Tuesday, 21 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Tânia Alves

Qual a nossa responsabilidade, enquanto formadores de opinião, pela disseminação da intolerância e a falta de compaixão que se entrelaçam com o discurso de ódio hoje em dia? A pergunta, que não tenho resposta, vou logo avisando, me veio esta semana após ler sobre a morte por linchamento de um homem que tentou roubar um estabelecimento na periferia de São Luís. A notícia foi publicada no O POVO, Editoria Brasil, da quarta-feira passada, 8. Cledenilson Pereira Silva, de 29 anos, foi despido, amarrado num poste de luz e agredido a socos, pontapés e garrafadas. As fotos que se espalharam pelas redes eram chocantes.

No dia seguinte, quinta-feira, o fato virou tema da coluna do Henrique Araújo, publicada no Vida & Arte, com o tema “A voz do povo” e também da charge do O POVO. Como é de praxe, a ilustração foi postada na manhã nas redes sociais da empresa. No Facebook, até a noite da sexta-feira, a charge tinha 672 compartilhamentos e 1.761 curtidas. No entanto, o que chamava a atenção era a quantidade de comentários raivosos, como se quisessem linchar moralmente o jornal e o autor do desenho. A maioria deles se valia de argumentos do tipo, se está com pena, leva para casa, bandidos x cidadãos de bem, quem defende marginal é marginal, defensores de bandidos e até desejando que o chargista fosse atingido por atos de violência. São discursos vistos e ouvidos, em alguns casos nos meios de comunicação, e replicados à exaustão. O primeiro deles que dizia que “só bandido, ganha espaço no jornal” tinha mais de 200 curtidas. A generalização tomada como verdadeira não se sustenta na realidade. Não se firma se for analisado, sem paixão, o noticiário publicado por aqui.

DIREITO À VIDA

Lendo os comentários ocorreu-me que estas mesmas pessoas destilando ódio abaixo da charge poderiam, em seu dia a dia, postar fotos de crianças sorrindo, famílias felizes e vídeos com músicas falando em Deus. E diante daquela cena, em nenhum momento, sentiram empatia com o sofrimento e a passagem dolorosa do homem de São Luís. Não entendo como uma cena degradante e chocante de uma pessoa negra despida, amarrada em um poste, não provoque compaixão. A fala dos internautas revela, em muito, a falta de presença do Estado. Sem conseguir dar uma resposta contínua, quer seja na segurança, educação e serviços básicos, afunda a sociedade na descrença. Aliado a isso, o nosso papel como comunicadores. Em muitos casos, setores da imprensa alimentam o discurso do ódio, sem que seja feito por outros órgãos de mídia cientes de seu papel um contraponto eficaz. Já escrevi por aqui e repito: os comentários são preciosos, desde que feitos com coerência, dentro de princípios que regem a boa convivência. Ao linchamento moral cabe a lei. A charge reproduzida acima chama para a nossa responsabilidade. A coluna “A voz do povo”, também. Não representam proteção de bandidos, mas sustentam a defesa das instituições e do direito à vida. É assim que deve ser.

O RESULTADO QUE FALTOU

Leitor enviou email esta semana criticando a falta de uma notícia sobre a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino no O POVO. Ele considerava uma atitude machista o fato de o caderno de Esportes não ter informado qual foi o time campeão da competição. “No Caderno de Esportes do último sábado, dia 4/7, e no domingo, 5/7, não há nenhuma menção à final da Copa do Mundo de Futebol Feminino que ocorria naquele dia no Canadá”.

A editora de Esportes, Ana Flávia Gomes, explica que, após a eliminação do Brasil, as agências de notícias, que O POVO tem contrato pararam de produzir sobre o evento. “E isso gerou prejuízos. Não tem absolutamente nada a ver com preconceito, até porque a editora habitual do caderno é uma mulher. Enquanto fomos abastecidos, fizemos o melhor acompanhamento possível”. Ela pondera ainda que, com a eliminação do Brasil, também houve menor interesse do público no evento.

Mesmo considerando o desinteresse das agências, houve falha na cobertura ao não mostrar o resultado final da Copa, com a vitória das meninas dos Estados Unidos sobre o Japão. Embora não contando mais com a participação do Brasil, era necessário publicar, pelo menos, uma nota informando o campeão. Associar a falta da notícia ao machismo, como disse o leitor, não tem razão de ser. O POVO é um jornal que busca a pluralidade em sua cobertura.