Sexta-feira, 15 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1388

A política sequestrada pelos algoritmos

(Foto: Tibe De Kort/Pexels)

A ascensão da extrema-direita nas redes vai além da comunicação eficiente. Em um ambiente marcado por estímulos emocionais e desinformação, o debate público cede espaço à disputa pela atenção — e pelo controle da percepção da realidade.

A lógica que durante décadas organizou o debate público nas democracias contemporâneas começou a ruir — e grande parte da análise política ainda não compreendeu a profundidade dessa transformação. Continuam importando as propostas mais consistentes, os diagnósticos mais sólidos e a capacidade concreta de responder aos problemas sociais. Mas isso deixou de ser suficiente para definir quem consegue moldar a percepção coletiva.

O centro de gravidade deslocou-se para outro território: o da atenção permanente. E, nesse ambiente, a direita brasileira — sobretudo em seus setores mais radicalizados — ampliou sua influência não pela força argumentativa, mas por perceber antes dos demais que, na era das plataformas digitais, alcance pesa mais do que coerência, choque produz mais efeito do que profundidade e repetição vale mais do que argumento.

Já não se trata prioritariamente de persuadir, mas de ocupar espaço mental. O debate cede lugar ao estímulo contínuo; a reflexão é substituída por reação; e os fatos passam a competir com versões emocionalmente moldadas para produzir engajamento instantâneo. O ambiente em que se define o que será visto, compartilhado e assimilado como percepção dominante deixa de ser organizado pela qualidade das ideias e passa a ser ocupado pela capacidade de simplificá-las até o limite da caricatura.

A vida pública não se tornou mais acessível. Ela foi deliberadamente reduzida a impulsos rápidos, imagens fortes e respostas instantâneas. Essa mudança não é apenas estética. É estrutural. Durante décadas, a arena democrática organizou-se em torno da formulação de propostas, do confronto entre interpretações e da construção de consensos possíveis.

Esse modelo não desapareceu por completo, mas perdeu centralidade diante de uma dinâmica baseada na produção incessante de estímulos. Conteúdos curtos, emocionalmente carregados e frequentemente superficiais são lançados em fluxo contínuo para capturar segundos de atenção e provocar reação imediata. Não precisam ser rigorosos, completos nem coerentes. Precisam apenas repercutir. E, quando repercutem, os algoritmos convertem distorção em alcance e superficialidade em influência política.

O que inicialmente poderia parecer exagero pontual revelou-se, na prática, um método de operação. Estudos conduzidos por universidades europeias e norte-americanas, ao analisarem milhões de publicações de lideranças políticas em democracias contemporâneas, identificaram um padrão recorrente: movimentos associados à direita radical recorrem com frequência muito maior à desinformação como ferramenta estratégica de mobilização.

Não como acidente, mas como escolha deliberada. No Brasil, esse mecanismo consolidou-se especialmente a partir do ciclo político inaugurado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, quando a disseminação sistemática de conteúdos enganosos, os ataques às instituições e as narrativas distorcidas deixaram de ocupar as margens do debate público para se tornar elementos centrais da comunicação política.

A lógica é simples — e extremamente eficiente. Conteúdos que despertam indignação, medo, escândalo ou riso tendem a se espalhar com muito mais velocidade do que análises complexas. O algoritmo não distingue fatos de distorções; apenas amplifica aquilo que provoca reação. Nesse ambiente, narrativas manipuladas frequentemente alcançam mais pessoas do que informações verificáveis — não por serem mais consistentes, mas porque foram moldadas para funcionar melhor dentro da lógica das plataformas digitais.

No Brasil, esse padrão encontrou um terreno particularmente fértil. A erosão da confiança nas instituições, o desgaste da credibilidade da imprensa e a expansão de redes sociais com pouca mediação produziram um ambiente em que fatos, opiniões e distorções passaram a disputar atenção quase no mesmo patamar de legitimidade. Consolida-se, assim, uma sociedade paradoxal: hiperexposta à informação e, ao mesmo tempo, cada vez mais vulnerável à manipulação. Nesse cenário, a narrativa mais simples — e mais estridente — tende a ocupar espaço não por sua consistência, mas por sua capacidade de repetição e penetração emocional.

Esse fenômeno não se limita às plataformas digitais. Redes de rádio, televisão e canais religiosos com enorme capilaridade social podem atuar, em determinados contextos, como ambientes de reforço narrativo, nos quais informação, opinião e valores se misturam de forma pouco delimitada. 

Em vez de ampliar compreensão, esses espaços frequentemente operam como mecanismos de alinhamento e mobilização coletiva. A desinformação, nesses casos, deixa de aparecer como falha eventual e passa a funcionar como instrumento político.

Décadas antes da internet, o filósofo francês Guy Debord definiu a “sociedade do espetáculo” como um estágio histórico em que as relações sociais passam a ser mediadas por imagens e representações. Hoje, sua formulação parece menos teórica do que descritiva.

A imagem já não faz apenas a mediação política — muitas vezes, ela a substitui. O efeito mais profundo dessa transformação não é imediato, mas cumulativo. Quando o debate é continuamente trocado por estímulos instantâneos, cria-se um ambiente em que o eleitor reage mais do que reflete. A complexidade perde espaço para a simplificação agressiva. O argumento é descartado. E o gesto repetido à exaustão passa a ocupar o lugar da verdade pública.

A questão central, portanto, não é apenas compreender o funcionamento desse modelo, mas também a fragilidade da resistência que ele encontra. Parte da resposta está na própria arquitetura das plataformas digitais, desenhadas para premiar reação imediata e punir reflexão prolongada.

Mas há também um componente político decisivo. Enquanto setores da esquerda continuam presos a uma comunicação mais institucional, centrada em dados, programas e gestão pública, a extrema direita investiu numa linguagem orientada não à compreensão racional, mas à mobilização emocional permanente — ainda que baseada na distorção sistemática dos fatos.

Isso não significa que a saída esteja em reproduzir esse método. Naturalizar a manipulação como estratégia legítima significaria aceitar a deterioração do próprio espaço democrático. O desafio não é substituir verdade por propaganda mais eficiente, mas compreender que a comunicação se tornou elemento central da disputa contemporânea por consciência pública. Ignorar essa transformação significa deixar o debate coletivo nas mãos de grupos cada vez menos comprometidos com fatos verificáveis.

É justamente nesse ponto que a análise precisa abandonar qualquer ingenuidade. A força recente da direita brasileira não nasce da consistência do que propõe, mas da eficiência com que transforma circulação em poder, instabilidade em mobilização e espetáculo em influência política. Não se trata de um movimento mais preparado para governar, mas de um projeto que aprendeu a operar com enorme eficácia num ambiente em que viralização produz mais efeito do que argumentação e choque emocional gera mais adesão do que reflexão.

O problema que se coloca para a democracia é, portanto, mais profundo do que aparenta. Não basta discutir regulação de plataformas ou combate à desinformação como se estivéssemos diante de distorções periféricas. O que está em curso é uma transformação estrutural na maneira como sociedades constroem consensos, interpretam acontecimentos e reconhecem legitimidade política. A disputa contemporânea já não se limita à apresentação de propostas: ela envolve a capacidade de definir quais versões dos fatos conseguirão sobreviver no espaço público.

Porque, no fim, já não basta possuir as melhores ideias. É preciso impedir que elas desapareçam sob uma engrenagem permanente de simplificação, manipulação e estímulos desenhados para bloquear qualquer reflexão prolongada. No Brasil, parte significativa desse mecanismo foi incorporada pela extrema direita como estratégia de poder: substituir debate por performance, argumentação por viralização e complexidade por choque emocional contínuo.

Quando o espetáculo ocupa definitivamente o lugar do debate, eleições deixam de ser apenas escolhas entre projetos de país. O que passa a estar em disputa é algo mais profundo: a própria capacidade de uma sociedade distinguir fatos de manipulação antes que a realidade seja dissolvida em consumo emocional, reação instantânea e ruído permanente.

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Marcelo Copelli, jornalista correspondente na Europa, editor de Política e pesquisador na área de Comunicação.