DIREITOS HUMANOS

Os direitos de uns e de outros

Por Luciano Martins Costa em 02/02/2012 na edição 679

 

Comentário para o programa radiofônico do OI, 2/2/2012

 

O tema dos direitos humanos está contemplado em diversas formas nas edições desta quinta-feira, dia 2/2, dos jornais de circulação nacional. Na mais explícita delas, as reportagens tentam dissecar as declarações da presidente Dilma Rousseff durante sua visita a Cuba – mal dissimulando o tom de crítica ao fato de não ter havido uma condenação direta da dirigente brasileira aos seus anfitriões.

A ênfase do noticiário pesa na suposta “frustração” de ativistas com a falta de assertividade nas declarações oficiais, como se fosse praxe chefes de estado questionarem as políticas de quem os recepciona.

Nas referências indiretas ao assunto direitos humanos, a imprensa dá curso a discussões entre autoridades federais e representantes da oposição em torno da operação policial que retirou os moradores de uma ocupação no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos.

Também se refere à questão dos direitos básicos da cidadania o debate em torno das prerrogativas do Conselho Nacional de Justiça.

O direito essencial à distribuição equânime da Justiça está implícito nas disputas sobre a necessidade de controle externo do Judiciário, embora os jornais tenham destacado afirmações que encaminham o debate exatamente na direção contrária.

Não é preciso grande esforço intelectual para se concluir que o corporativismo nos órgãos internos da Justiça compromete a capacidade da instituição de atender a esse pressuposto básico do regime republicano.

Da mesma forma, ao abordar a política brasileira para imigrantes haitianos, a imprensa está tratando de direitos humanos, embora isso não esteja dito claramente nas reportagens.

No entanto, percebe-se que os jornais não vinculam necessariamente todos esses assuntos ao seu eixo principal – o direito amplo e equânime entre os cidadãos. Direitos humanos, na imprensa brasileira destes dias, são apenas os dos cubanos privados da liberdade de expressão e das facilidades de ir e vir.

Essa é uma questão relevante, mas não é a única nem a mais importante. Paralelamente, os direitos dos moradores expulsos do Pinheirinho se enquadram em outro artigo qualquer no manual das redações.

Qual seria a causa dessa distorção?

Ironia e cinismo

As redes sociais da internet estão cheias de fotografias e vídeos feitos por jornalistas independentes e militantes de organizações sociais que se dispuseram a tentar entender o que aconteceu no Pinheirinho.

Os registros mostram claramente que a violência foi excessiva.

Também se pode observar como muitas casas foram arrasadas sem que seus ocupantes tivessem podido retirar seus pertences. Há uma profusão de imagens mostrando móveis, geladeiras e outros equipamentos domésticos destruídos pelas máquinas.

Muito provavelmente aquelas pessoas ainda estão pagando as prestações de seus parcos patrimônios. Mais do que isso, elas tinham o direito de um tempo para recolher documentos, fotografias, brinquedos, amuletos, o que quer que fizesse parte de suas histórias pessoais.

A imprensa deve considerar essencialmente o pressuposto legal da reintegração de posse. Mas num país que ainda é campeão de desigualdades sociais, a análise dos fatos não pode ser feita dessa forma linear, como se vivêssemos na Suécia.

Entre outros elementos, é preciso considerar que os antigos ocupantes do Pinheirinho são tipicamente a classe social que as políticas públicas aplicadas recentemente no Brasil procuram promover.

Eles representam a base da sociedade emergente. Em cima de seus esforços de consumo, na aquisição de geladeiras, móveis, televisores e aparelhos celulares se constrói a economia que faz a alegria dos grandes investidores.

Parte dessa dinâmica se tranforma nos anúncios publicitários que alimentam as empresas de comunicação.

Não se pode escapar à irônica verdade desse fato.

A imprensa brasileira é muito sensível quando se trata da violência estrangeira, dos atentados aos direitos humanos numa ilha do Caribe ou de supostas ameaças à liberdade de informação no outro lado do mundo.

Mas não tem olhos para a barbárie executada com respaldo judicial aqui mesmo.

Cumpra-se a lei – e isso é um pressuposto do bom funcionamento da República. Mas que se cumpra com respeito à dignidade humana.

Um jornalismo decente iria comparar o caso Pinheirinho com a presteza da Justiça e a sanha policial na reintegração de posse de terrenos públicos, por exemplo. Uma pauta minimamente honesta iria buscar as diferenças de tratamento que a Justiça e a polícia dão, por exemplo, a casos como o de Pinheirinho e os das ricas propriedades de veraneio que ocupam terrenos da Marinha ou invadem trechos da Mata Atlântica em todo o litoral do país.

Já não se pode dizer que há uma ironia em tudo isso, porque de ironia em ironia chegamos ao fundo do poço do cinismo.

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 José Ali Ali
 Enviado em: 02/02/2012 10:35:51
Video de apoio às familias do Pinheirinho. http://www.youtube.com/watch?v=IYiS7GVC6qM&feature=share
 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 02/02/2012 14:09:53
O portal Vi o Mundo, do jornalista Azenha, apresenta um matéria com um morador do Pinheirinho que foi baleado de forma covarde pelas costas, pela polícia, e encontra-se em um hospital de São José dos Campos. O que disse a grande imprensa sobre o caso ? Uma imprensa que omite crimes bárbaros cometidos contra trabalhadores, empenha-se em defender uma blogueira cubana que deseja viver no Brasil. Os telejornais ridíulos, das ridículas emissoras de tv, apresentados por rídiculos locutores, disponibilizaram, ontem,generosos minutos para falar da blogueira. Gritavam tanto pelos direitos humanos que não conseguia vê-los. Enquanto isso um silêncio ensurdecedor, escancara a bárbarie, a violência contra humanos direitos, trabalhadores, assaltados e violentados por supostos direitos de animais, criminosos, bandidos de grife, amparados por togas manchadas de sangue e do verde da moeda americana. Revoltada, a população debate a barbárie, que neste momento, contempla a imprensa, a polícia de SP, o governador de SP, o prefeito de São José dos Campos, o judiciário, os ladrões de grife, a indústria imobiliária, a parcela acéfala da sociedade anestesiada, todos, ensaiando o grande enredo da insanidade para desfilar através de tintas e vozes cínicas, na condenação dos humanos direitos. Não por acaso, um jornalista encontra-se em greve de fome, na porta da TV globo, barracão da mentira.
 clara del pilar guzman daza
 Enviado em: 06/02/2012 23:04:51
EXELENTE MATERIA, eu tinha acabado de postar uma sobre o assunto no meu blog, mas não se compara com esta, é claro. no caso dos haitianos a grande massa que segue um pseudo discurso de ajuda humanitaria chega a menosprezar os próprios amazônidas, como se as mazelas pelas que eles passam fosse menos importante para se considerar. o perigo está justamente ai, pois este menosprezo com o tempo criará um movimento contestador do povo da região que certamente ao nao poder atingir a classe media e alta que os menosprezam, atingirá os imigrantes. esse seria o caos.

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

RADIOLUC

JORNALISMO ONLINE

Quem manda é a audiência

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 25/05/2012 | 0 comentários

CÓDIGO FLORESTAL

À espera da decisão de Dilma

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 24/05/2012 | 2 comentários

ONTEM & HOJE

A imprensa e o mercado de escravos

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 23/05/2012 | 1 comentários

FACEBOOK EM BOLSA

O mercado de fantasias

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 22/05/2012 | 0 comentários

LEITURAS DO ESTADÃO

A História em bits

Luciano Martins Costa | Edição nº 694 | 21/05/2012 | 2 comentários

Ver todos os textos desse autor