Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

José Queirós

“Entre as com­pe­tên­cias de um pro­ve­dor do lei­tor, pelo menos tal como as entendo, não está a de se pro­nun­ciar sobre o con­teúdo de arti­gos de opi­nião publi­ca­dos no jor­nal. Devo essa expli­ca­ção aos lei­to­res que se me diri­gem, pro­tes­tando con­tra ideias defen­di­das em tex­tos de colu­nis­tas regu­la­res ou cola­bo­ra­do­res oca­si­o­nais do PÚBLICO. Se uma parte des­ses pro­tes­tos se limita a mani­fes­tar uma opo­si­ção gené­rica às teses de um arti­cu­lista, outras vezes con­têm argu­men­tos úteis ao debate público, que deve­riam ser cana­li­za­dos para o jor­nal sob a forma de comen­tá­rios, car­tas à direc­tora ou pro­pos­tas de tex­tos de opinião.

Julgo que é justo reco­nhe­cer a impor­tân­cia que o PÚBLICO desde sem­pre deu ao con­fronto de opi­niões e estou certo de que os tex­tos agru­pa­dos na sec­ção Espaço Público e em outras áreas de opi­nião, interna ou externa, são dos mais pro­cu­ra­dos e apre­ci­a­dos por mui­tos lei­to­res. É tam­bém pela capa­ci­dade de esti­mu­lar o debate público que se ava­lia a qua­li­dade de um jor­nal. O escru­tí­nio da área de opi­nião é por isso legí­timo e mesmo indis­pen­sá­vel, mas a dis­cus­são das ideias defen­di­das pelos auto­res dos tex­tos é estra­nha à voca­ção deste espaço. Para além da com­pe­tên­cia for­mal, faltar-me-ia aliás, para tanto, tam­bém a com­pe­tên­cia substantiva.

Coisa dife­rente são as dúvi­das e quei­xas dos lei­to­res que, acerca de arti­gos de opi­nião, levan­tam pro­ble­mas que devem ser con­si­de­ra­dos à luz das regras éticas, dos valo­res assu­mi­dos pelo jor­nal ou da vera­ci­dade de fac­tos invo­ca­dos. A algu­mas des­sas ques­tões pro­cu­ra­rei hoje come­çar a responder.

Vem este intróito a pro­pó­sito de várias car­tas que recebi, pedindo-me que me pro­nun­cie sobre posi­ções expres­sas na polé­mica his­to­ri­o­grá­fica que desde o iní­cio de Agosto se tra­du­ziu já em duas deze­nas de arti­gos publi­ca­dos neste jor­nal, tendo por ponto de par­tida um texto crí­tico de Manuel Loff (his­to­ri­a­dor e colu­nista regu­lar do PÚBLICO) sobre a His­tó­ria de Por­tu­gal coor­de­nada por Rui Ramos, ou, mais pre­ci­sa­mente, sobre a parte dessa obra, redi­gida por este último his­to­ri­a­dor, dedi­cada ao período do Estado Novo.

Sem cui­dar aqui da subs­tân­cia da polé­mica, saúdo porém o facto de essa subs­tân­cia ter vindo a afirmar-se em algu­mas das últi­mas peças do debate, em con­traste com méto­dos con­tro­ver­sos de argu­men­ta­ção e ata­ques de natu­reza pes­soal que mar­ca­ram a fase ini­cial da dis­cus­são e foram motivo de crí­ti­cas diri­gi­das por lei­to­res a alguns dos pro­ta­go­nis­tas desta que­rela his­to­ri­o­grá­fica sobre a natu­reza do regime dita­to­rial der­ru­bado em 1974. A impor­tân­cia do tema para a repre­sen­ta­ção que faze­mos de um pas­sado recente, e ainda vivo na memó­ria de mui­tos, torna dese­já­vel que o PÚBLICO incen­tive a con­ti­nu­a­ção do debate (que ainda sabe a pouco), tra­zendo para fora dos muros aca­dé­mi­cos o con­fronto de inter­pre­ta­ções his­to­ri­o­grá­fi­cas em torno do salazarismo.

Um dos lei­to­res que tem cri­ti­cado o que con­si­dera ser o estilo e con­teúdo'agres­si­vos' de cer­tas colu­nas de opi­nião per­gunta se não existe'um guia de boas prá­ti­cas' ou'um código de reco­men­da­ções' para os seus auto­res. A res­posta encontra-se no Livro de Estilo do PÚBLICO, onde se lê que'o desas­som­bro polé­mico' é'neces­sá­rio à vita­li­dade do jor­nal', mas se espe­ci­fica que os tex­tos de opi­nião — que podem natu­ral­mente ser recu­sa­dos, mas não podem ser alte­ra­dos sem'pré­via auto­ri­za­ção do autor' — estão sujei­tos'ao res­peito pela lin­gua­gem não insul­tu­osa e não pan­fle­tá­ria' a que o jor­nal'se obriga', bem como aos'pre­cei­tos de isen­ção ética e rigor de escrita' com que se iden­ti­fica. E ainda, natu­ral­mente, a'cri­té­rios míni­mos de qua­li­dade'. São estas as regras, é por elas que devem ser afe­ri­das as deci­sões editoriais.

A última remo­de­la­ção do Espaço Público pas­sou a divi­dir os tex­tos de auto­res exter­nos ao seu qua­dro de colu­nis­tas em duas cate­go­rias, desig­na­das como'Debate' e'Tri­buna'. Nuno Pacheco, direc­tor adjunto e res­pon­sá­vel mais directo pela área de opi­nião, explica que essas cate­go­rias'foram cri­a­das para dis­tin­guir (…) arti­gos mais dados a inter­vir em polé­mi­cas em curso na soci­e­dade por­tu­guesa, seja em que área for (e estes devem assi­na­la­dos como Debate) de outros em que sim­ples­mente se dá voz a per­so­na­li­da­des, cida­dãos ou gru­pos de cida­dãos (caso de mani­fes­tos) para expo­rem ideias ou faze­rem ape­los sob diver­sos pre­tex­tos (e aqui serão assi­na­la­dos como Tri­buna)'. A dis­tin­ção é útil, mas algum des­leixo tem levado ao seu esque­ci­mento (“surge Debate onde devia sur­gir Tri­buna'), erro que o direc­tor adjunto anun­cia ir ser corrigido.

Qual­quer que seja a clas­si­fi­ca­ção, o que não pode ser con­fun­dido com um artigo de opi­nião é um texto de natu­reza publi­ci­tá­ria. Para isso aler­ta­ram, a meu ver com toda a razão, dois lei­to­res que se insur­gi­ram con­tra a inclu­são no Espaço Público, na edi­ção de 27 de Agosto pas­sado, do artigo inti­tu­lado'Cons­truir a uni­ver­si­dade do futuro', assi­nado por Nél­son San­tos de Brito, na qua­li­dade de'CEO p/Portugal da Lau­re­ate Inter­na­ti­o­nal Uni­ver­si­ties'. O texto é, basi­ca­mente, um elo­gio da orga­ni­za­ção que dirige. A considerar-se que as infor­ma­ções que con­tém teriam inte­resse jor­na­lís­tico, deve­riam ter sido tra­ta­das de acordo com as regras pro­fis­si­o­nais de ela­bo­ra­ção de notícias.

Tal como foi publi­cado, o texto em ques­tão não é, escre­veu o lei­tor Edu­ardo Costa Dias,'nem uma peça jor­na­lís­tica nem um artigo de opi­nião, mas sim um pan­fleto publi­ci­tá­rio metido pela porta do cavalo'. Mada­lena Oli­veira enviou-me por seu lado a nota que publi­cou no blo­gue'Jor­na­lismo e Comu­ni­ca­ção', em que começa por refe­rir:'O título interessou-me e li o texto com expec­ta­tiva sobre o anun­ci­ado debate sobre o ensino supe­rior (é isto que se lê na linha que sucede o título — Debate / Ensino Supe­rior). Acon­tece que, depois de meia dúzia de linhas com ideias gené­ri­cas sobre o que deve ser a cha­mada uni­ver­si­dade do futuro, o autor mais não faz do que a pro­mo­ção de um inves­ti­mento', em Lis­boa, da enti­dade de que é'o director-geral (…) para Portugal'.

“É a este tipo de tex­tos'— ques­ti­ona a lei­tora —,'que deve cor­res­pon­der o género jor­na­lís­tico opi­nião? A acções de mar­ke­ting? Onde fica o genuíno e des­com­pro­me­tido debate de ideias?' E ainda:'Que cri­té­rios tem, afi­nal, esta edi­to­ria do PÚBLICO para sele­ci­o­nar os cha­ma­dos opi­nion makers a quem dá espaço?'. Nuno Pacheco reco­nhece o erro:'O iní­cio do texto (…) enun­cia, na ver­dade, alguns pres­su­pos­tos para jus­ti­fi­car o título, mas o resto é a afir­ma­ção e elo­gio de um pro­jecto (aquele em que está pes­so­al­mente envol­vido) e tem, na ver­dade, um tom pro­pa­gan­dís­tico que não se coa­duna nem com o título do artigo nem com a sec­ção onde se insere'.

Outra cha­mada de aten­ção que me che­gou refe­rente a maté­rias da sec­ção Espaço Público cri­ti­cava no plano ético um artigo sobre a crise do euro assi­nado em 15 de Junho pas­sado pelo colu­nista Domin­gos Fer­reira, suge­rindo que uma parte desse texto esta­ria'no limite do plá­gio', ao uti­li­zar, sem cita­ção, excer­tos de um outro artigo, da auto­ria de um aca­dé­mico ale­mão, publi­cado três dias antes no New York Times. Con­sul­tei essa edi­ção do diá­rio nova-iorquino e não me res­ta­ram dúvi­das: os pará­gra­fos finais do texto em causa limitavam-se a trans­cre­ver, com muito ligei­ras adap­ta­ções, e sem nunca refe­rir a ori­gem, o que fora escrito no jor­nal norte-americano. Con­fron­tado com o facto, o colu­nista do PÚBLICO apre­sen­tou des­cul­pas à direc­ção do jor­nal, expli­cando que se tra­tara de'um engano no envio do ficheiro', tendo sido reme­tida para publi­ca­ção uma ver­são ante­rior à revi­são do artigo.

Para outra opor­tu­ni­dade ficará a dis­cus­são de uma ques­tão impor­tante sobre os arti­gos de opi­nião: até que ponto a iden­ti­fi­ca­ção de um arti­cu­lista deve, em nome da trans­pa­rên­cia, incluir dados que o rela­ci­o­nem com pos­sí­veis inte­res­ses na maté­ria sobre a qual se pro­nun­cia? Deixo aqui a des­cri­ção em linhas muito gerais de um caso recente.

No dia 14 de Agosto foi publi­cado, sob o rótulo'Debate/Floresta e recur­sos natu­rais' um texto inti­tu­lado'Os pre­juí­zos do euca­lipto', cujo autor, iden­ti­fi­cado como enge­nheiro agró­nomo, con­tra­ri­ava crí­ti­cas conhe­ci­das à expan­são daquela espé­cie. Um lei­tor rea­giu, afir­mando que o arti­cu­lista em ques­tão'não é um agente inde­pen­dente', por ser asses­sor da admi­nis­tra­ção de uma grande empresa com inte­res­ses na fileira do euca­lipto, e defen­deu que esse facto deve­ria ter sido refe­rido na iden­ti­fi­ca­ção do autor. Essa suges­tão foi divul­gada nas Car­tas à Direc­tora e expres­sa­mente aco­lhida numa Nota da Direcção.

Seguiu-se uma inte­res­sante troca de men­sa­gens entre o arti­cu­lista e o lei­tor, de que me foi dado conhe­ci­mento e que podem ser con­sul­ta­das no meu blo­gue. O autor do artigo argu­menta, nome­a­da­mente, que as suas'opi­niões pes­so­ais' não têm de ser con­fun­di­das com as da empresa e diz recear os efei­tos per­ver­sos de uma trans­pa­rên­cia'exces­siva', que pode­ria por exem­plo, no caso de um artigo de tema polí­tico, levar a que­rer saber'de que par­tido é ou em qual vota' quem o escre­veu. Que pen­sam desta troca de razões os lei­to­res que seguem com inte­resse as pági­nas de opinião?”