Quinta-feira, 30 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Entre avanços e desigualdades, o que os dados oficiais revelam sobre a infância brasileira

(Foto: Juan Pablo Serrano /Pexels)

O Brasil construiu uma das maiores histórias de sucesso da saúde pública nas últimas décadas: reduziu em mais de 85% a mortalidade de crianças no primeiro ano de vida desde 1980. Essa conquista costuma ser contada por indicadores isolados — uma taxa que cai, uma vacina que avança, uma política pública que produz resultados. Mas, quando diferentes bases oficiais passam a ser observadas em conjunto, emerge um retrato mais complexo. O ritmo desse avanço perdeu força e as desigualdades continuam concentradas justamente entre as crianças e os territórios historicamente mais vulneráveis.

Mais do que reunir números já conhecidos, esta reportagem cruza evidências produzidas por diferentes sistemas oficiais para identificar padrões que dificilmente aparecem quando cada indicador é analisado separadamente. O resultado revela uma mudança silenciosa na trajetória da saúde infantil brasileira.

Uma conquista construída ao longo de décadas

Em 1980, para cada mil crianças nascidas no Brasil, quase 83 morriam antes de completar o primeiro ano de vida. Quatro décadas depois, essa taxa caiu para cerca de 12 mortes por mil nascidos vivos, uma redução superior a 85%, resultado da expansão do Sistema Único de Saúde (SUS), da ampliação do pré-natal, do fortalecimento das políticas de atenção materno-infantil e da consolidação do Programa Nacional de Imunizações, que transformou o Brasil em referência internacional.

Essa mudança também aparece em um indicador pouco conhecido do público: as mortes infantis e fetais por causas evitáveis, aquelas que poderiam ser prevenidas por vacinação, assistência adequada à gestação e ao parto, diagnóstico precoce e tratamento oportuno. Em 1996, o país registrava pouco mais de 53,1 mil mortes desse tipo. Em 2023, segundo dados preliminares do Painel de Monitoramento da Mortalidade Infantil e Fetal, do Ministério da Saúde, esse número havia caído para cerca de 20,2 mil, o menor patamar em 28 anos de monitoramento.

Os números mostram que políticas públicas contínuas e a ampliação do acesso aos serviços de saúde mudaram profundamente as chances de sobrevivência das crianças brasileiras. Essa é uma conquista inquestionável da saúde pública nacional. É justamente por isso que uma pergunta passa a merecer atenção: o que os principais indicadores da saúde da criança e do adolescente passaram a mostrar quando deixaram de ser observados isoladamente?

Quando o ritmo dos avanços muda

Por quase quatro décadas, o Brasil vivenciou uma queda consistente na mortalidade infantil, mas esse cenário sofreu uma inflexão em meados da década de 2010. Segundo o Ministério da Saúde, a taxa, que se manteve estável entre 2017 e 2019 em cerca de 12,5 óbitos por mil nascidos vivos, apresentou um aumento após o início da pandemia de Covid-19, atingindo 12,8 mortes por mil nascidos vivos em 2023, patamar superior ao observado antes da desaceleração.

Mortalidade infantil entre 2000 e 2023

 

Essa instabilidade não ocorreu isoladamente e coincidiu com a queda nas taxas de cobertura vacinal infantil. Conforme o Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência, SBIm e Unicef, em 2023, nenhuma vacina infantil atingiu a meta de 95% de cobertura em todos os estados. A vacina meningocócica C, por exemplo, não alcançou a meta em nenhum estado durante o triênio 2021-2023, evidenciando desigualdades territoriais profundas que persistem apesar das recentes campanhas de retomada promovidas pelo Ministério da Saúde.

Embora os dados recentes apontem uma recuperação na vacinação impulsionada por busca ativa e campanhas nacionais, a série histórica indica que o patamar atual de proteção ainda é inferior ao do período anterior à crise de meados da década de 2010. Recuperar as perdas recentes, portanto, não equivale a retomar os níveis de excelência de décadas passadas, revelando que os desafios estruturais para a saúde infantil permanecem complexos e de difícil reversão imediata.

Um termômetro crítico dessa fragilidade é o volume de internações por condições sensíveis à atenção primária, que indicam falhas na prevenção e no tratamento precoce. Em 2021, o Brasil contabilizou mais de 3 milhões dessas internações. Entre crianças de até quatro anos, esse índice é o terceiro maior do país, atrás apenas das faixas etárias acima de 55 anos. Esse dado reforça que problemas de saúde evitáveis continuam sobrecarregando a rede hospitalar por não serem solucionados na atenção básica.

Essa convergência de indicadores (mortalidade infantil, cobertura vacinal e internações evitáveis) sugere que diferentes dimensões da proteção à infância perderam o ritmo de progresso simultaneamente. Embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito imediata entre esses fatores, a leitura conjunta dessas evidências aponta para uma direção comum: o esgotamento de um modelo de avanço que, agora, exige novos esforços para garantir que a saúde das crianças brasileiras volte a progredir com a mesma intensidade de antes.

Quando os indicadores começam a apontar na mesma direção

A análise isolada de indicadores, como a estagnação da mortalidade infantil, a queda na cobertura vacinal e o alto índice de internações evitáveis, pode sugerir problemas desconexos, mas, quando integrados, revelam um padrão de fragilidade sistêmica. As internações por condições sensíveis à atenção primária, frequentemente motivadas por gastroenterites, pneumonias e crises de asma, exemplificam essa falha: a redução da proteção coletiva via vacinação e a menor resolutividade da atenção básica aumentam a probabilidade de hospitalizações que poderiam ser evitadas com um acompanhamento preventivo mais eficaz.

O impacto das condições estruturais, como o saneamento básico, reforça essa conexão territorial. Estudos publicados na Revista Brasileira de Estudos Regionais e Urbanos demonstram que, nos municípios brasileiros, a precariedade do saneamento, com índices mais críticos nas regiões Norte e Nordeste, não afeta apenas a cidade de origem, mas exerce influência estatística na mortalidade infantil de municípios vizinhos. Isso evidencia que as vulnerabilidades sanitárias transbordam fronteiras, disseminando riscos por territórios inteiros e evidenciando a interdependência da rede de saúde.

Reforçando essa visão integrada, o Ministério da Saúde, em seu boletim epidemiológico sobre mortalidade infantil (2015-2021), aponta que a maioria desses óbitos ainda é considerada evitável. A Secretaria de Vigilância em Saúde defende que o papel dos dados não deve ser apenas estatístico, mas servir de base para o aperfeiçoamento dos serviços. O órgão reforça que a redução da mortalidade é um desafio complexo, que exige a atuação articulada entre os diferentes níveis de governo e o combate direto às desigualdades no acesso aos serviços essenciais.

Em última análise, a convergência desses dados, embora não estabeleça uma relação única de causa e efeito devido às diferentes metodologias de cada instituição, demonstra que a proteção à infância perdeu ritmo de forma coordenada. Ao observar simultaneamente vacinação, saneamento e assistência básica, percebe-se uma desaceleração histórica que afeta, de maneira desproporcional, os mesmos grupos populacionais. Esse padrão de convergência é a chave para compreender que a saúde da criança brasileira depende, hoje, de um esforço intersetorial que vá além das soluções fragmentadas do passado.

O retrato regional revela aquilo que a média nacional esconde

As médias nacionais ocultam disparidades profundas, mas a análise territorial revela um padrão persistente de desigualdade que se concentra nos mesmos lugares. Há décadas, pesquisadores documentam como a mortalidade infantil e o acesso a serviços básicos se distribuem de forma desigual pelo Brasil, com as regiões Norte e Nordeste concentrando os maiores desafios. Este cenário não é apenas um reflexo de problemas isolados, mas de uma estrutura de vulnerabilidade em que fragilidades sociais e sanitárias se reforçam mutuamente.

O saneamento básico é um dos exemplos mais contundentes dessa assimetria. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, em 2024, 90,2% dos domicílios no Sudeste possuíam acesso à rede geral de esgoto, enquanto na Região Norte essa cobertura era de apenas 31,2%. Esta disparidade reflete-se diretamente nas taxas de internação por doenças relacionadas às condições sanitárias, evidenciando que a precariedade da infraestrutura impacta diretamente a saúde infantil.

A mortalidade infantil segue a mesma lógica de distribuição desigual. Dados do DataSUS referentes a 2024 indicam que na Região Norte a taxa foi de 15,2 mortes por mil nascidos vivos, enquanto na Região Sul o índice foi de 9,4. A repetição desses dados em diferentes sistemas oficiais demonstra que as taxas mais elevadas coincidem sistematicamente com as regiões que acumulam maiores vulnerabilidades sociais, reafirmando que o território é um determinante crítico dos desfechos de saúde.

Essa desigualdade regional também se manifesta na proteção vacinal. Ao comentar os resultados do Anuário VacinaBR 2025, a chefe de Saúde do UNICEF Brasil, Luciana Phebo, ressaltou que, apesar da retomada nas coberturas vacinais, persistem disparidades estruturais que impedem uma equidade real. A observação confirma que a melhoria dos indicadores nacionais, por si só, não é capaz de eliminar as diferenças históricas entre as regiões, que continuam a enfrentar barreiras distintas na execução de políticas públicas.

Por fim, o padrão de vulnerabilidade transcende o fator geográfico e encontra eco em marcadores étnicos. Um estudo publicado na The Lancet Global Health, abrangendo 19 milhões de recém-nascidos, demonstra que crianças pretas, pardas e indígenas enfrentam desproporcionalmente condições sociais desfavoráveis e barreiras de acesso a políticas públicas. Ao integrar esses dados, percebe-se que a desaceleração na saúde infantil observada na última década não é uniforme: ela atinge com mais intensidade aqueles que historicamente sempre estiveram em situação de maior fragilidade.

Tabela regional (mortalidade, saneamento, gravidez adolescente)

 

Quando sobreviver deixou de ser a única preocupação

A redução da mortalidade infantil, uma das maiores conquistas da saúde pública brasileira, transformou a pauta do país: o foco não é mais apenas a sobrevivência, mas como as crianças crescem, se alimentam e se desenvolvem até a adolescência. Esta transição reflete uma mudança de paradigma em que novos desafios, ligados ao desenvolvimento e à qualidade de vida, passam a coexistir com as fragilidades estruturais que o Brasil ainda tenta superar.

Na nutrição infantil, o país é um caso emblemático de antecipação dessa transição. Conforme levantamento do UNICEF de 2025, a obesidade superou a desnutrição globalmente, mas o Brasil já vivenciava esse fenômeno no ano 2000, quando a obesidade infantil atingiu 5% contra 4% de desnutrição. Em 2022, a obesidade na faixa de 5 a 19 anos saltou para 15%. Contudo, o UNICEF alerta que essa mudança não é uniforme: o país enfrenta uma carga dupla de má nutrição, em que os problemas de alimentação se sobrepõem às desigualdades históricas de saneamento e acesso à saúde.

A gravidez na adolescência ilustra a persistência dessas disparidades. Embora o percentual de nascimentos de mães adolescentes tenha caído de 14,7% em 2019 para 11,4% em 2024, o Brasil ainda registrou 273,2 mil nascimentos nesse grupo, incluindo mais de 12 mil casos envolvendo meninas de 10 a 14 anos. Dados do Cidacs/Fiocruz, sistematizados pelo UNFPA, apontam que as regiões Norte (21,3%) e Nordeste (16,9%) concentram as maiores taxas, evidenciando que o fenômeno incide de forma desproporcional sobre meninas indígenas (28,2%), pardas (16,7%) e pretas (13%).

Ao cruzar indicadores como nutrição, gravidez precoce, vacinação e saneamento, emerge um padrão claro: todas essas vulnerabilidades convergem nos mesmos territórios e grupos populacionais. Essa recorrência, observada através de sistemas oficiais distintos, não sugere uma causalidade direta entre os problemas, mas aponta para uma acumulação de riscos. As desigualdades sociais atuam como um fator transversal que conecta diferentes dimensões da proteção à infância.

Em última análise, os desafios contemporâneos da saúde infantil não substituíram as metas do passado; eles os tornaram mais complexos. O Brasil enfrenta o desafio de manter os avanços na sobrevivência infantil enquanto combate as novas mazelas do desenvolvimento e da transição para a vida adulta. Compreender essa realidade exige, portanto, abandonar as análises isoladas em favor de uma visão integrada, capaz de mapear como as desigualdades brasileiras continuam moldando o futuro das novas gerações.

O que essa leitura revela

Os indicadores reunidos nesta reportagem — como mortalidade infantil, cobertura vacinal, internações por condições sensíveis à atenção primária, saneamento, nutrição e gravidez na adolescência — não são novidades, pois fazem parte do monitoramento contínuo de instituições públicas e sistemas oficiais de saúde, como o Programa Nacional de Imunizações e as estatísticas do SUS. Embora esses dados estejam disponíveis há anos, o diferencial desta análise é a observação conjunta desses indicadores, que frequentemente são tratados de forma isolada em relatórios distintos.

Quando analisados separadamente, cada dado oferece uma visão parcial: a vacinação indica a proteção contra doenças, o saneamento reflete a infraestrutura, a mortalidade infantil mede resultados de saúde pública e as internações evitáveis avaliam a eficácia da atenção básica. No entanto, ao cruzarmos essas informações, surge uma narrativa abrangente que revela como os avanços na saúde da criança e do adolescente, embora presentes, perderam o ritmo acelerado das décadas anteriores, mantendo desigualdades que atingem desproporcionalmente territórios e grupos específicos.

Este exercício jornalístico demonstra que a crescente disponibilidade de dados públicos ganha maior valor quando informações dispersas dialogam entre si. Ao aproximar bases de dados, é possível revelar conexões invisíveis e compreender desafios complexos que permanecem ocultos em análises confinadas a um único setor. O objetivo central é superar a visão fragmentada, permitindo que o leitor perceba padrões e lacunas que não seriam evidentes se cada estatística fosse lida de maneira isolada.

O Brasil provou, ao longo das últimas décadas, que políticas públicas consistentes têm o poder de transformar a vida de milhões de crianças. Os dados atuais indicam que, apesar de o país não ter interrompido esse caminho, o avanço perdeu intensidade e os resultados permanecem distribuídos de forma desigual. Compreender o cenário atual da infância brasileira exige, portanto, reunir esses fragmentos para identificar os desafios pendentes e garantir que as conquistas históricas alcancem, de fato, todas as crianças, sem exceção.

Fontes e referências

Mortalidade infantil geral

IBGE. Tábuas Completas de Mortalidade 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Mortalidade Infantil no Brasil, 2015 a 2021. Boletim Epidemiológico 2022; 53(46):27-36.

Dados regionais de mortalidade infantil (2024): DATASUS/Ministério da Saúde, sistematizados por Brasil em Mapas.

Mortalidade infantil e fetal por causas evitáveis

BRASIL. Ministério da Saúde. Painel de Monitoramento da Mortalidade Infantil e Fetal. Brasília: Secretaria de Vigilância em Saúde, 2024. Disponível em: gov.br/saude.

Cobertura vacinal

INSTITUTO QUESTÃO DE CIÊNCIA; SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES (SBIm); UNICEF. Anuário VacinaBR 2025. Belo Horizonte: IQC, 2025. Disponível em: vacinabr.org.br/anuario2025.

PHEBO, Luciana. Declaração como Chefe de Saúde do UNICEF Brasil, por ocasião do lançamento do Anuário VacinaBR 2025, jun. 2025.

Internações por condições sensíveis à atenção primária

Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/DATASUS), 2021, sistematizados pelo Observatório da Saúde Pública.

Saneamento básico

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) — Características dos domicílios e moradores. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

Estudo de painel espacial: Saneamento Básico e Mortalidade Infantil: Uma análise via painel espacial para os municípios brasileiros. Revista Brasileira de Estudos Regionais e Urbanos, anos censitários 1991, 2000 e 2010.

Desigualdades étnico-raciais na mortalidade infantil

REBOUÇAS, P. et al. Ethnoracial inequalities and child mortality in Brazil: a nationwide longitudinal study of 19 million newborn babies. The Lancet Global Health, v. 10, n. 10, p. e1453-e1462, out. 2022.

Nutrição infantil

UNICEF. Relatório sobre Nutrição Infantil 2025: Alimentando o Lucro — Como os Ambientes Alimentares estão Falhando com as Crianças. Nova York: UNICEF, set. 2025.

Gravidez na adolescência

BRASIL. Ministério da Saúde. Painel de Monitoramento de Nascidos Vivos (Sinasc). Dados 2024.

CIDACS-Fiocruz. Gravidez e Maternidade na Adolescência — um estudo da coorte de 100 milhões de Brasileiros. Dados sistematizados pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), 2020.

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Germana Plácido é Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Maranhão (PPGCOM/UFMA). Jornalista e pesquisadora com atuação em temas relacionados ao Jornalismo de Dados, à Transparência Pública, à Política e à Democracia Digital