Sábado, 10 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1370

Da colônia ao telejornal: heranças coloniais na forma de narrar o crime

(Foto: Nadine E/Unsplash)

A violência que a imprensa escolhe ver

Quando a violência ocupa diariamente o espaço central dos noticiários, não estamos apenas diante de um retrato do mundo tal como ele é, mas de uma escolha editorial que organiza o medo, distribui responsabilidades e define quem deve ser visto como ameaça. No Brasil, essa escolha é reiterada, insistente e previsível: certos territórios, certos corpos e certas juventudes aparecem como protagonistas quase exclusivos da narrativa criminal. Não por acaso, são os mesmos grupos historicamente situados nas margens da cidadania.

O jornalismo, sobretudo aquele voltado para a cobertura policial, costuma justificar esse recorte como mera resposta à realidade factual. No entanto, como já alertava Pierre Bourdieu, a mídia não apenas reflete o real, mas participa ativamente de sua construção simbólica, selecionando acontecimentos, enquadrando sujeitos e hierarquizando temas. O que se apresenta como evidência empírica é, muitas vezes, o resultado de uma lógica de produção que transforma exceções em regra e reforça estigmas sociais antigos.

Essa lógica não surge no presente. Ela se ancora em uma longa duração histórica marcada pela experiência colonial, pela escravidão e pela consolidação de um Estado que sempre exerceu o controle social de forma seletiva. A imprensa moderna, longe de romper com esse passado, herdou e atualizou muitas de suas gramáticas, sobretudo no modo como define quem merece proteção e quem pode ser exposto à suspeita permanente.

Colonialidade, estigma e a fabricação do inimigo interno

Desde o período colonial, a sociedade brasileira organizou-se a partir de classificações rígidas que separavam o civilizado do bárbaro, o trabalhador do vadio, o cidadão do perigo social. Essas categorias, como aponta o sociólogo peruano Aníbal Quijano, não desapareceram com o fim do colonialismo formal, mas permaneceram operando como um padrão de poder que articula raça, classe e produção de saber.

No campo da comunicação, essa colonialidade manifesta-se por meio da construção recorrente do inimigo interno. O jovem pobre, negro e periférico passa a ocupar o lugar simbólico da ameaça constante à ordem, enquanto outras formas de violência — econômica, institucional, ambiental — permanecem menos visíveis ou são naturalizadas. Loïc Wacquant observa que, nas sociedades contemporâneas, o Estado penal tende a substituir o Estado social, e a mídia desempenha papel decisivo na legitimação dessa transição ao difundir narrativas punitivistas.

A repetição desses enquadramentos produz um efeito cumulativo. A violência deixa de ser percebida como um fenômeno social complexo, atravessado por desigualdades históricas, e passa a ser interpretada como falha moral ou desvio individual. O medo, nesse contexto, torna-se um recurso político. Ulrich Beck já havia apontado que as sociedades modernas se organizam cada vez mais em torno da gestão do risco, e o jornalismo desempenha papel central na definição de quais riscos devem ser temidos e por quem.

Ao reforçar continuamente a associação entre juventude periférica e criminalidade, a imprensa contribui para a consolidação de uma sensibilidade social que aceita, sem grande resistência, práticas de vigilância, encarceramento em massa e violência policial. A exceção transforma-se em regra, e a repressão passa a ser apresentada como resposta inevitável.

Morte, invisibilidade e o desafio ético do jornalismo

É nesse ponto que a narrativa midiática encontra sua face mais radical. Quando determinados corpos são sistematicamente expostos à morte — física ou simbólica — estamos diante de um regime de visibilidade que hierarquiza vidas. Achille Mbembe descreve esse processo como necropolítico, mas ele não se sustenta apenas por meio das armas do Estado. Sustenta-se também pelas imagens, pelas palavras e pelos silêncios que circulam diariamente nos meios de comunicação.

A cobertura jornalística da violência raramente concede às vítimas o estatuto pleno de sujeitos. Seus nomes, histórias e vínculos afetivos quase nunca aparecem. Em seu lugar, surgem categorias genéricas que encerram o sentido antes mesmo de qualquer possibilidade de compreensão. Didier Fassin argumenta que essa assimetria na distribuição da compaixão pública revela uma economia moral que define quais vidas são dignas de comoção e quais podem ser descartadas sem luto.

A imprensa, ao reproduzir esse padrão, afasta-se de sua função democrática e aproxima-se de uma lógica de administração da morte social. Não se trata de censurar a cobertura da violência, mas de reconhecer que toda narrativa carrega implicações éticas. Como lembra Hannah Arendt, a banalização do mal não ocorre apenas pela ação direta, mas também pela normalização cotidiana de práticas que deixam de ser questionadas.

Romper com essa herança exige um jornalismo capaz de contextualizar, complexificar e, sobretudo, humanizar. Significa deslocar o foco do espetáculo para a compreensão, do estigma para a análise, do medo para a responsabilidade social. Significa reconhecer que narrar a violência é, inevitavelmente, tomar posição sobre o tipo de sociedade que se deseja sustentar.

Enquanto a imprensa continuar a tratar determinadas juventudes como descartáveis, a democracia permanecerá incompleta. Revisitar as heranças coloniais que estruturam a narrativa do crime não é um exercício acadêmico abstrato, mas uma urgência política. Cabe ao jornalismo decidir se continuará a reproduzir um passado que insiste em não passar ou se assumirá o desafio de construir um presente mais justo também no plano da representação.

Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BECK, Ulrich. Sociedade de risco. São Paulo: Editora 34, 2010.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

FASSIN, Didier. A razão humanitária: uma história moral do tempo presente. Petrópolis: Vozes, 2014.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales, v. 6, n. 1, 2000.

WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

***

Cleyton Douglas Vital é pesquisador no departamento de Ciências da Comunicação, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) em Portugal. Com foco em jornalismo policial, jovens e representações midiáticas da violência.