Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

José Queirós

“Em tem­pos como os que vive­mos, não pode ser des­cu­rado o máximo rigor na infor­ma­ção dada aos lei­to­res sobre as medi­das anun­ci­a­das pelo governo com inci­dên­cia nas con­di­ções de vida ou de sobre­vi­vên­cia dos cida­dãos. Sendo o rigor infor­ma­tivo uma qua­li­dade que sem­pre se exige ao jor­na­lismo de refe­rên­cia, a sen­si­bi­li­dade social natu­ral­mente exa­cer­bada face a notí­cias como as que por estes dias deram conta das inten­ções gover­na­men­tais em maté­ria de novas medi­das ditas de aus­te­ri­dade deve­ria obri­gar a um esforço redo­brado de aten­ção edi­to­rial à vera­ci­dade da infor­ma­ção difundida.

Foi o que não acon­te­ceu na edi­ção do PÚBLICO da pas­sada quarta-feira, em rela­ção às novas medi­das anun­ci­a­das pelo minis­tro das Finan­ças. Ao con­trá­rio da gene­ra­li­dade da comu­ni­ca­ção social, este jor­nal infor­mou, erra­da­mente, que o governo pre­ten­de­ria incluir no pró­ximo Orça­mento do Estado um corte nas pen­sões dos refor­ma­dos da fun­ção pública, quando o que foi anun­ci­ado foi a dimi­nui­ção, entre 3,5% e 10%, de todas as refor­mas de valor supe­rior a 1500 euros.

Como bem notou o lei­tor Car­los Vaz, desde o que se escre­veu na capa do jor­nal (‘Um terço dos refor­ma­dos da fun­ção pública será afec­tado pelos cor­tes’) ao que se noti­ciou no seu inte­rior, ‘os títu­los e os tex­tos levam a pen­sar que os cor­tes nas refor­mas são para os refor­ma­dos da fun­ção pública, quando na rea­li­dade vão (apa­ren­te­mente) ser apli­ca­dos a todos os refor­ma­dos que ganhem mais de 1500 euros’. De facto, o erro estava coe­ren­te­mente pre­sente ao longo das pági­nas dedi­ca­das nessa edi­ção ao tema ‘ava­li­a­ção datroika’: a omis­são dos refor­ma­dos do sec­tor pri­vado como sendo parte do alvo da nova medida diri­gida con­tra os pen­si­o­nis­tas, enga­nando assim os lei­to­res quanto ao seu alcance, era patente no texto de aber­tura, na info­gra­fia que o acom­pa­nhava e na peça espe­ci­fi­ca­mente dedi­cada à redu­ção das refor­mas de valor acima do indicado.

Na edi­ção seguinte, o erro foi cor­ri­gido, mas não assu­mido, o que só terá con­tri­buído para agra­var a con­fu­são dos lei­to­res que têm neste jor­nal a sua fonte pri­vi­le­gi­ada de acom­pa­nha­mento da actu­a­li­dade. Em duas dis­cre­tas linhas a meio de uma peça inti­tu­lada ‘Reces­são em 2013 obriga ao dobro da aus­te­ri­dade’, escreveu-se que está nas inten­ções do governo ‘um corte nas pen­sões entre 3,5% e 10%’, sem repe­tir o dado falso de que este visa­ria ape­nas os fun­ci­o­ná­rios públi­cos, mas tam­bém sem qual­quer expli­ca­ção sobre a infor­ma­ção enga­nosa divul­gada na véspera.

Mais um dia vol­vido e lá se pôde encon­trar, na edi­ção de ante­on­tem, uma frase des­ta­cada ao alto da página 11, repondo a ver­dade de forma um pouco mais visí­vel. E sur­gia, enfim, mas reme­tido para o final de um texto e de novo sem qual refe­rên­cia ao que se anun­ci­ara dois dias antes com des­ta­que, um esboço de expli­ca­ção do suce­dido. ‘O minis­tro das Finan­ças’, escreveu-se, ‘não disse cla­ra­mente que assim seria na pas­sada terça-feira, mas o Governo aca­ba­ria por con­fir­mar’ que a tal ‘redu­ção’ das pen­sões abran­ge­ria os refor­ma­dos do sec­tor privado.

Não tendo sido infor­mado sobre o que se pas­sou ao certo, pre­sumo que o erro de inter­pre­ta­ção do anún­cio feito por Vítor Gas­par terá sido detec­tado na redac­ção do PÚBLICO logo na manhã de quarta-feira. Assim se expli­cará a publi­ca­ção de uma pequena notí­cia, ao prin­cí­pio da tarde desse dia, na edi­ção on line, infor­mando cor­rec­ta­mente que a inten­ção do governo é a de impor um corte em ‘todas as pen­sões acima de 1500 euros’. Nela se ante­ci­pava já — sem nunca refe­rir o erro patente na edi­ção impressa — a jus­ti­fi­ca­ção de que o minis­tro não se expri­mira ‘cla­ra­mente’, ao dizer que seria ‘apli­cada uma redu­ção às pen­sões cor­res­pon­dente à redu­ção apli­cada aos fun­ci­o­ná­rios públi­cos em 2011’.

É uma expli­ca­ção pífia, tal como a solu­ção encon­trada para ten­tar reme­diar um erro ape­nas impu­tá­vel ao PÚBLICO. A frase do minis­tro não sig­ni­fica o que foi enten­dido por quem escre­veu as notí­cias da edi­ção de quarta-feira. Mesmo admi­tindo que pudesse gerar alguma dúvida, impunha-se então con­fir­mar o seu sen­tido, antes de se avan­çar com uma inter­pre­ta­ção con­trá­ria à que, já na noite de terça-feira, era vei­cu­lada por outros meios de comunicação.

Não tendo isso sido feito, impunha-se, pelo mínimo res­peito devido ao escla­re­ci­mento dos lei­to­res, que o erro tivesse sido cla­ra­mente assu­mido na edi­ção impressa, na qual sur­gira com grande visi­bi­li­dade e cujos lei­to­res, como bem sabem os res­pon­sá­veis edi­to­ri­ais do PÚBLICO, não são neces­sa­ri­a­mente os mes­mos da edi­ção on line.

Que é con­ve­ni­ente reflec­tir sobre o que se lê ou ouve antes de redi­gir ou edi­tar infor­ma­ções que deve­riam sus­ci­tar dúvida ou per­ple­xi­dade mostra-o outro caso ocor­rido nos últi­mos dias. Na noite do pas­sado domingo foi colo­cada no Público Online uma notí­cia inti­tu­lada ‘Hol­lande garante imposto extra para os ricos e pro­mete pou­par 33 mil milhões’, na qual se afir­mava que ‘dez mil milhões” do valor a aba­ter na des­pesa pública em França ‘serão obti­dos com cor­tes na edu­ca­ção, jus­tiça e segurança’.

Esta infor­ma­ção, falsa, era o exacto con­trá­rio daquilo que o pre­si­dente fran­cês anun­ci­ara pouco antes numa entre­vista tele­vi­siva, em que garan­tira que, tal como pro­me­tera na cam­pa­nha elei­to­ral, esses sec­to­res seriam pou­pa­dos às medi­das de con­ge­la­mento ou redu­ção de des­pesa e de pes­soal. Bas­ta­ria, para o per­ce­ber, con­sul­tar os rela­tos sobre as decla­ra­ções de Hol­lande em qual­quer meio de comu­ni­ca­ção fran­cês. A notí­cia pro­vo­cou pro­tes­tos de vários lei­to­res, que per­gun­ta­vam se não há no PÚBICO quem saiba ler e tra­du­zir fran­cês, ou quem conheça o mínimo da actu­a­li­dade polí­tica fran­cesa para se ini­bir de publi­car, sem veri­fi­ca­ção, uma infor­ma­ção que, a ser ver­da­deira, con­tra­ri­a­ria as expec­ta­ti­vas cri­a­das por Hollande.

Vic­tor Fer­reira, edi­tor do Público Online, explica que a notí­cia em causa resul­tou ‘fun­da­men­tal­mente’ de ‘um des­pa­cho de agên­cia publi­cado no domingo à noite’, e refere que o erro, que ‘terá sido moti­vado por uma defi­ci­ente inter­pre­ta­ção das pala­vras’ de Hol­lande, ocor­reu numa noite de fim-de-semana em que ‘as equi­pas de tra­ba­lho são mais peque­nas’ e a actu­a­li­dade naci­o­nal domi­nava as aten­ções — fac­tos que impor­ta­rão para o debate interno, mas que não são rele­van­tes para jus­ti­fi­car a falta de rigor. Omi­tir ou adiar a publi­ca­ção de uma notí­cia é pre­fe­rí­vel a dar infor­ma­ções falsas.

Quanto à demora na cor­rec­ção do erro — a notí­cia só foi alte­rada na tarde de quarta-feira, ape­sar de “ter havido lei­to­res que assi­na­la­ram o erro na caixa de comen­tá­rios’ —, o edi­tor volta a invo­car pro­ble­mas de orga­ni­za­ção e excesso de tra­ba­lho (‘nem sem­pre há tempo e dis­po­ni­bi­li­dade para regres­sar às notí­cias e ver o que dizem os lei­to­res’), mas recorda que ‘os edi­to­res de comen­tá­rios têm ins­tru­ções’ segundo as quais ‘comen­tá­rios que apon­tam erros devem ser sina­li­za­dos de ime­di­ato ao edi­tor res­pec­tivo’. O que não foi feito, tendo a infor­ma­ção errada per­ma­ne­cido em linha até ele pró­prio regres­sar à redac­ção após os seus dias de folga e pro­mo­ver a cor­rec­ção do erro.

Neste epi­só­dio acumulam-se, na minha opi­nião, várias prá­ti­cas noci­vas. Publica-se em ritmo de cor­rida infor­ma­ção de agên­cia, sem veri­fi­car as fon­tes ori­gi­nais. Entrega-se a redac­ção a quem noto­ri­a­mente não domina a maté­ria tra­tada e não sente neces­si­dade de con­sul­tar quem a conheça. Desprezam-se os aler­tas dos lei­to­res aten­tos. E, sobre­tudo, mostra-se como as duas redac­ções do PÚBLICO podem fun­ci­o­nar, incom­pre­en­si­vel­mente, de cos­tas vol­ta­das, sem comu­ni­ca­rem entre si. Da notí­cia sobre a entre­vista de Hol­lande publi­cada no jor­nal de segunda-feira (que terá cer­ta­mente sido redi­gida quase ao mesmo tempo que o texto da edi­ção on line), não consta a infor­ma­ção errada. E, no dia seguinte, um texto pagi­nado com des­ta­que na edi­ção impressa rela­tava de modo claro e cor­recto as decla­ra­ções do pre­si­dente fran­cês, enquanto no Público Online per­ma­ne­cia (e per­ma­ne­ce­ria ainda mais um dia) a sua ‘inter­pre­ta­ção’ detur­pada. É caso para se dizer que nem se lêem os avi­sos dos lei­to­res nem as notí­cias do pró­prio jornal.

A acres­cer a tudo isto, que não é pouco, somam-se sinais de que há quem escreva sem saber o que diz e, pior, de quem edite tex­tos ou feche pági­nas sem pen­sar duas vezes no que lê e sem detec­tar erros cras­sos. Só assim se explica (e refiro ape­nas alguns exem­plos cita­dos nos últi­mos dias por lei­to­res mais indig­na­dos) que se possa encon­trar uma refe­rên­cia às ‘inva­sões napo­leó­ni­cas, no iní­cio do século XIV’ (página 26 da edi­ção de 5 de Setem­bro), ou ao ‘tom ale­ga­da­mente apo­lo­gé­tico’ — como se em por­tu­guês ‘apo­lo­gia’ fosse o mesmo que ‘des­culpa’ — atri­buído por res­pon­sá­veis do Par­tido Repu­bli­cano dos EUA ao modo como a embai­xada norte-americana no Cairo se pro­nun­ciou, em comu­ni­cado, acerca do filme sobre Maomé que tem vindo a incen­diar as pra­ças de paí­ses muçul­ma­nos (página 23 da edi­ção do dia 13). Ou ainda, para ir ao mais básico, que se tenha pre­visto para o pas­sado (e quente) dia 2 uma tem­pe­ra­tura mínima de cinco graus nega­ti­vos em Lis­boa (página 43 da edi­ção dessa data). Os lei­to­res mere­cem melhor.”