica. Craques, no vasto campo do senso comum, driblamos qualquer assunto, prontos a uma opinião formada sobre quase tudo. E as mídias sociais estão aí para comprovar como somos prolíferos também no escracho e no enxovalho. E para ficar na seara dos ditados populares (ou na grande área), se política e religião não se discutem (ou nem tanto), ao futebol não se aplica a regra, embora disciplinado por muitas regras. Não fosse assim, não haveria sempre um terceiro tempo para discutir os lances polêmicos. E ensinando vamos aprendendo, ou pelo menos deveríamos.

Parece que tudo é uma questão de treino, disciplina e polpudos contratos (estes últimos não para o populacho e aficionados) – e quem tem assistido às transmissões esportivas, principalmente aos jogos das finais da Liga dos Campeões da Uefa ou os amistosos da seleção brasileira, pôde notar a insistência com que os apresentadores e comentaristas (até mesmo jogadores entrevistados) clamam pelo bom comportamento, disciplina e educação dos torcedores que lotam as arenas. O apelo é constante. E pelo visto (e ouvido), o adestramento já começou. Agora, sim, aprenderemos a nos comportar. E não faltam elogios aos torcedores quando dão um espetáculo (ainda que não tenham assistido a um dentro do campo) nas arquibancadas.

Eis os novos tempos – e o preço de nosso atrasado ingresso (além dos superfaturamentos) no mundo civilizado, pois foi preciso um padrão Fifa de homogeneização para nos dizer como devemos ser e agir já que nos tornamos bem crescidos (e nem sempre educados, embora acostumados a ser mal tratados). E, em se tratando de padrões, a Globo repete as lições à exaustão, uma vez que possui know-how no assunto. Basta ver o sucesso goela abaixo de Big Brothers, novelas insossas, seriados & afins. Estamos a salvo. Falta, além de nos dizerem o que consumir, comer e beber, padronizar as comemorações e formatar nossa alegria.

Aprendendo cidadania

Não deixa de ser triste, já que tanto se discute a qualidade da educação no país e cada vez mais se prometem investimentos para essa área (as profundezas do pré-sal que o digam) – investimentos que muitas vezes se diluem nos escaninhos burocráticos de administrações estaduais e municipais, em indigestas gestões pouco transparentes ou ineficientes.

E se os indicadores de melhoria educacional crescem lentamente, o resultado disso se traduz não somente no despreparo para a vida, para o mundo profissionalizante, para o avanço tecnológico, mas também na falta ou carência de cidadania, no exercício pleno dos direitos democráticos. Daí a importância da aplicação correta de recursos para a educação, aliada a uma política que também contemplasse a melhoria da qualidade de vida das pessoas, com moradia adequada, transporte, atendimento de saúde digno, possibilidade de lazer e cultura, planejamento das cidades etc.

De qualquer forma, uma coisa vem atrelada a outra – e encurtar caminhos sempre parece mais fácil (e menos demorado). Há sempre uma solução pronta e paliativa mesmo que o mal seja estrutural. De muitos contrastes se faz o quadro. Da fatia maior do bolo serve-se quem pode mais. Mas essa metáfora não serve ao futebol. E vêm aí Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas. Então, se não aprendemos (um pouco de cidadania) no convívio sociofamiliar e nos bancos escolares, aprenderemos em frente à TV. Finalmente, em campo a Globo e a Fifa estão a nos civilizar.

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Afonso Caramano é funcionário público (Jaú, SP)