
(Imagem: Capa: Joel-Silveira.-O-inverno-da-guerra.-capa.-livro-Companhia-das-Letras-2025)
“Guerreiros, de pé! À luta!” O correspondente de guerra brasileiro Egydio Squeff anunciava o começo do dia, ainda antes do sol, no inverno italiano de 1944. A frase, repetida como refrão, está em Inverno na guerra, de Joel Silveira, em nova edição pela Companhia das Letras.
Silveira não estava só. Convivia diariamente com Rubem Braga, do Diário Carioca, com Squeff, de O Globo, e outros jornalistas brasileiros e estrangeiros. Entre eles, eram “os três patetas” e, pela Convenção de Genebra, não podiam portar arma alguma.
Correspondentes eram soldados desarmados, dependentes de transporte militar, de permissões, de rotas perigosas e da própria sorte. Chegar às linhas avançadas, conta Silveira, era sempre um risco.
Entre o indispensável estava a máquina de escrever, saco de dormir, comida, lanterna e vela. Se não conseguissem voltar, dormiam ali mesmo, em plena zona de combate. Eles estavam alojados em Pistoia, num quartel antigo e com aquecimento precário.
Silveira partiu para a Europa a serviço dos Diários Associados. Chegou ao front no inverno de 1944 e permaneceu na Itália até abril de 1945, acompanhando os meses finais da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Ele escreveu: “Bem, meu nome é Joel Silveira, jornalista de 26 anos, e estou indo para a guerra”. E lembra das palavras do seu chefe, Assis Chateaubriand: “Vá para a guerra, mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias”.
Silveira foi repórter, colunista, editor e correspondente de guerra. Suas reportagens viraram livros, entre eles Viagem com o Presidente Eleito, A Camisa do Senador, A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista e A Feijoada que Derrubou o Governo.
A guerra da qual falava era a mesma da Força Expedicionária Brasileira, a FEB, integrada ao 5º Exército norte-americano. Os correspondentes brasileiros acompanhavam uma divisão que atuava nas montanhas dos Apeninos, em estradas estreitas, sob frio intenso, neblina constante e fogo inimigo vindo das alturas.
A Rota 64, que levava a Porretta Terme, concentrava boa parte dos perigos da cobertura. Estrada estreita, esburacada por granadas, cheia de curvas, atravessando pontes visadas pela artilharia alemã. Cruzá-la significava, como escreve Silveira, passar “do lado de cá da guerra” para dentro dela.
Uma vez no QG avançado, o trabalho começava pela informação. Mapas, relatos de patrulhas, mudanças no posicionamento das tropas, notícias de feridos e mortos. Em seguida, cada correspondente escolhia para onde ir, procurando o ponto mais próximo do inimigo, onde o risco era maior, mas também a possibilidade de apuração direta.
Ao falar de si, de Braga e de Squeff, Silveira constrói uma visão muito concreta do correspondente de guerra. Um profissional exposto ao risco, limitado pela logística, submetido ao frio, à censura e às hierarquias militares, mas movido pela obrigação profissional de sempre mandar notícias.
No início, a relação com o comando da FEB foi difícil. Os correspondentes precisaram demonstrar, na prática, que estavam ali para trabalhar, não para criar embaraços. A publicação regular dos despachos ajudou a construir um ambiente de diálogo e confiança.
Silveira descreve o correspondente como alguém que precisava escolher. Onde ir, o que ver, o que relatar. Havia também a disputa. Silveira reconhece em Squeff um adversário. A concorrência era amistosa e parte do ofício. Ambos dispunham de ampla franquia telegráfica, o que lhes permitia enviar despachos diários e sem economia de palavras.
Além disso, eles recolhiam mensagens dos pracinhas para enviar aos familiares no Brasil. Bilhetes simples, remetidos pelo telégrafo, que chegavam em poucos dias e levavam alívio a quem esperava notícias. Jornalismo é também um serviço humano.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
