segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

O maior festival de documentários do mundo homenageia o jornalismo

(Foto: Divulgação)


Foi uma longa jornada!
Em 1970, aos 16 anos, cometi a ousadia de participar do prestigioso Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil com um documentário, Visões da Química Geral.

(Foto: Antonio Brasil)


Com apoio do Centro Educacional de Niterói, um grupo de alunos apaixonados por cinema e, principalmente, por documentários, conseguiu produzir um breve ensaio cinematográfico sobre as experiências mais visuais e intrigantes no nosso laboratório de química.
Foi mais do que uma ousadia. Foi um sonho impossível que se tornou realidade.
Sempre adorei documentários, os filmes sobre a realidade e, principalmente, os documentários jornalísticos.
Há alguns dias, depois de quase cinquenta anos, realizei outro grande sonho: participar, dessa vez como jornalista, do Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, o maior e melhor festival de filmes documentários do mundo.

(Foto: Antonio Brasil)


Este ano, o jornalismo foi um dos grandes homenageados do IDFA com uma seleção especial de documentários sobre o tema e a presença de jornalistas importantes, como o correspondente de guerra Robert Fisk, do The Independent. Ele teve sua longa e bem sucedida carreira mostrada em um excelente documentário com título muito apropriado de This is not a movie, dirigido por Yung Chang.
Carta ao editor
Dentre mais de 300 filmes, pude assistir algumas obras-primas que comprovam que a arte e a paixão pelos documentários nunca estiveram tão bem representadas – e que, em tempos de “falsas verdades”, ou fake news, os filmes sobre a realidade nunca foram tão necessários.
Meus destaques de melhores vão para Letter to the editor, do grande cineasta Alan Berliner, uma linda homenagem ao jornalismo de qualidade do New York Times. Berliner colecionou fotos dos jornais durante quarenta anos e fez uma colagem sensacional sobre “the old grey lady” (“a velha senhora cinza”), como é conhecido o NYT. Falando assim, parece ser um filme qualquer, mas garanto que é um dos melhores já produzidos por quem é apaixonado ou “viciado” em notícias. Deveria ser exibido em todas os cursos de jornalismo, principalmente para quem ainda tem dúvidas de que essa é “a melhor profissão do mundo” (Gabriel García Márquez). Imperdível!
The Apollo
Era pra ser o melhor documentário do festival…
Até eu assistir The Apollo, de Roger Ross Williams. Quem me conhece e acompanha meus posts sabe da paixão pelo rhythm and blues, jazz e pela música negra americana em geral.
O documentário é um tributo ao templo sagrado dessa música. Em pleno Harlem, em Nova York, um pequeno teatro recebeu todos os grandes nomes da música negra americana. Estive lá algumas vezes e confesso que o lugar é mágico! Tem algo de cada uma das estrelas que se apresentaram no Apollo.
O filme é uma seleção preciosa de imagens de arquivo com astros como Aretha Franklin (sempre ela, minha ídala), Stevie Wonder aos 16 anos, Diana Ross and The Supremes, Duke Ellington, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, James Brown (que se apresentou 220 vezes no Apollo e, ao morrer, recebeu grande homenagem com corpo presente) e muito, muito mais.
O documentário não tem só imagens do passado, mas inclui apresentações recentes e comentários de personagens importantes. Roger Williams resgata o melhor não só da música, mas da cultura negra em geral. Não poderia deixar de destacar a visita do único presidente americano que teve a coragem (o público que frequenta o Apollo também é famoso pelas vaias e críticas) de pisar naquele palco sagrado, Barack Obama.
Lembram dele? Bons tempos. Pois deu um verdadeiro “show” no Apollo!
Em tempo obscuros de fake news e do presidente Trump insultando todos os jornalistas e, em especial, os profissionais do NYT, esses dois documentários são dignos de uma longa tradição de excelência e de luta.
Bill Nichols e Amir Labaki em Amsterdam
Além da oportunidade de assistir ao lançamento de alguns dos melhores documentários do mundo, tive o privilégio de encontrar grandes personalidades dos filmes sobre a realidade. Aproveitei a ida ao IDFA 2019 para entrevistar Bill Nichols, historiador e o maior teórico da produção documental. Também encontrei o jornalista e crítico de cinema Amir Labaki, que há muitos anos é responsável pelo É tudo verdade, o maior e mais importante festival de cinema documentário da América Latina.
Aproveitei para solicitar uma apresentação sobre o Bill Nichols ao Amir Labaki, para os nossos leitores: “Bill Nichols, que já tive o prazer de receber por várias vezes no É Tudo Verdade, como conferencista e como jurado, é um crítico e historiador essencial para o desenvolvimento contemporâneos dos estudos sobre documentário. Seu livro Introdução ao documentário sistematizou a reflexão sobre o gênero de maneira pioneira e com inédito impacto planetário, editado seguidas vezes do Brasil à China. Bill é um analista fino da dinâmica da produção não-ficcional, acompanhando no calor da hora a crescente expansão formal do gênero. É um dos três ou quatro pensadores mais importantes dedicados exclusivamente à estética e à história do documentário.”

(Foto: Antonio Brasil)


Feitas as apresentações, segue a entrevista exclusiva com Bill Nichols, que trata dos seus destaques no IDFA 2019, da participação brasileira no festival, seus novos projetos e o futuro dos documentários.
Que filme mais o impressionou no IDFA 2019? E por quê?
Para Sama, por sua perspectiva áspera, no local, profundamente pessoal e comprometida. Ao contrário do jornalista Robert Fisk, comemorado de maneira bastante crítica em This is not a movie, Waad al-Kateab não é empirista, apenas relata o que vê, mas alguém apaixonadamente unido àqueles que se levantaram contra o regime horrendo do líder sírio Bashar al-Assad. Ela documenta poderosamente o cerco de Aleppo e captura a fantástica dedicação de seu marido, um médico, para salvar vidas que significam quase nada para Assad.
Também impressionante é Marshawn Lynch, um filme que quase me fez sair do cinema, supondo que fosse uma celebração acrítica de uma estrela do futebol americano, mas resultou em um brilhante estudo do racismo em geral e da forma muito especial de resistência de Lynch.
Destaco também Forum, iHuman, Sunless Shadows e Still Live, entre outros filmes igualmente impressionantes.
O que você pensa sobre a situação atual dos documentários no mundo?
Estão vivos e bem. Cheios de vitalidade, energia e lidando com questões urgentes que precisam não apenas de representação, mas também de resolução, como sexismo, genocídio, inteligência articial e aquecimento global.
Você tem visto algum documentário brasileiro ultimamente? Seus comentários.
Faith and Fury, de Marcos Pimentel, foi um estudo impressionante de como práticas espirituais afro-brasileiras, como o candomblé, têm sido alvo de ataques violentos por grupos evangélicos. O aspecto mais sombrio disso é a aliança dos evangélicos com os traficantes de drogas que apoiam esses ataques como um desvio do tremendo dano causado pelas drogas. Um pouco entediante, mas importante também.
Quebramar foi um pequeno documentário sobre um grupo de mulheres lésbicas que passam algum tempo na praia e discutem suas experiências. Sem pretensões como filme, deu um retrato claro das forças de discriminação e preconceito que essas mulheres devem enfrentar, bem como a camaradagem que compartilham entre si.
Em relação às suas categorias de documentários tão bem estabelecidas, você acha que elas ainda representam a maioria dos filmes de não ficção? Você consideraria revisar essas categorias?
Sim. Penso que as principais mudanças nos levam a dar mais atenção aos filmes expositivos em primeira pessoa, que agora são chamados simplesmente de documentários de ensaio, uma vez que eles tendem a ser bastante subjetivos em vez de abraçar o ponto de vista mais objetivo dos documentários de modo expositivo mais tradicionais. Os documentários interativos online também são um fenômeno novo e podem não ser realmente documentários, mas, sim, mais uma plataforma ou ambiente. No mínimo, alteram a relação entre documentário e narrativa como um dispositivo estruturador singular.
Como você vê o futuro dos documentários? Como você avalia novas tecnologias e narrativas como VR, IA, webdocs, telefones celulares e interatividade na produção geral de documentos?
Baixo custo, informalidade, padrões flexíveis sobre valores de produção e qualidade audiovisual são claramente novos recursos. VR e webdocs estão surgindo e seu impacto a longo prazo deve ser visto. O primeiro pode se tornar mais uma ferramenta de publicidade, promoção e ensino e, o segundo, principalmente um dispositivo educacional para as escolas, mas é muito cedo para dizer.
Quais são seus projetos pessoais e profissionais agora?
Mudei para a ficção, mas continuo mantendo um alto grau de interesse e compromisso com o campo do documentário.
Paixão pelos documentários
Amir Labaki fez sua avaliação sobre o IDFA 2019 e também cita um filme sobre o jornalismo:
“Acho que o mais relevante documentário sobre a imprensa apresentado foi Letter to the editor, de Alan Berliner, premiado pelo melhor uso de material de arquivo. É uma declaração de amor ao jornalismo diário, em especial ao fotojornalismo, a partir de quarenta anos de recortes de fotos do New York Times arquivados por Berliner. Parece-me especialmente importante o debate que levanta sobre a mudança em nossa relação com a foto em jornais na era impressa, em seu ocaso, e na nova era digital. É também uma celebração do rito diário da leitura do jornal em papel, destacando a dimensão raramente explorada da importância íntima dessa leitura.”
Labaki também destaca os filmes de arquivo que agora contam com premiação específica, a crescente participação feminina e de produtores não europeus e da forte presença de documentários brasileiros, com onze produções nessa edição do festival, o equivalente ao evento de Cannes para os filmes sobre a realidade.
Mas ele também adverte: “A dúvida que fica, diante da atual paralisia dos mecanismos de fomento, é quanto tempo demorará para repetir-se similar performance”.
É sempre difícil se dedicar à cultura no Brasil.

(Foto: Antonio Brasil)


Quando produzi meu primeiro filme, em 1970, quando entrei para a PUC-RJ, em 1972, para a Globo, em 1973, pesquisando e dando aulas em diversas universidades, ou agora, aqui em Amsterdã, cobrindo meu primeiro IDFA em 2019, sempre reafirmei minha paixão pelos documentários, o melhor e o mais importante do cinema e do jornalismo.
Sou muito persistente, consistente e coerente com as minhas paixões.
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Antonio Brasil é jornalista e pesquisador acadêmico do Erich-Brost-Institut für Internationalen Journalismus, Technische Universität Dortmund, Alemanha.