Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1377

O “olhar estrangeiro” e as oportunidades de atuação do correspondente internacional

(Foto: Divulgação)

Em webinário promovido pelo Observatório da Imprensa nesta quarta-feira, dia 25 de fevereiro, jornalistas com passagens por grandes veículos globais discutiram a rotina, a ética e as transformações do mercado de correspondentes internacionais.

O debate mediado por Denize Bacoccina, editora do Observatório da Imprensa, explorou como a presença local do repórter é fundamental para traduzir contextos culturais complexos, mesmo em tempos de crise no modelo de negócios do jornalismo.

Veja aqui a íntegra do debate.

https://www.youtube.com/watch?v=QdxqodTCcBs

Participaram do debate Veronica Goyzueta, professora de Jornalismo da ESPM e correspondente do jornal espanhol ABC, Mariana Sanches, colunista do UOL em Washington, e anteriormente correspondente nos EUA para a BBC News Brasil e repórter em O Globo, Época e Marie Claire, Mauricio Savarese, repórter da agência de notícias AP e comentarista do Jornal da Cultura, em São Paulo, e Paula Ramon, jornalista venezuelana, correspondente da AFP em Los Angeles, anteriormente repórter e editora da agência no Brasil e no Uruguai.

A construção do “olhar estrangeiro”

A necessidade de manter a capacidade de surpresa foi um ponto central. Para Verônica Goyzueta (Jornal ABC), o correspondente precisa treinar um “olhar estrangeiro” para identificar valor em fatos que a imprensa local já naturalizou.

Maurício Savarese (Agência AP) complementou essa visão com uma provocação: “É preciso ser ‘burro’ no sentido de ver uma coisa, não ter ideia do que significa e achar que vale a pena explicar”. Ele ressaltou que a tradução de termos como “TCU” ou “STF”, por exemplo, para o público externo, exige explicar o significado e a função dessas instituições, e não apenas a sigla.

O que é pauta para o correspondente?

Um dos temas abordados foi a diferença entre o que é pauta no Brasil e no exterior.

Verônica Goyzueta destacou o caso da ministra Marina Silva, que internacionalmente é uma referência absoluta, enquanto no Brasil é muitas vezes tratada como um “entrave econômico” ou perseguida politicamente.

Mariana Sanches (UOL) relatou o choque cultural ao cobrir a fome nos EUA: enquanto brasileiros se surpreendem, fontes americanas sentiam-se “humilhadas” pela abordagem. Ela também mencionou o impacto de ver máquinas de venda automática de kits contra overdose de fentanil em Washington, algo que só o repórter em campo consegue captar.

Paula Ramon (AFP) enfatizou que, em agências globais, o desafio é encontrar o “fio humano” que ressoe em qualquer lugar, citando a migração como um tema universal.

O Brasil como espelho para o mundo

O debate abordou como o interesse internacional pelo Brasil mudou após os eventos de 8 de janeiro e o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Maurício Savarese observou que os EUA olharam para o julgamento de Bolsonaro como um espelho de sua própria democracia e do caso Trump.

Mariana Sanches corroborou, afirmando que os americanos entraram em um “divã” coletivo, percebendo que sua democracia de 250 anos talvez não seja tão “inquebrantável” quanto pensavam.

Crise no mercado e novas oportunidades

A redução de postos fixos nos grandes veículos jornalísticos foi lamentada, mas os jornalistas apontaram caminhos para novos profissionais:

Paula Ramon relatou sua experiência recente na Venezuela pós-Maduro, destacando o papel do correspondente como “os olhos de quem não pode estar lá”.

Mariana Sanches aconselhou que, em centros fora do eixo EUA-Europa (como a Austrália, como perguntou uma jornalista pelo chat), o jornalista deve buscar pautas de vanguarda, como regulação de redes sociais e minerais críticos, para atrair o interesse brasileiro.

Maurício Savarese indicou a Copa do Mundo Feminina no Brasil (2027) como uma porta de entrada estratégica para freelancers atuarem como produtores ou fixers para veículos estrangeiros.

Recomendações para a Próxima Geração

Ao final, o consenso foi de que o domínio do idioma (especialmente o inglês) é o ponto de partida, mas a leitura extensiva e a habilidade multimídia (vídeo e edição básica) também são fundamentais para que o jornalista se qualifique a atuar como correspondente. Como resumiu Mariana Sanches: “Bom jornalismo é chegar lá, testemunhar o fato e contar o que só você poderia ter contado”.

A íntegra do debate pode ser vista aqui.

Resumo elaborado pela ferramenta de IA Google Gemini, com edição humana.