Domingo, 14 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

A censura que não ocultou nada

(Foto: The Six/Pexels)

Em 9 de abril de 2026, a comunicadora digital Kriska Carvalho (@KriskaCarvalho) publicou em seu perfil na plataforma X uma série de observações que, embora formuladas na linguagem direta das mídias sociais, tocam em questões de considerável densidade para o campo da comunicação e da teoria política. Seu argumento central pode ser resumido nos seguintes termos: a volatilidade anormal dos assuntos do momento na plataforma estaria sendo instrumentalizada por setores da extrema direita para construir, artificialmente, a narrativa de censura, mesmo nos casos em que as notícias referenciadas foram amplamente divulgadas pela imprensa convencional. A autora menciona, como exemplo paradigmático, o incêndio ocorrido no dia 8 de abril no Velódromo do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, pois foi um fato coberto inclusive pelo Jornal Nacional, mas que, por não ter permanecido entre os trending topics, foi reinterpretado como evidência de ocultamento deliberado. Dessa forma, este artigo não busca refutar nem confirmar em bloco as teses de Kriska, mas tensioná-las, complexificá-las e situá-las em um quadro analítico mais amplo, reconhecendo tanto o que elas capturam com precisão quanto o que eventualmente simplificam.

O ponto de partida mais produtivo é, talvez, a distinção entre comportamento de rede e operação coordenada. Kriska afirma que não gosta de teorias da conspiração e que prefere observar comportamentos, mas sua conclusão, de que a disseminação coordenada da narrativa de censura “dificilmente é por acaso”, recai precisamente no tipo de raciocínio que ela diz recusar, a saber, o de que a sincronia implica planejamento central. A questão é epistemicamente mais delicada do que parece, pois na literatura sobre desinformação e comportamento de redes, a coordenação pode assumir formas híbridas, nas quais atores deliberados amplificam disposições espontâneas de grupos que acreditam genuinamente no que disseminam. A desinformação eficaz combina, frequentemente, elementos estratégicos com dinâmicas orgânicas de adesão. Isso significa que a narrativa de censura pode ser simultaneamente construída por agentes com intenção manipuladora e reproduzida por usuários que a percebem como genuína, o que torna a pergunta sobre coordenação menos binária e mais estrutural.

Antes de qualquer interpretação política, contudo, é necessário examinar o fenômeno técnico que Kriska identifica, a instabilidade dos assuntos em alta. A percepção de que “nada fixa” tem explicações plausíveis no plano da arquitetura das plataformas que não requerem, em si, a hipótese de intervenção externa. A partir de 2022, sob nova gestão, o X passou por sucessivas mudanças algorítmicas que priorizaram picos rápidos de engajamento em detrimento de permanência temática. A isso se soma a fragmentação da atenção entre múltiplas plataformas, uma vez que o debate que começa no X migra para as outras plataformas, dissolvendo a percepção de centralidade. O volume crescente de conteúdo disputando atenção simultânea também contribui para que nenhum tema domine por muito tempo. Desconsiderar essas variáveis técnicas ao interpretar a volatilidade dos trending topics é um equívoco metodológico relevante, porque é precisamente a ambiguidade do fenômeno, podendo ser ao mesmo tempo técnico e explorado politicamente, que o torna tão eficaz como combustível narrativo. A narrativa de censura não funciona apesar da incerteza sobre as causas da volatilidade, ela funciona por causa dessa incerteza.

Esse ponto conduz ao mecanismo central que Kriska identifica com precisão e que merece ser aprofundado teoricamente, isto é, a fabricação da sensação de censura sem censura efetiva. O argumento não é o de que a imprensa foi silenciada, mas o de que a percepção de silêncio pode ser produzida independentemente do silêncio real. Trata-se de uma operação que opera sobre as condições de percepção da informação, e não sobre a informação em si. As narrativas desinformativas alteram a forma como os indivíduos avaliam a credibilidade das informações disponíveis, tornando-os suscetíveis a interpretações que confirmam disposições prévias. Nesse quadro, o fato de uma notícia ter sido amplamente coberta pela mídia convencional não constitui imunidade contra sua reinterpretação como evidência de ocultamento, desde que essa reinterpretação ressoe com uma desconfiança já instalada nas audiências.

É aqui que o argumento de Kriska encontra sua eficácia, mas também suas limitações mais visíveis, porquanto ao descrever o padrão como “típico do discurso autoritário” e ao mencionar Trump como referência internacional, a autora articula uma genealogia política importante, a do populismo midiático que ataca as instituições de mediação para substituí-las por comunicação direta e desintermediada, haja vista que existe a tendência de líderes populistas a transformar a mídia em adversário estrutural, construindo uma identidade política fundada no confronto com os “guardiões” da informação e da memória. Essa estratégia, documentada em múltiplos contextos nacionais, efetivamente desgasta a confiança nas instituições jornalísticas como efeito calculado, não colateral. A literatura sobre erosão institucional mediada pela desinformação confirma que a disseminação sistemática de narrativas de descrédito da imprensa produz quedas mensuráveis de confiança, independentemente da qualidade factual dos veículos atacados.

No entanto, é necessário problematizar a direção causal implícita no texto de Krika, visto que ao atribuir o fenômeno principalmente à ação deliberada da extrema direita a autora corre o risco de subestimar a agência estrutural das próprias plataformas na produção do ambiente propício a essas narrativas. O capitalismo de vigilância transforma dados comportamentais em matéria-prima para a modulação de comportamento em escala. Isso significa que as plataformas não são apenas palcos neutros sobre os quais atores políticos agem, elas amplificam ativamente conteúdos que maximizam engajamento, e conteúdos emocionalmente carregados, especialmente aqueles que evocam indignação, ameaça ou perseguição, têm vantagem estrutural nesse ambiente. A sensação de censura, portanto, não é apenas construída por atores mal-intencionados e depois amplificada passivamente, ela é, em certa medida, o tipo de conteúdo que a lógica econômica das plataformas está estruturalmente orientada a amplificar. Isso não absolve os agentes políticos que a instrumentalizam, mas desloca parcialmente a responsabilidade para a arquitetura do sistema de informação contemporâneo.

A plataformização da esfera pública, processo pelo qual infraestruturas privadas assumem a mediação da informação coletiva segundo critérios opacos e orientados por métricas de engajamento, cria uma assimetria cognitiva fundamental. Os usuários experimentam os efeitos das decisões algorítmicas sem ter acesso às regras que as governam. Nesse contexto de opacidade estrutural, a suspeita de manipulação não é apenas uma resposta irracional ou politicamente induzida, mas é uma resposta possível e, em certa medida, funcionalmente racional diante de um sistema cujo funcionamento interno é sistematicamente ocultado. O problema é que essa suspeita legítima pode ser capturada e dirigida por narrativas que a convertem em paranoia política e desconfiança da imprensa, em vez de crítica à lógica das plataformas. A distinção entre desconfiar do algoritmo e desconfiar do jornalismo é precisamente o que as narrativas que Kriska descreve tratam de dissolver.

Existe, contudo, uma tensão metodológica que o próprio texto de Kriska ilustra e que vale nomear, já que a autora, ao observar comportamento de rede e identificar padrões coordenados, mobiliza exatamente o mesmo tipo de raciocínio inferencial, de padrão para intenção, que atribui à extrema direita quando esta interpreta a volatilidade dos trending topics como evidência de censura. Em ambos os casos, parte-se de uma observação de superfície (o que aparece ou não aparece na plataforma) para uma conclusão sobre agência deliberada (há coordenação, há ocultamento). Isso não invalida a análise de Kriska, cujo argumento tem suporte empírico mais robusto do que o que critica, mas aponta para a necessidade de rigor metodológico simétrico, pois a coordenação, quando afirmada, deve ser demonstrada com evidências de sincronização anormal, redes de amplificação identificáveis e padrões de repetição de frame que não sejam explicáveis por adesão espontânea. Sem isso, corre-se o risco de substituir uma narrativa de padrão por outra igualmente especulativa.

O que está em jogo, no entanto, vai além da disputa sobre a veracidade de conteúdos específicos ou da identificação de responsáveis por esta ou aquela campanha. Estamos falando de arquitetura da confiança. Quando a imprensa é sistematicamente apresentada como cúmplice de ocultamento, quando instituições são enquadradas como agentes de desinformação e quando a experiência individual, amplificada por algoritmos que aprendem a reforçar disposições prévias, passa a ser considerada mais confiável do que a verificação coletiva, o espaço público perde sua capacidade de constituir referências compartilhadas. Isso não é apenas um problema de desinformação, mas uma crise de mediação, no sentido mais profundo do termo. A pergunta relevante, portanto, não é apenas se há ou não censura em dado momento, mas como determinadas condições estruturais – técnicas, econômicas e políticas – tornam plausível, sustentável e emocionalmente convincente a crença em sua existência.

A observação de Kriska Carvalho, formulada nas condições do discurso das mídias sociais, aponta para um problema real e documentável. Sua contribuição está em nomear, com precisão prática, um mecanismo que a literatura especializada confirma, ou seja, a possibilidade de fabricar a percepção de censura sem censura efetiva. Entretanto, o que o tensionamento crítico aqui proposto sugere é que esse mecanismo não pode ser reduzido à ação de agentes específicos sem considerar o ambiente estrutural que o torna operável. A instabilidade algorítmica das plataformas, a lógica econômica que privilegia o emocional sobre o factual, a opacidade dos sistemas de visibilidade e a erosão progressiva da confiança institucional não são pano de fundo neutro sobre o qual a desinformação age, são condições de possibilidade sem as quais ela não prosperaria. Compreender isso não é absolver nenhum ator, mas é condição para enfrentar o problema com a complexidade que ele exige.

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Ramsés Albertoni é Professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa: Arte & Democracia e Comunicação, Arte e Literacia Midiática.