Terça-feira, 22 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

Quem ganha com a não regulamentação do jornalismo?

(Foto: cottonbro studio/Pexels)

Concebida junto à esfera política, a profissão de jornalista encontra-se numa sinuca de bico: deontológica, econômica, identitária e regulamentadora. Com a conduta regida apenas por códigos de ética, autorregulação e sindicatos, a não exigência de diploma precariza e descredibiliza todos os que estão ligados a esse ofício.

A maioria das democracias liberais atuais não adota um conselho da classe como poder regulamentador/disciplinar, alegando a preservação da liberdade de expressão de toda e qualquer pessoa que deseje exercer esse papel. Mas a verdade é que existe uma diferença clara entre opinião e informação.

A informação é caracterizada por um fato, dado ou relato sobre a realidade que pode ser checado, comprovado ou testado empiricamente. Independe de gosto, crença ou ponto de vista pessoal de quem transmite. Ou seja, objetividade jornalística puríssima.

Já a opinião reflete a subjetividade pessoal de quem a expressa, carregada de interpretação, julgamento, sentimento ou avaliação pessoal.

Jamais se deve confundir opinião com informação, ou liberdade de imprensa com liberdade de expressão.

Essa situação atual precariza a função de jornalista, facilitando a prestação de serviços no mercado, com acúmulo de funções e remuneração abaixo do piso, impondo salários mais baixos para profissionais iniciantes ou multifuncionais. Tudo isso não só desvaloriza os anos de dedicação de profissionais formados, como transforma o meio comunicacional em uma verdadeira baderna.

Além disso, a falta de limites éticos e institucionais favorece quem utiliza a informação como ferramenta de controle ou propaganda. Permite a criação de páginas falsas de jornalismo independente, atuando sem nenhum compromisso com a apuração, o código de ética, a transparência editorial ou o interesse público. Servindo apenas a interesses econômicos ou partidários ocultos.

Nesses casos, também vale ressaltar a falta de punição a atos de difamação, atentados contra a ética, abusos graves e golpes sob o pretexto de “jornalismo”. Esses casos dependem de processos comuns na Justiça que demoram a ser concluídos e se mostram ineficientes, visto que quem os comete retorna ao seu posto de liberdade de expressão logo em seguida.

Um ótimo caso a ser pontuado é o de Marcelo Castro, conhecido como “Alô Juca” por conta do seu programa de “jornalismo” policial. Ele, que está sendo julgado pelo famoso golpe do Pix dado em seu programa televisivo anterior, retornou ao noticiário baiano em outra emissora, como se nada tivesse acontecido. O processo ainda tramita na Justiça, e “Juca” é o número 1 da Bahia com seu programa sensacionalista, que fere a ética, a responsabilidade e os valores que a profissão de jornalista prega – ou deveria pregar.

Um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT/2018) comprovou que o sensacionalismo se espalha rápido porque mexe com as emoções e com a busca por aceitação social. Os pesquisadores notaram que “as respostas emocionais de surpresa e indignação fazem com que as notícias falsas tenham 70% mais probabilidade de serem retransmitidas do que as verdadeiras”.

Essa reação intuitiva acaba superando a análise crítica do leitor, afirmam os cientistas cognitivos da Universidade Cornell, Gordon Pennycook e David G. Rand (2021): “As pessoas frequentemente compartilham desinformação não porque são incapazes de discernir a verdade, mas porque a atenção no ambiente digital é direcionada para a validação social em detrimento da acurácia.”

Segundo levantamento da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os brasileiros figuram entre as populações com maior dificuldade em distinguir checagens precisas de manchetes manipuladas em testes de apuração.

E ainda assim não acham necessário regulamentar?

Os defensores da não regulamentação afirmam que uma intervenção do Estado no setor pode abrir margem para censura, controle de narrativa pelo governo da vez ou limitação da liberdade de expressão de cidadãos e produtores independentes de conteúdo.

Mas o profissional de jornalismo é apenas um cidadão dando opinião ou um produtor de conteúdo qualquer? Não. Ou, pelo menos, não deveria. Essa é a diferença que insistem em não enxergar.

A realidade é que um conselho bem estruturado assegura, sim, a liberdade de imprensa. 

E, acima de tudo, o cumprimento da responsabilidade ética e a cassação de quem a descumprisse. O medo real é da punição e da perda dos benefícios sociopolítico-econômicos que existem na desonestidade informacional. Os quais cairiam por terra com uma regulamentação, pois teriam que deixar de usar a precarização do debate público como financiador de suas teias multiplicadoras de dinheiro.

A impunidade e a segurança no Artigo 5º da Constituição Federal deixam essas pessoas livres para atuar de forma desonesta contra o interesse público.

Mas a pergunta que fica é: quem ganha com a não regulamentação do jornalismo?

O jornalismo de cabresto.

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Vitória Bragi é é estudante de Jornalismo no 5º semestre em Salvador.