segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Princípios do colunismo

Abrir os trabalhos com uma declaração de princípios que desqualifique o colunismo. Praticar em seguida o método habitual do gênero, o idiossincrático. Só escrever o que realmente pensa acerca de assuntos irrelevantes. Eventuais acertos devem ser compensados por uma redação horrível. Ser desenraizado, volúvel, borboletear em torno do secundário, mas manter o bom rumo, o da esquerda para a direita.

Indignai-vos. A indignação tem presente vivaz e futuro longo, desde que a favor. A atitude é tudo. Seja agressivo, impiedoso até, ao afirmar o óbvio. Justificá-lo com descobertas recentes da neurociência e da genética. Não esquecer jamais que o grande problema nacional é a corrupção, e não a concentração de renda. Seja nostálgico e novidadeiro. Enalteça filmes marginais de Cingapura dos anos 60 e pintores que só irão expor no Soho em 2015.

Não venha com problemas. O leitor os tem em demasia. O seu é diverti-lo. Se for elogiar um sambinha banal, passá-lo pelo moedor de carne da biossemiótica até virar um semantema glúteo que tenda à polissemia. Adotar uma persona displicente e blasé, radical na sua superficialidade. Columnism is the gentle art of making friends. Pega mal usar expressões estrangeiras. A não ser que o contexto clame por frases como “a brevidade é a alma da lingerie”.

Roberto Schwarz, ideólogo mau e perverso

Dê uma de sofisticado; mas não a ponto de pontuar com ponto-e-vírgula ou evitar repetições. O título deve ser forte e não precisa corresponder ao conteúdo. Próximos títulos: “Tudo sobre Dilma e Mercadante”. “Em defesa de Sérgio Cabral”. Em dias de vibração cívica, títulos clássicos. Para logo em seguida às eleições: “Festa da democracia” ou “Lição das urnas”. Um atrito é mais estridente que duas contradições. Na falta de assunto (sustentabilidade, botox, Instagram, ética, Nossa Senhora de Aparecida, fornicação, morosidade da Justiça, frescobol) inspirar-se em redações do Enem, elegante cardápio de textos apetitosos e fáceis de preparar. Ferva 450 ml de água. Ponha o miojo e cozinhe por três minutos. Retire do fogo e misture o pó de galinha caipira. Pode servir.

Ivan Lessa era amigo de Paulo Francis. Dizia ele que o princípio ordenador do que o novo Brás Cubas escrevia era o que o seu patrão pensava. Francis calava-se. Ergo, ler editoriais. Como o concreto é a síntese de todas as determinações, vale reclamar do GPS da sua Mercedes, mas acrescente que o modelo é vintage e custou menos do que um Gol usado. Pedantismo não faz mal a ninguém, desde que vendido como desconforto com tudo que está aí.

Fazer longos resumos de relatórios sem importância. Convença um incauto a publicá-los, escreva as orelhas e bole uma palestra. No tudo-que-está-aí há sempre um nicho de mercado dando sopa. Se a propaganda é a alma do negócio, não há sentido num lírico no auge do capitalismo. Plagie. Pego no flagra, diga tratar-se de um bricabraque rizomático que o denunciante fossilizado é incapaz de alcançar. Falando em fóssil, cautela com Roberto Schwarz, ideólogo mau e perverso.

Cumprir o compromisso é que são elas

Não esqueça, o marxismo é um reducionismo. Quem fala sobre política acaba comentando uma crise na Câmara de Vereadores de Macapá. Na polêmica, sê como o sândalo e perfuma o machado que o fere. Tudo está ligado, exceto o corpo ao espírito, o interesse às ideias, a corrupção à concentração de renda, a coluna à verdade. O comércio acelerado de argumentos incrementa o PIB.

Adicione tenras rodelinhas de salsicha ao miojo. Não se esqueça de dourá-las em fogo brando. Fica padrão Fifa. Humor e ironia são anátemas. Nada de notícias. Isso é coisa de repórter, ser inferior que lida com a realidade e come com a mão, enquanto o colunista saboreia as grandes questões nacionais com talheres de prata. O colunista esteve com Lula. Ele disse que quem vai a protestos mascarado é bandido e deve ser tratado como tal. Faria com os vândalos como com os trotskistas nos anos 70, quando autorizou que queimassem o nosso jornal. “Vocês mereciam”, disse. Eis uma notícia que não cabe em coluna.

A primeira pessoa do singular é prerrogativa de cronistas. Eles estão acima dos colunistas na cadeia evolutiva. É o que dizem descobertas recentes da genética e da neurociência. Seja realista, o Brasil é imutável e deve ser apresentado como tal. Dórica, jônica, coríntia ou botafoguense, a coluna já nasce ruína. A história acabou e o presente é o salário no fim do mês. Dar timbre heroico e grandíloquo ao conformismo. A coluna busca ser engajada e autêntica. Ela trata de questões reais e é crítica de nosso tempo. Não descura de sua vocação profunda, de seu compromisso com o homem no que ele tem de circunstancial e de eterno. Cumprir o compromisso é que são elas.

Terminado o espaço, acabam os princípios.

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Mario Sergio Conti é colunista do Globo